O Carnaval carioca passa atualmente por uma verdadeira revolução sonora. Após anos utilizando a mesma empresa, a escolha foi por encerrar esse vínculo e acreditar no desafio de um novo projeto. Obviamente uma mudança de norte conceitual tão desafiadora provoca questionamentos. Uma conclusão básica envolvendo os desfiles do grupo de acesso indica que, infelizmente, a captação e a sonorização ainda estão aquém do potencial necessário para valorizar musicalmente a festa.
Alguns problemas foram presenciados e outros relatados por sambistas, ritmistas e diretores de bateria. O primeiro deles é referente ao elevado volume nas caixas de som por toda a pista. Esse fato tem prejudicado em demasia os ritmos das baterias. Enquanto tocavam e andavam, os próprios ritmistas do Acesso puderam perceber as vulnerabilidades e inconstâncias por todo o cortejo. Tem pontos da pista em que a sonoridade dos naipes médios (caixas e repiques) e as peças leves (agudas) são escutadas com dificuldade, já que o elevado volume nas caixas de som acabam encobrindo musicalmente esses trabalhos. Isso, por si só, tira grande parte da experiência sensorial envolvendo a aproximação de uma bateria de escola de samba.
Um exemplo claro disso aconteceu durante o desfile da bateria “Fora de Série” da Acari. Sendo uma das mais seguras e constantes de todo o grupo, ainda assim, o volume altíssimo de uma caixa de som no segundo recuo chegou a prejudicar tanto que causou uma embolada no ritmo, por falta de percepção sonora por parte dos marcadores, que diante de um volume altíssimo perderam a referência, o que causou essa instabilidade. Por causa da educação musical e da excelência rítmica, em poucos segundos a bateria da Acari (bastante segura e bem comandada) já voltou ao normal, após diretores balançarem os braços na tentativa de marcar o andamento e ritmistas cantarem o samba. O elevado volume na referida caixa de som foi instantaneamente sinalizado à equipe responsável com tablets em mãos, que não tomou nenhuma ação mediante a imediata reclamação.
Outro ponto que diminuiu o impacto da experiência sensorial da chegada das baterias se refere a sonorização do ritmo que já sai mixada na própria caixa. Impressionante como praticamente só dá para ouvir os surdos, juntos de cordas (altas) e vocais (também elevados). Essa mixagem tem ficado bem aquém da excelência musical apresentada pelas baterias. Simplesmente ficam inaudíveis a sonoridade de naipes médios, além de se perder pelo caminho grande parte do brilho musical que os mestres projetaram com inovações ou adesão de instrumentos que visem agregar o aspecto de espetáculo ao show envolvendo seus ritmos.
É de conhecimento público que alteraram o número de microfones, que antigamente eram doze para um total de oito. Tal fato pode sim estar deixando de valorizar e contemplar musicalmente a sonoridade de alguns naipes importantes dentro da musicalidade das baterias. Fora que, nitidamente, essa mixagem pode e precisa melhorar, até para que os belos trabalhos musicais sejam assimilados de forma integral, o que pelo som que sai das caixas fica simplesmente impossível. Seguindo assim, é possível dizer que a mixagem de todos os naipes não está à altura do trabalho rítmico apresentado pelas baterias. Esse questionamento demanda avaliação interna com talvez alguns ajustes, visando valorizar a sonoridade produzida com muita dedicação por cada ritmo de bateria, que quer seu trabalho exibido de forma integral e fidedigna em relação a cada musicalidade desenvolvida.
Mediante uma situação praticamente alarmante se faz necessário alguns alertas para as baterias do grupo especial que desfilarão na Sapucaí a partir desse domingo. O primeiro deles é utilizar dois técnicos de som (um em cada lado da pista) andando alguns metros à frente do ritmo da bateria, para ir sondando a situação envolvendo os volumes das caixas e contando com a colaboração da própria equipe de som para realização de ajustes que podem impactar de forma positiva as passagens de cada ritmo.
A situação se torna crucial dentro do segundo recuo, onde eventuais instabilidades sonoras podem causar emboladas e desencontros rítmicos, jogando o índice anímico de ritmistas lá embaixo. Uma dica bem básica, mas sempre necessária é pedir que os ritmistas cantem o samba, cada vez que uma caixa de som alta estiver próxima, pois assim fica mais fácil marcar mentalmente o andamento e não se perder musicalmente.
Outra orientação de um sambista apaixonado e preocupado é que a própria empresa de som reavalie a altura elevada acima do normal nas caixas dispostas pela pista de desfile. Não há dúvida que o desenvolvimento desse trabalho esbarra em inúmeros desafios, como se fosse praticamente trocar o pneu de um veículo em movimento durante a realização de uma corrida.
A dificuldade é compreensível, mas um alinhamento mais refinado entre a própria equipe de captação sonora também ajudaria a integrar as pretensões de todos os envolvidos. Não há dúvida, por exemplo, que a empresa responsável pela sonorização abraçou esse projeto com vontade de fazer dar certo. E é exatamente por isso que se faz necessário que esses questionamentos ajudem a melhorar a qualidade do serviço sonoro prestado.










