A Acadêmicos de Niterói abriu os desfiles de domingo com a missão de transformar a biografia de Luiz Inácio Lula da Silva em uma epopeia de resistência e democracia. Em uma noite marcada pela presença histórica do próprio homenageado, que quebrou o protocolo ao descer para a pista na altura do segundo recuo de bateria para beijar o pavilhão niteroiense, a agremiação entregou um desfile de forte apelo emocional. Sob o comando do carnavalesco Tiago Martins, a escola buscou equilibrar o rigor histórico com a plasticidade do Carnaval, enfrentando, porém, desafios de evolução e acabamento.
COMISSÃO DE FRENTE
A apresentação intitulada “O amor venceu o medo”, coreografada por Handerson Big e Marlon Cruz, foi um verdadeiro manifesto político em movimento. Nove bailarinos, vestindo figurinos em tons terrosos que remetiam às origens nordestinas de Lula, executaram passos sincronizados que culminavam na ocupação de elementos cênicos em formato de andaimes. Esses módulos, equipados com quatro telões frontais, exibiam imagens reais da trajetória do presidente. Em um segundo momento, a narrativa ganhou densidade dramática no tripé “A capital do povo”, deslocado à frente do primeiro módulo. Ali, encenou-se a passagem da faixa para Dilma Rousseff, o golpe, o período de prisão e a figura satírica de Bolsonaro (referenciado como “Bozo”).
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A catarse ocorreu na representação da subida da rampa em 2023, quando Lula apareceu cercado por representantes de minorias, negros, indígenas, LGBTQIA+ e PCDs, sob um jogo de luzes nas cores da bandeira nacional e o vermelho do partido. A performance arrancou gritos eufóricos do público, deixando clara a mensagem. Porém, o tripé ficou deslocado um pouco mais à frente que o módulo na apresentação diante da primeira cabine de jurados.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Emanuel Lima e Thainara Matias, trouxe para a avenida a fantasia “Luar do Sertão”, uma homenagem à infância de Lula sob as histórias de Dona Lindu e as canções de Luiz Gonzaga. A dupla entregou uma exibição pautada pela segurança e pela coesão. Com um bailado harmonioso, demonstrou conexão em cada giro, mantendo a bandeira esticada e a elegância no cortejo.

Um ponto alto da performance foi a introdução de uma “baixada” coreográfica, movimento de altíssimo grau de dificuldade executado com boa precisão, o que evidenciou o entrosamento técnico do par. A passagem pelos módulos de jurados foi considerada segura, honrando o pavilhão azul e branco com dignidade e técnica.
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HARMONIA E SAMBA-ENREDO
O samba, de fácil leitura e forte apelo melódico, foi abraçado pela escola e pelo público desde o esquenta. A condução do intérprete Emerson Dias e de sua ala musical foi fundamental, garantindo que a obra não perdesse o vigor em nenhum momento. No início do desfile, a harmonia explodiu, com os componentes cantando a plenos pulmões.

Entretanto, o quesito sofreu oscilações quando a escola precisou parar devido aos problemas de pista com a segunda alegoria, e o canto da comunidade dava sinais de queda. O que impediu uma piora maior foi a cadência da bateria de mestre Branco Ribeiro, que segurou o ritmo com firmeza, mantendo uma sustentação positiva para que os desfilantes não abandonassem o samba.
EVOLUÇÃO
Embora o início tenha sido fluido, a evolução sofreu um colapso técnico na altura do segundo módulo de jurados devido a problemas com a segunda alegoria. O carro, extremamente lento, causou um congestionamento que deixou a escola estática por cerca de quatro minutos, gerando um risco real de punição. O atraso quase provocou um buraco no setor 3 da avenida. Após esse período de tensão, a direção de harmonia conseguiu retomar o fluxo, e a escola voltou a andar de modo menos robótico, recuperando o tempo perdido e o ritmo da festa.

ALEGORIAS E FANTASIAS
O projeto visual de Tiago Martins foi grandioso em escala, com carros altos e uso moderno de painéis de LED. Contudo, a execução técnica deixou a desejar em detalhes de acabamento. O abre-alas, dividido em três chassis, apresentou fios aparentes. A segunda alegoria desfilou com um refletor apagado em sua traseira, enquanto a quarta alegoria enfrentou dificuldades para entrar na pista.

No último carro, uma rachadura na escultura principal, a cabeça do presidente, era visível para os observadores mais atentos. As fantasias com volumetria impressionaram, mas o peso foi notado especialmente na ala das passistas, comprometendo a desenvoltura de alguns componentes. Foram registradas ainda falhas pontuais, como cactos soltos na ala das baianas e componentes sem costeiros na ala cênica de militares, que contou com a presença dos atores Paulo Vieira e Juliana Baroni representando Lula e a ex-primeira-dama Marisa Letícia.

OUTROS DESTAQUES
No primeiro setor da escola, a atriz Dira Paes emocionou o público ao representar Dona Lindu cercada pelos filhos pequenos no sertão. No último carro, a cantora Fafá de Belém esteve presente após emprestar sua voz potente ao entoar o clássico “O que é, o que é?” durante o esquenta da escola. A alegoria também contou com personalidades como Antônio Pitanga e Paulo Betti. Embora a participação da primeira-dama Janja fosse amplamente comentada nos bastidores, ela não chegou a desfilar com a agremiação. O momento definitivo, contudo, foi o encontro do homenageado com a comunidade de Niterói. Lula, que assistia a tudo do camarote, desceu à avenida em um gesto de reverência, beijou o pavilhão da escola e selou a carga emocional do desfile.

enredo”, da Acadêmicos de Niterói. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO










