A Mancha Verde foi, no último domingo, a quarta escola a desfilar pelo Grupo de Acesso I do Carnaval de São Paulo em 2026. Com o enredo “Pelas mãos do mensageiro do Axé, a lição de Odú Obará: a humildade”, assinado por Rodrigo Meiners, a Mais Querida apresentou um desfile marcado por uma comissão de frente impactante e pelo retorno triunfal ao Anhembi de um samba clássico. Os portões da Passarela do Samba foram fechados após 59 minutos de cortejo.

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A Mancha Verde é uma escola de elite que só está no Acesso I por um desvio proporcionado pelo acaso. No Anhembi, a escola resolveu fazer uma apresentação digna de Grupo Especial, e em boa parte dos quesitos fez um desfile dentro do que se esperava. Mas alguns problemas observados na Avenida podem não tornar o desejado retorno tão fácil assim, considerando o alto nível previsto para a disputa em 2026.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Marcos Kazan e Wender Luciano, a comissão de frente da Mancha apresentou o “Panteão dos Orixás – Olorum revela os caminhos”. Em meio a um mundo tomado pelo desequilíbrio espiritual, Exu transmite a um babalorixá, por meio do jogo de búzios, os saberes sagrados, assumindo a missão de levar à Terra as lições de Olorum. Outros orixás se fazem presentes na dança do quesito, como Xangô, Oxum e Obaluaê, representando os ensinamentos dos quais o babalorixá deverá transmitir para o mundo.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

A coreografia é de uma sensibilidade marcante, e a caracterização dos personagens e do elemento alegórico enriqueceram a apresentação do quesito, que na Avenida foi um dos melhores apresentados pela escola.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

A Mancha Verde trouxe para 2026 uma nova formação para o quesito. A veterana Adriana Gomes, com mais de dez anos de escola, passou definitivamente a formar dupla com Thiago Bispo, com o qual dançou em 2024 após uma substituição de última hora do ex-mestre-sala Marcelo Silva por motivos de saúde. Ambos estavam vestidos com fantasias representando os “Saberes ancestrais iorubá”.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O casal teve uma apresentação inconstante em alguns dos módulos. A fantasia de Adriana, apesar de bela, era volumosa e aparentava ser pesada. Seus movimentos ao cumprir as obrigatoriedades pareciam mais lentos que o esperado, e o vento presente no Anhembi causou ainda mais empecilhos à sua dança. No primeiro e no quarto módulos, Thiago demonstrou dificuldades de adaptação ao ritmo da porta-bandeira, o que pode comprometer a avaliação geral do quesito.

ENREDO

“Pelas mãos do mensageiro do Axé, a lição de Odú Obará: a humildade” é uma reedição do enredo levado ao Anhembi no Carnaval de 2012 pela Mancha Verde, que contou com um samba aclamado como um dos melhores da história da escola. A narrativa de 2026 buscou retornar ao passado para iluminar o presente. A agremiação revisitou a mensagem não como uma repetição, mas como um clamor, voltando à Avenida como mensageira do tempo, revelando que aquilo que não foi aprendido será cobrado, trazendo novamente, através do samba, a lição de Odu-Obará de que a prosperidade provém da humildade.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Com uma nova narrativa, na Avenida vimos a busca de um babalorixá por respostas que expliquem como salvar um mundo a caminho da destruição. É a partir do jogo de búzios que a lenda de Odu-Obará é apresentada: um guerreiro, nomeado senhor do destino por Orunmilá, mas que ao contrário dos demais aceitou com humildade um presente na forma de abóboras dado a ele a aos demais Odús, que esperavam receber tesouros. Ao se alimentar das abóboras, todas deixadas pelos demais para Obará, ele se surpreendeu: elas estavam recheadas das riquezas ansiadas.

Fica o registro do ensinamento cultural, que na Avenida foi perfeitamente representado na nova formatação proposta pela Mancha Verde. Um dos melhores enredos do Carnaval de 2026.

ALEGORIAS

A Mancha Verde levou para o Anhembi um conjunto formado por três carros alegóricos. São eles: o Abre-alas, “Ifá e o jogo de búzios”, que representou o momento em que o babalorixá começa a receber as lições do mundo espiritual. O Carro 2, “Odu-Obará – A riqueza na lição da humildade”, retratou a lenda citada no enredo. O Carro 3, “Mundo utópico do Supremo Criador”, trouxe uma representação do que poderíamos esperar de um mundo onde o babalorixá obtém êxito na missão de transmitir à humanidade os ensinamentos ancestrais.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Um conjunto alegórico com volumetria digna de uma das potências recentes do Grupo Especial, que sofreu um rebaixamento que ainda gera discussões, e que não apenas foi belo como representou muito bem toda a proposta narrativa do enredo. Mas alguns problemas observados no acabamento podem causar prejuízos na avaliação da escola.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias da Mancha representou na Avenida uma forma mais aprofundada da leitura do enredo, fazendo das alegorias uma síntese narrativa de cada setor. Na pista, as fantasias retrataram elementos semelhantes aos já citados, mas com mais referências mencionadas. Esteticamente impecável, e conseguiu também ser funcional na forma de leveza para os componentes evoluírem na pista. Um quesito muito seguro do desfile da escola.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

HARMONIA

Não é preciso falar muito do desempenho de uma comunidade na Avenida com um samba que a comunidade não se cansa de cantar na quadra há mais de uma década. A Mancha Verde cantou a plenos pulmões do início ao fim, contribuindo para fazer do desfile um espetáculo performático.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

EVOLUÇÃO

A Mancha começou seu desfile de fato somente após três minutos depois da abertura dos portões. O cortejo foi correto em boa parte do tempo, mas ocorreram duas observações possíveis. O espaço aberto pelo recuo da bateria demorou a ser preenchido, e na parte final da apresentação, a escola começou a acelerar um pouco o passo diante do módulo três, provocando a abertura de um buraco à frente do terceiro carro alegórico.

SAMBA-ENREDO

O samba da Mancha Verde é assinado por Armênio Poesia, Chanel Rigolon e o próprio intérprete Fredy Vianna. Curiosamente, 2012, quando o samba passou na Avenida pela primeira vez, foi o ano de estreia do cantor na escola, emplacando logo na estreia um dos sambas mais queridos da comunidade.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

No retorno ao Anhembi, a obra novamente foi clamada fervorosamente pela comunidade, e Fredy conseguiu provar o porquê fez história há 14 anos. A leitura do samba no conjunto visual ficou bem encaixada, fazendo do quesito mais um porto seguro para a escola na apuração.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Puro Balanço”, comandada pelos mestres Cabral e Viny, honraram o legado do histórico samba da Mancha Verde e conduziram o andamento do desfile de forma primorosa.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP