Em noite com alto nível de desfiles, Gaviões, Mocidade e Império de Casa Verde se destacaram entre as escolas que passaram pela avenida do samba na segunda noite do Carnaval de São Paulo. Águia de Ouro e Camisa Verde e Branco fizeram apresentações com sambas que até empolgaram, porém tiveram que lidar com altos e baixos na pista. Já a Estrela do Terceiro Milênio e a Tom Maior fizeram desfiles mais técnicos e talvez também possam brigar por uma vaga no desfile das campeãs, que ocorre no próximo Sábado, 21 de fevereiro.
Império de Casa Verde
Abrindo a noite dos desfiles de sábado do carnaval paulistano, o Império de Casa Verde trouxe para a avenida do samba as “Jóias Negras Afro-Brasileiras”. O enredo prestou homenagem às mulheres empoderadas que usavam jóias pelas ruas de Salvador/BA, no século XVIII. O gigantismo e a suntuosidade do carro abre-alas chamaram a atenção logo no início do desfile do Tigre Guerreiro. O uso do dourado foi predominante em toda a plástica da agremiação.

O ponto alto da passagem imperiana pelo Anhembi foi a conexão entre a excelente bateria do mestre Zoinho e o carro de som. Os intérpretes convidavam o público a cantar junto e a interagir, se movimentando junto com a escola. Já a Barcelona do Samba fez uma ousada bossa em frente à arquibancada monumental, que contribuiu para que o samba rendesse muito bem na passarela. A bateria entrou no recuo aos 27 minutos de desfile e saiu aos 44.

Outro destaque foi a comissão de frente da Azul e Branco da Zona Norte, que apresentou uma coreografia em que se trocava de elenco dentro do elemento alegórico durante as apresentações. A aparição das mulheres de dourado foi o ponto alto do quesito. O primeiro casal, Patrick e Sofia, também executou seus movimentos com excelência. A comunidade da Casa Verde cantou bastante o samba, enquanto a escola evoluía de maneira compacta. O Império encerrou sua passagem com 1h02 minutos e deve se credenciar na disputa por uma vaga nas campeãs.
Águia de Ouro
Segunda escola a desfilar no Anhembi, a escola da Pompéia trouxe o enredo “Mokum Amsterdã, O Vôo da Águia à Cidade Literária”. O samba-enredo, com um refrão de cabeça fácil de cantar, contribuiu para que a harmonia fosse um dos destaques da passagem da agremiação. Os intérpretes Serginho do Porto e Douglinhas mostraram um belo entrosamento com a Batucada da Pompeia. Foi uma grande estreia do mestre Moleza à frente dos ritmistas da Águia de Ouro. Entraram no recuo aos 27 minutos e saíram aos 43. A bossa que era feita nos últimos versos do samba remetia ao ritmo do reggae e colocou o povo das arquibancadas para balançar.

A escola parece ter acertado em sua evolução, quesito esse que lhe custou décimos preciosos no último carnaval, passando bem compacta pelo Anhembi. A comissão de frente veio com diversos personagens do enredo, toda em cima de um grande elemento alegórico, inclusive seu coreógrafo. O que acabou “escondendo” um pouco o primeiro casal Alex e Monalisa, que vinha logo atrás, executando um bailado seguro e vestindo uma fantasia luxuosíssima.

A plástica da Águia no geral trouxe um colorido interessante, dando um belo contraste, sobretudo nas alas. No carro abre-alas, componentes com “cabeça de Girassol” fizeram uma coreografia de belo efeito. O setor final veio em tons alaranjados, em referência aos Países Baixos. A última ala da escola foi dividida em duas fantasias e trazia nos costeiros o brasão da corte do reino de Orange e o da Águia de Ouro, unindo a cidade de São Paulo à Amsterdã.
Mocidade Alegre
A Morada do Samba desfilou no seu horário preferido, sendo a terceira agremiação do sábado de carnaval. E logo na entrada do sambódromo ela já mostrou que veio para brigar por mais um título. A comissão de frente foi toda construída em cima do samba-enredo, trazendo a aparição de exu no centro do tripé, enquanto outros integrantes de macacões nas cores do arco-íris intercalavam a coreografia entre o chão e o elemento alegórico. Mulheres representando Oxum reverenciavam outra mulher que emergia sobre uma estrutura elevadiça revelando a escultura de uma cobra.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, , esbanjou simpatia e elegância em uma fantasia de múltiplas cores. Guardiões ainda cercavam o espaço lateral da avenida para a apresentação do casal. A Mocidade trouxe um belo tripé de pede-passagem com o título do enredo “Malunga Lea”, que celebrou a trajetória da atriz Léa Garcia como símbolo da arte negra. Em seguida, veio o suntuoso abre-alas da Morada, todo em vermelho e dourado. As baianas da escola rodopiaram na passarela utilizando uma linda fantasia que remetia a Exu.

A bateria do mestre Sombra entrou no recuo aos 31 minutos, em uma manobra diferente, onde parte da batucada fica na pista, enquanto a chamada “cozinha” entra direto e sai em seguida para cumprimentar o público. A rainha Aline Oliveira surgiu no meio da bateria empunhando um grande bandeirão da Ritmo Puro. Outro ponto forte do desfile foi a condução do belo samba-enredo por Igor Sorriso, que já tem grande identificação com a comunidade. O canto aguerrido dos componentes foi outro destaque da entidade. A Mocidade Alegre encerrou seu desfile no limite máximo de tempo permitido, que é de 1h05 minutos, acelerando um pouco a passada a partir da terceira alegoria.
Gaviões da Fiel
A Gaviões da Fiel foi a quarta agremiação a desfilar no Anhembi, já na madrugada de domingo. O público da arquibancada monumental logo começou a agitar as bandeirinhas distribuídas pela escola e a cantar o valente samba-enredo junto com o intérprete Ernesto Teixeira. A Fiel trouxe o enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, levando para a avenida toda a força e a memória dos povos originários.

A escola abriu seu desfile com uma inventiva comissão de frente representando alguns rituais dos povos indígenas, toda ela coreografada no chão. Quatro elementos vinham como “destaques”, com enormes costeiros, cada um com uma cor predominante: Marrom, Azul, Vermelho e Lilás. Em seguida, veio o primeiro casal, Wagner e Carolline, com uma bela indumentária composta por penas volumosas em tom vermelho-sangue. O grandioso carro abre-alas chamou a atenção do público também por conta da beleza.

A bateria Ritmão também foi um dos destaques da apresentação da Gaviões, dando sustentação ao forte canto da comunidade do Bom Retiro. Entraram no recuo aos 29 minutos e saíram aos 42. A evolução da agremiação na pista foi coesa e fluiu sem problemas. O último setor da escola trazia tripés com uma escultura de um indígena em cinco das seis alas finais. Adereços de mão com animais da Floresta Amazônica compunham a última ala de enredo. A quarta alegoria trouxe esculturas da “justiça” e do cristo com cocares. A Fiel encerrou o desfile com 1h03 minutos e é uma das candidatas ao título do carnaval.
Estrela do Terceiro Milênio
Foi exatamente 3h da madrugada que a Estrela do Terceiro Milênio iniciou sua passagem pelo sambódromo paulistano. A escola do Grajaú homenageou o compositor Paulo César Pinheiro com um bom samba-enredo, que trazia referências melódicas de músicas conhecidas do artista. A jornada da Milênio começou em uma baita apresentação da comissão de frente, que além de ser literal em relação ao samba, resumiu o enredo, mostrando o encontro de Paulo menino com o poeta já mais velho e consagrado.

Faziam parte da coreografia da comissão ainda, além dos demais bailarinos: dois capoeiristas, uma porta bandeira, uma representante da Clara Nunes e um soldado da ditadura. No tripé, uma enorme escultura de Deus carregava um grande espelho. Arthur e Waleska, o primeiro casal da entidade, executaram sua dança com firmeza e maestria, além de estarem muito bem vestidos. A bateria Pegada da Coruja, que trouxe berimbaus na linha de frente, entrou no recuo aos 25 minutos de desfile, saindo aos 46.

