A Estação Primeira de Mangueira voltou a apresentar uma estética muito consistente, criativa e de bom acabamento no segundo desfile assinado por Sidnei França. Com um enredo potente e cheio de ancestralidade, a Verde e Rosa passou de forma segura pela Sapucaí, com fluidez, tempo controlado e destaque para o canto da escola. Se o samba não foi explosivo, a comunidade mostrou que está sempre fechada com a escola. O ponto preocupante ficou para o casal e a comissão, justamente na cabine espelhada. Na abertura do desfile, a comissão não conseguiu ser satisfatória na apresentação para os dois lados e, no casal, Matheus acabou hesitando ao pegar o pavilhão, precisando de mais de um toque para segurá-lo.

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Com o enredo “Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, a Estação Primeira de Mangueira foi a última escola a pisar na Sapucaí nesta primeira noite de desfiles do Grupo Especial, com o tempo de 79 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Com coreografia assinada por Lucas Maciel e Karina Dias, em “Te Invoco do Meio do Mundo”, animais sagrados e uma árvore erguida ambientavam o público com a Amazônia Negra, território afro-indígena do extremo norte do Brasil. No momento ritualístico, os povos originários tomavam o caxixi, bebida responsável pelo transe, e passavam a celebrar os seres de Outro Mundo. Essas energias se apresentavam entre os planos físico e espiritual, fundindo realidades diante dos tons e das texturas do encanto tucuju. Saudando a natureza e as forças ancestrais, aquele que é seu maior representante foi invocado e tomou o espaço. O Xamã Babalaô, guardião dos povos, da cura e das culturas amapaenses, apresentou-se como a forma encantada de Mestre Sacaca. Embrenhado em sua Amazônia, o personagem seguiu vivo como natureza pulsante.

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Na apresentação no módulo, o Xamã Babalaô, ao ser invocado, apareceu na árvore e realizou um efeito de luz em suas asas, como se manuseasse o fogo. Ao final, surgia Yá Benedita. O elemento cenográfico, constituído por uma árvore centenária gigante, era de fato muito bonito, e a ideia dos animais, das onças, era interessante, além do trabalho de luz do Xamã. Porém, na cabine espelhada, a comissão não conseguiu encontrar um modo de se apresentar simultaneamente. Na parte em que o Xamã aparecia, ele surgia apenas para um lado e fazia o truque de luz, enquanto, no outro, o jurado via apenas a dança dos componentes ao redor da árvore, com o elemento cenográfico sem aproveitamento por muito tempo. Assim, cada jurado ficou um bom tempo com a árvore à frente sem que nada acontecesse. Ponto negativo de uma ideia interessante, que passou melhor no primeiro e no terceiro módulo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Estação Primeira de Mangueira, Matheus Olivério e Cintya Santos, coreografado por Ana Paula Lessa, veio inserido na abertura do desfile da Verde e Rosa, personificando os participantes indígenas do Turé. Os figurinos da dupla, belíssimos, com a parte de baixo trabalhada no marrom-escuro em contraste com as pedras coloridas e a estética indígena, trouxeram referência ao trabalho plumário e às padronagens inspiradas nas artes dos povos originários dessa região, representando, de forma carnavalizada, os participantes que integram esse ritual, apoiando os pajés em diferentes missões.

* Sairé: o toque indígena do Carvão ecoa na Avenida da Estação Primeira de Mangueira

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A coreografia foi forte e intensa, justificando o apelido de “Casal Furacão”, com Cintya colocando em prática todos os seus artifícios nos giros, para os dois sentidos, inclusive aquele em que inclina o corpo. Matheus também executou seus passos característicos, com uma dança que remete muito ao mestre Delegado, honrando o legado do sambista histórico. A apresentação foi muito boa no primeiro módulo, mas não teve perfeição no segundo, justamente no espelhado, quando, na segunda sequência de giros, a porta-bandeira estende a bandeira e o mestre-sala hesita e não a segura de primeira, precisando dar mais de um toque no pavilhão. Uma pena pela apresentação forte que a dupla fazia. Já no terceiro módulo, tudo certo.

ENREDO

Desenvolvido pelo carnavalesco Sidnei França, “Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra” homenageou a sabedoria popular, a ancestralidade amazônica e a figura de Mestre Sacaca, valorizando a cultura do Amapá e a Floresta Amazônica. No primeiro setor, definido por Sidnei como primeiro encanto, a Mangueira inaugurou o seu cortejo inspirada no ritual indígena do Turé, realizado no extremo norte do Brasil. Foi um momento de celebração aos seres de Outro Mundo, vivenciado pelo transe do caxixi.

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No segundo setor, o Xamã Babalaô seguiu o chamado das águas, mergulhando nas correntezas que unem gente e mistério. Nesse encanto, apresentou-se que os rios eram estradas fundamentais na vida de Sacaca e que conduziam, diariamente, as populações tradicionais com as quais ele tanto conviveu.

No terceiro setor, o Xamã Babalaô reencontrou-se com os segredos da mata, transformando a natureza em Ciência do Encanto, em que diversos elementos carregavam o poder da cura e, por meio deles, o encantado tucuju cuidava de seu povo e disseminava a medicina ancestral.

No quarto setor, ao ouvir o som dos tambores, o Xamã Babalaô reviveu sua vocação para a cultura e integrou-se às manifestações de seu povo, celebrando junto a ele.

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O quinto setor encerrou o desfile mostrando o Xamã Babalaô como espírito encantado que caminha ao lado da nação mangueirense, revivendo os saberes, as tradições e os valores de sua comunidade.

No geral, a história foi muito bem contada, com fantasias de fácil leitura, bom encadeamento narrativo e uma mensagem importante ao final. Faltou apenas relacionar um pouco mais essa ancestralidade de Mestre Sacaca com a Mangueira, algo que sempre emociona o mangueirense e que tinha espaço no desfecho. Mas nada que comprometa o bom trabalho narrativo de Sidnei.

EVOLUÇÃO

A evolução da Mangueira foi uma das melhores dos últimos tempos. Cadenciada, a escola passou com fluidez muito eficiente. Controlada, aproveitou bem as apresentações, encerrando o desfile no tempo, apesar de levar um conjunto de desfilantes bastante grande. Passou pela Sapucaí com calma, com os componentes aproveitando o desfile.

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O principal: sem correria ou buracos, a escola desfilou com seu tapete de fantasias e alegorias sem deixar espaços aparentes. No compasso do samba, a evolução não foi marcada pela intensidade, mas houve alegria e espontaneidade do mangueirense. A grande maioria das fantasias em trajes leves também ajudou. Destaque para a ala “O Movimento das Águas Barrentas do Amazonas”, que realizava coreografia com componentes mudando e trocando de lugares para aludir ao movimento das águas.

HARMONIA

Estreando em voo solo na Sapucaí, Dowglas Diniz não sentiu a pressão do momento. Calmo, fez tudo com muita correção e qualidade. O cantor foi um achado da escola: ritmista, começou a cantar, fez parte do carro de som, dividiu microfone com Marquinhos e hoje é a voz principal de uma escola como a Mangueira. Dono de uma voz rasgada, com ótima extensão vocal e afinação, mostrou que a aposta foi acertada, inclusive fazendo solo no refrão de baixo, respondido pelas vozes femininas.

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O restante do carro de som, experiente e talentoso, composto por nomes como Leandro Santos e Daniel Silva, além das afinadas e competentes Cacá Nascimento e Nina Rosa, teve mais uma vez alta produtividade. E falar do canto da comunidade da Mangueira é chover no molhado: cantaram do início ao fim, alegres e interagindo com o público. Era notório, tanto que Dowglas, em diversos momentos, deixava apenas para o povo o verso “Abençoe o jeito Tucuju”.

SAMBA-ENREDO

A obra da Mangueira foi produzida pelos compositores Pedro Terra, Tomaz Miranda, Joãozinho Gomes, Paulo César Feital, Herval Neto e Igor Leal. Envolto em algumas polêmicas em sua escolha no concurso de sambas, o samba mostrou um caráter mais cadenciado, remetendo aos do início dos anos 2000. A bateria dos mestres Taranta Neto e Rodrigo Explosão aproveitou para inserir bossas pertinentes à música e à temática do desfile, como a utilização do marabaixo.

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Com propensão a uma linha melódica bem desenvolvida, como na primeira parte do samba a partir de “Finquei minhas raízes” e no fim da segunda estrofe em “Yá Benedita de Oliveira”, a obra não possui refrões de grande explosão, sendo mais cadenciada e mantendo linha mais reta e focada na melodia. Apesar disso, o desempenho na avenida foi satisfatório.

FANTASIAS

A Mangueira trouxe um conjunto de fantasias muito bem trabalhado, rico, com utilização de materiais de alta qualidade, bom gosto e soluções estéticas não tão óbvias. As fantasias eram de fácil leitura e ajudaram a contar o enredo.

Já na primeira ala, “Turé, uma nação incorporada”, Sidnei França trouxe a palha contrastada com os tons de verde e rosa, além de pontos de azul e laranja cítrico, abrindo o desfile com efeito interessante em figurinos com três formas diferentes.

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O segundo setor destacou o verde em diferentes tonalidades, contrastando com cores como os tons de barro na ala “O Movimento das Águas Barrentas do Amazonas” e com o dourado na ala “Navegando no Rio Matapi”, evitando monotonia cromática.

No terceiro setor, que tratava dos segredos da mata, o verde voltou intercalado com tons de madeira e elementos do dia a dia inseridos nas fantasias com boa qualidade estética, como nas alas “O Ritual da Colheita” e “O Poder das Cascas e Sementes”, ambas belíssimas e com soluções visuais fora do óbvio.

A partir da ala 12, “Simpatias para o Povo Ter Fé”, a opção por tons terrosos em contraste com laranja e vermelho dialogou com a alegoria “Engarrafa a Cura”, trazendo nova roupagem ao desfile. Após o terceiro carro, no setor dos Tambores, o rosa começou a aparecer mais, como nas alas “Couro do Amassador do Curiaú” e “Açucenas e Tocadores”. Foi o momento com maior presença da cor, o que pode incomodar o mangueirense mais fervoroso, mas era pertinente ao enredo.

Ao falar de Mestre Sacaca como ser encantado e guardião da floresta, a escola finalizou com paleta em tons de marrom, palha e barro, reforçando a ancestralidade da floresta e do Xamã Babalaô.

ALEGORIAS

Também de muita qualidade estética, as alegorias apresentaram volumetria, altura e esculturas bem executadas, com boa leitura do enredo e soluções criativas. Com bom acabamento, os carros passaram pela Sapucaí sem grandes problemas. Apenas o abre-alas teve questão na dispersão, já fora do desfile.

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O abre-alas mostrou a Mangueira aportando no extremo norte do Brasil no ritual do Turé. A cerimônia indígena é realizada como forma de agradecimento e enaltecimento aos espíritos invisíveis, como o próprio Xamã Babalaô. Cobras, jacarés e pássaros estavam espalhados pelo carro, pintados com grafismos dos povos originários. Maracás erguidos simbolizavam a manifestação indígena, além de figuras animais, elementos celestes e efeitos sonoros da floresta.

A segunda alegoria mostrou o Xamã Babalaô nas águas doces, reencontrando os povos tradicionais amapaenses. Tinha como elemento central uma cobra ligada às correntes fluviais, além de embarcações inspiradas nas utilizadas por Mestre Sacaca. Alegoria criativa e com movimento, embora o acabamento tenha sido inferior às demais.

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O terceiro carro exaltou a reconexão com a medicina ancestral, com escultura central de uma senhora segurando um bebê recém-nascido, fruto de uma garrafada. Havia representações de medicamentos populares e efeito de fumaça nos cachimbos.

O quarto carro trouxe a Missa dos Quilombos, ápice do Encontro dos Tambores, celebrando manifestações culturais e religiosas amapaenses com elementos do afrocatolicismo amazônico.

A quinta alegoria apresentou o Xamã Babalaô em forma humana, entrelaçado à natureza, surgindo como raiz de uma árvore viva, símbolo da sobrevivência física e espiritual da Amazônia Negra. Excelente conjunto alegórico.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Tem Que Respeitar Meu Tamborim”, dos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto, representou o Xamã Babalaô, conhecido como Preto Velho do Amapá. Com fantasia que incluía barba postiça, destacou-se também por bossa com marabaixo.

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A rainha Evelyn Bastos, em sua terceira “encantaria”, representou a fumaça, simbolizando as mandingas do Xamã Babalaô, com fantasia em tons entre o preto e o prata.

No esquenta, Dowglas Diniz levantou a Sapucaí com o samba de exaltação, além de “Tem Capoeira” e “Salve Mangueira”. Em discurso, a presidente Guanayra Firmino lembrou a ancestralidade da escola e inflamou os desfilantes a darem o seu melhor.