A Portela promoveu um resgate histórico na primeira noite do Grupo Especial ao levar para a Marquês de Sapucaí a religiosidade negra do Sul do Brasil. O desfile apresentou o Batuque, tradição de matriz africana da região, por meio de figuras como o Príncipe Custódio, o orixá Bará e a lenda do Negrinho do Pastoreio, símbolos que confrontam o apagamento da presença negra na cultura sulista.
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Concebido pelo carnavalesco André Rodrigues, o enredo questiona a ideia de um Sul exclusivamente branco e de costumes europeus. Integrante da ala Xirê dos Orixás, Rosinete de Alencar representou Ogum, divindade do metal, e destacou a importância de ampliar os imaginários sobre a região.
“Todo mundo pensa que no Rio Grande não existe macumba, não existe Batuque, só pessoas brancas. E não. Existem negros, existem várias religiões, como em qualquer lugar”, afirmou.

Nas religiões de matriz africana, o passado é memória viva e espaço de reverência. Umbandista, a componente ressaltou o valor educativo do enredo para as novas gerações.
“Eu acho lindo representar nossa religião, mostrar a cultura, as roupas, os costumes. Quem está nascendo agora precisa ter esse conhecimento”, disse.
Ao narrar o assentamento de Bará no Mercado Público de Porto Alegre, o samba-enredo evoca a divindade com o pedido de licença “Alupó” no refrão, momento que transforma a energia da Avenida e emociona os desfilantes.
“Me arrepio dos pés à cabeça. Vi muita gente chorando no ensaio técnico. É como um fortalecimento da alma”, contou.

Da ala Batuqueiro Mandingueiro, Luciana Monteiro reforçou que conhecer a diversidade religiosa é condição para o respeito.
“A gente precisa aprender a respeitar. Não adianta conhecer só a própria religião; é preciso entender a do outro para respeitar e até admirar”, destacou.
Mesmo diante de críticas recorrentes sobre a repetição de temas afro nas escolas de samba, os componentes defendem a permanência dessas narrativas como afirmação de memória e existência.
“A ancestralidade não pode morrer. Precisamos saber por que estamos aqui e o que ainda temos que evoluir a partir dos nossos ancestrais”, concluiu.