O destaque da Estrela foi a parte visual. Belíssimas alegorias que vieram com um ótimo acabamento. Assim como as fantasias, que tinham um bom volume, mas com bastante leveza. O segundo carro veio com destaques laterais que ao girarem seus costeiros revelam um rosto indígena na parte de trás. No topo da alegoria, composições empunhando bandeiras pedindo justiça social. Um tripé veio no setor seguinte, repleto de tesouras e com os dizeres “Voce rasga um verso, eu escrevo outro” em referência à ditadura. O homenageado veio último carro, que ainda trazia uma grande escultura do poeta. A Milênio encerrou seu carnaval com 1h03 minutos.
Tom Maior
Penúltima a desfilar na madrugada de sábado, a Tom Maior celebrou a vida de Chico Xavier e homenageou também a sua cidade natal: Uberaba/MG. O enredo era uma espécie de carta espiritual, no qual Chico se faz de instrumento para revisitar a ancestralidade dessa cidade mineira. O desfile iniciou com uma comissão de frente toda em cima de um tripé em tons terrosos, executando uma coreografia vigorosa e muito bem ensaiada.

Logo depois, veio o primeiro casal da escola, Ruhanan e Ana Paula, bailando com sincronia e de forma graciosa para apresentar o pavilhão da agremiação a todos que assistiam ao desfile. O enorme abre-alas veio inteiro em tons de azul-água e possuía dois carros acoplados, com esculturas de peixes e dinossauros, em referência ao passado de Uberaba. Já o segundo carro, que representava o Taj Mahal, acabou tendo problemas com a iluminação, entre o final do setor B e o setor C, mas que foi corrigido logo depois.

A bateria Tom 30 de mestre Carlão foi o ponto alto da passagem da Vermelho e Amarelo, juntamente com o intérprete Leozinho Nunes. A parte musical deu um verdadeiro show em frente à arquibancada Monumental, impulsionando o canto da escola e do público, especialmente no apagão do refrão principal. Um surdo marcava o tempo para que o repique pudesse fazer a chamada e a bateria já voltar na bossa do início do samba. O conjunto de fantasias da Tom Maior também merece destaque pelo bom gosto. A entidade terminou sua passagem com 1h02 minutos.
Camisa Verde e Branco
O dia começava a raiar quando o Camisa Verde e Branco cantou um ponto de Zé Pelintra e um ponto de Tranca-Ruas, afinal seu enredo foi “Abre Caminhos”, abordando a energia do orixá Exu. O samba-enredo, eleito o melhor do ano em votação popular através do CARNAVALESCO, conquistou as arquibancadas logo no início do desfile. O intérprete Charles Silva, vestido de malandro, fez uma excelente estreia no microfone principal do trevo da Barra Funda. O restante da ala musical também veio homenageando a falange da malandragem.

A comissão de frente fez uma bela apresentação em frente à Monumental. Eram 15 integrantes, sendo um deles Exu, enquanto os outros estavam divididos em dois grupos. Seis pessoas de fantasias vermelhas com laranja faziam movimentos sincronizados, apresentando a agremiação ao público. Os outros oito elementos usavam roupas ornadas com palha, em uma pegada muito expressiva e vigorosa, interagindo principalmente com Exu, que chegava a ajoelhar na pista. Havia ainda cinco totens avermelhados que em certo momento serviam de palco pra Exu , complementando a comissão.

O primeiro casal, Lyssandra e Marcos, apresentou com excelência o pavilhão da escola durante o bailado. Eles usavam belíssima roupa repleta de penas nas cores preta, amarela, marrom e vermelho. As primeiras alas do Camisa vieram nas cores vermelho e laranja, combinando com a paleta do abre-alas, que trazia cabaças, rodas girando e decoradas com estamparia africana. No geral, as alas eram de fácil leitura. O ponto de maior apreensão na passagem do Camisa ocorreu nos dois últimos setores, onde o quarto carro chegou a parar por alguns instantes e precisou de reforço para que pudesse deixar a pista, porém a escola estourou o tempo máximo de desfile em um minuto, fechando com 1h06 e deverá perder ao menos 0,1 décimo.









