A terceira alegoria da Unidos da Ponte não passa pela Marquês de Sapucaí, ela invade. Com o carro “Vem pro Baile Funk! – Carro dos Artistas Funkeiros”, a escola transformou a avenida em pista de dança, reunindo nomes históricos e contemporâneos do movimento em um manifesto sonoro e visual da cultura periférica.

Integrando o enredo “Tamborzão: O Rio é baile! O poder é black!”, a agremiação leva para a Sapucaí a força do funk como continuidade de uma linhagem cultural que atravessa o lundu, o maxixe, os bailes da Black Rio e chega ao 150 BPM. A base em preto e branco remete aos paredões de som, enquanto grafismos africanos e a estrutura em lona evocam tanto as tendas das comunidades quanto o egungun, símbolo de ancestralidade.

Mais do que entretenimento, o carro afirma resistência, identidade e empoderamento.
Entre os destaques está Iasmin Turbininha, primeira DJ mulher de funk no Brasil, nascida na Mangueira e uma das principais difusoras do 150 BPM. Defensora do fim da criminalização do funk, a DJ descreveu o momento como histórico.

“Essa homenagem é uma honra pra mim que sou funkeira desde criança, isso é histórico. Eu nunca vou me esquecer deste momento. Eu sou Mangueirense, mas agora a Unidos da Ponte se tornou a escola do meu coração. A mistura de ancestralidade africana e tecnologia está presente na minha carreira. Hoje o futuro é tecnologia e a gente consegue mostrar muito sobre de onde a gente veio e a representatividade do funk. O samba junto do funk é uma luta para fazer as pessoas entenderem a nossa cultura periférica. O funk incomoda, mas o incomodado que se mude com o seu preconceito”.

Outra presença marcante é a MC Nem, relíquia do Jacarezinho e pioneira do funk carioca, com mais de 20 anos de trajetória. Revelada nos anos 2000 ao lado da Furacão 2000, ela vive na Avenida um reconhecimento simbólico do movimento que ajudou a construir.
“Foi muito gratificante viver a Unidos da Ponte representando o funk na Sapucaí, o território oficial do samba. Eu vim dos anos 2000, foi muita luta e às vezes a dúvida se realmente o nosso funk iria para frente no Brasil. Estar aqui hoje é ver que somos gigantes e que valeu a pena não desistir. É impossível não ficar feliz. O funk é um espaço de afirmação e poder, junto com entretenimento. Somos confusão, gritaria, diversão e muita dança com o paredão explodindo.”
Ao levar o tamborzão para o palco do samba, a Unidos da Ponte reafirma que o funk não é ruptura, é continuidade. É herdeiro direto das manifestações negras que sempre transformaram exclusão em expressão cultural.
Na Sapucaí, o baile ganhou status de patrimônio vivo. E quando o grave bate no peito, não é apenas som: é território, memória e identidade ecoando em 150 batidas por minuto.










