A Portela foi a terceira escola a desfilar neste domingo e levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “O mistério do príncipe do Bará, a oração do Negrinho e a ressurreição da sua coroa sobre o céu do Rio Grande”, desenvolvido pelo carnavalesco André Rodrigues. Exaltando a ancestralidade negra no Sul do Brasil, a azul e branco de Madureira transformou sua Águia, símbolo maior da escola, em um elemento central da narrativa, em associação à figura do Príncipe Custódio, liderança religiosa do Batuque gaúcho. Após as críticas recebidas em 2025, a escola voltou a colocar sua ave altaneira no centro do debate e, sobretudo, do coração da comunidade.
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Neste ano, a Águia surgiu imponente, com plumagem em tons intensos de azul e prata, detalhes dourados remetendo à coroa ressuscitada no enredo e olhos iluminados que pareciam vigiar a avenida do alto. As asas se abriam em movimento amplo, como se abraçassem a Sapucaí, enquanto elementos que remetiam ao Batuque e à realeza negra adornavam sua estrutura, transformando o símbolo em verdadeiro altar sobre rodas. No topo, a composição evocava a ideia de trono sagrado, fundindo religiosidade, história e identidade portelense em uma única imagem.
Para entender o impacto emocional da Águia junto à comunidade, o CARNAVALESCO conversou com três componentes da escola: Liamara Barbosa, de 44 anos, contadora e há quatro anos desfilando na Portela; Bárbara Trindade, de 28 anos, secretária da quadra, completando um ano de dedicação à escola; e Luiz Oliveira, de 55 anos, consultor de vendas, portelense desde 1994.
A Águia como trono sagrado do Príncipe Custódio
Ao serem questionados se a Águia deixava de ser apenas símbolo para se tornar trono do Príncipe Custódio, os três entrevistados foram unânimes ao reconhecer a força simbólica do momento.

“Sim, com certeza. E eu sinto que essa mudança não acontece apenas hoje, no dia do desfile, mas vem desde o momento da escolha do enredo. A partir do instante em que o tema foi definido, a Águia transcendeu o papel de símbolo da Portela para se tornar o grande símbolo da avenida e de Madureira. Ela vem reinando, abrindo todos os caminhos da Sapucaí para que o nosso desfile seja impecável”, afirmou.
Bárbara Trindade também associou a nova leitura da Águia ao processo de renovação vivido pela escola. “Com certeza. A Portela está vindo com tudo este ano, apresentando um trabalho lindíssimo. Eu sinto que a escola está passando por um verdadeiro processo de renovação, e essa mudança na simbologia da Águia faz parte disso. É algo muito positivo que fortalece ainda mais a nossa identidade”, disse.

Para Luiz Oliveira, a identificação é ainda mais profunda. “Com certeza. A Águia é o príncipe, é o rei da nossa Majestade do Samba. Ela é o nosso símbolo maior, a nossa representação máxima. É algo tão forte que fica até difícil explicar em palavras o que ela representa para nós”, concluiu.
A coroação da comunidade portelense
A sensação de ser coroado pela Águia ao entrar na avenida também marcou os depoimentos. A imagem da ave pairando sobre os componentes foi descrita como um rito de passagem antes do desfile.
“É uma sensação indescritível. A Águia paira sobre cada um de nós, componentes, trazendo muito axé e uma energia renovadora. Ela tem o poder de transformar a nossa comunidade nessa verdadeira nação portelense que todos veem. É como se ela nos ungisse com essa força antes de pisarmos na avenida”, afirmou Liamara.

Já Bárbara reforçou o simbolismo do voo como metáfora de superação. “A Águia representa o voo alto. E o voo alto é exatamente o lugar onde todos nós queremos estar; é a nossa busca constante pelo topo e pela excelência. Ela nos inspira a crescer e a dar o nosso melhor na avenida”, disse.
Luiz, por sua vez, destacou que esse sentimento faz parte da identidade da escola. “Sem dúvida nenhuma. Esse sentimento está enraizado no nosso coração e na nossa alma; está no sangue de cada componente. A presença dela nos motiva e nos dá a força necessária para entrar na avenida com tudo”, concluiu.
Axé, fundamento e caminhos abertos na Sapucaí
Se em 2025 a Águia foi alvo de críticas, em 2026 ela voltou carregada de axé e fundamento religioso, como apontam os componentes.
“Muito, muito mesmo. Ela tem que ajudar e, na verdade, já vem fazendo isso desde o início, como mencionei sobre a escolha do samba. Agora, o que estamos vendo aqui é o momento de concretizar todo esse trabalho e essa espiritualidade. A Águia vem para coroar esse axé e nos guiar rumo à vitória”, afirmou Liamara.
Bárbara também apostou na força espiritual do desfile. “Sem dúvida. A Portela vem carregada no dendê, com uma força e uma vontade de vencer muito grandes. Estamos vindo com muito axé, como sempre, e espero que essa energia nos acompanhe do início ao fim. Que seja um desfile abençoado e marcante para todos nós”, disse.
Para Luiz, o momento da escola reforça a confiança na busca pelo título. “Com toda essa reestruturação e as mudanças na diretoria, a Portela atingiu um outro patamar, um nível de excelência muito alto. A pegada está diferente e a energia da comunidade está lá em cima. Tenho plena convicção de que este ano estamos vindo fortes em busca do nosso 23º título, com a nossa Águia abrindo todos os caminhos para a gente na Sapucaí”, concluiu.









