A Portela foi a terceira escola a desfilar neste domingo e apresentou o enredo “O mistério do príncipe do Bará, a oração do Negrinho e a ressurreição da sua coroa sobre o céu do Rio Grande”, desenvolvido pelo carnavalesco André Rodrigues. Na Avenida, a azul e branco de Madureira exaltou a ancestralidade negra no Sul do Brasil, colocando no centro da narrativa a trajetória do Príncipe Custódio e a força do Batuque gaúcho. Ao propor um “Pampa Negro”, a escola rompeu o imaginário do gaúcho exclusivamente europeu e reposicionou o Rio Grande do Sul como território também marcado pela presença e resistência preta.
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Para falar sobre essa ressignificação, a reportagem conversou com três componentes: Wallace Costa, 37 anos, estudante, estreante na escola e integrante da ala Lanceiros Negros; Mirela Rocha, 42 anos, professora da UFRJ, portelense desde a infância e também estreante na Avenida; e Vander Anacleto, 43 anos, bancário gaúcho que fez seu primeiro desfile pela azul e branco.
O enredo mudou a visão sobre o Sul do Brasil?

Wallace Costa afirmou que foi o enredo que despertou sua paixão pela Portela.
“Ver a nossa história preta sendo contada de uma forma que nunca foi contada mexeu comigo. Eu desfilo na ala Lanceiros Negros e não conhecia a fundo essa história. Fiquei muito emocionado e orgulhoso de fazer parte dessa ala, conhecendo a trajetória dos Lanceiros Negros que foram enganados. Eles tinham a promessa de serem libertos da escravidão, caso vencessem uma guerra onde usaram lanças contra armas. Venceram e a promessa não se cumpriu. Vir nessa ala me faz viver um momento histórico”, declarou.

Mirela Rocha, nascida no extremo sul de Santa Catarina, em uma cidade de forte cultura gaúcha, destacou que cresceu em meio a uma narrativa embranquecida. “É uma história muito branca, uma história que foi apagada. Eu sou devota do Negrinho do Pastoreio desde criança, algo que minha avó me ensinou. Quando o enredo traz o Príncipe Custódio com o Batuque e o Negrinho recontando essa história, coroando o Príncipe Custódio e o Bará, vejo como uma reinvenção da narrativa preta no Rio Grande do Sul. É recuperação de memória, mas também reinvenção”, afirmou.
Ela ressaltou ainda a potência simbólica do personagem. “O Negrinho do Pastoreio é uma criança escravizada que permanece na memória popular. A Portela o coloca em um lugar de potência. É isso que o Carnaval faz: reconta a história desde um lugar de força”, disse.

Vander Anacleto explicou que, por ser gaúcho, sempre soube da presença negra no estado. “Eu já tenho vivência de que lá existe o povo preto além dos imigrantes. Para mim, não muda a visão, e é justamente por isso que vim desfilar na Portela, para enaltecer o povo preto do Rio Grande do Sul”, afirmou.
Qual a importância de a maior campeã contar essa história?
Para Wallace Costa, o protagonismo da Portela amplia o alcance da mensagem. “É extremamente importante mostrar a nossa história, a história que não é contada. O nosso povo é muito apagado nesse estado. Dizer que nós fizemos parte da construção daquele território e que o estado também é preto é fundamental”, afirmou.

Mirela Rocha destacou a relevância religiosa e cultural do tema. “Existe uma história que ainda não foi contada em relação ao Batuque. Proporcionalmente, o Rio Grande do Sul é o estado que mais tem terreiros de matrizes africanas no Brasil. O Batuque é uma tradição muito própria desse território, muito importante e pouco estudada. Trazer isso para a Avenida é fundamental”, disse.
A professora também chamou atenção para o simbolismo de sua ala. “Eu vou desfilar na ala Orixás. Vamos representar um xerê de Batuque na Avenida, de pés descalços. Isso evoca ancestralidade e permite que o Brasil conheça, pela Portela, uma tradição essencial”, concluiu.

Vander Anacleto reforçou o peso simbólico da escola. “É de muita importância porque traz visibilidade ao povo preto gaúcho. Ter a maior campeã do Carnaval do Rio de Janeiro apresentando esse samba com essa potência amplia essa narrativa”, afirmou.
Você já conhecia o Príncipe Custódio? O que mais impressiona em sua história?
Wallace Costa contou que conheceu a trajetória a partir do enredo. “Eu não conhecia a fundo a história. Quando li o enredo, fiquei apaixonado. A junção com o Negrinho do Pastoreio me tocou muito. Isso me fez querer mostrar a minha cara e fazer parte de tudo isso”, disse.
Mirela Rocha ressaltou a importância histórica do líder religioso. “O Batuque e as expressões afro-gaúchas já existiam antes dele, mas o Príncipe Custódio populariza essa religiosidade entre a classe média e a burguesia gaúcha, que passam a procurá-lo. Ele tira essa prática do lugar exclusivo da criminalização. Essa é uma importância gigantesca”, afirmou.

Ela também se emocionou ao falar da dimensão simbólica do enredo. “A lenda do Negrinho do Pastoreio sempre me tocou. Um dia sonhei que, no enredo da Portela, ele vinha montado na águia, e não no cavalo. O Carnaval não apenas ensina o que não sabemos, mas reconta a história de outro jeito. Trazer essa narrativa de uma nova forma é o que é realmente fundamental”, concluiu.
Vander Anacleto destacou a postura do Príncipe Custódio em um contexto adverso. “No tempo em que ele viveu, já conseguia afirmar sua negritude, manter o terreiro e o Batuque. Se hoje já é difícil, naquela época era muito mais. Isso nos dá ainda mais orgulho”, afirmou.









