A Unidos do Porto da Pedra levou um dos maiores tabus sociais para a Marquês de Sapucaí. No desfile deste sábado, a escola de São Gonçalo apresentou o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, desenvolvido por Mauro Quintaes, propondo uma reflexão sobre a história e a luta das trabalhadoras do sexo. Dentro dessa narrativa, a Ala 11, “Somos Mulheres do Lar”, ganhou força ao evidenciar que, por trás do estigma, existem mães, filhas e chefes de família que encontram no trabalho o sustento e a dignidade de seus lares.

FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
A fantasia misturou elementos domésticos, como avental, tábua de passar e boneca, com referências à vida noturna, dialogando diretamente com o verso do samba-enredo: “Também sou moça de família / Mãe e filha, meu sustento vem da luta”.
Para falar sobre essa representação, participaram Rafael Martins, de 38 anos, desfilando na escola há quatro anos; Silvano de Castro, de 50 anos, há cinco anos na agremiação; e Juliana D’Arc de Souza Magalhães, de 31 anos, professora, que desfila na Porto da Pedra há mais de 15 anos.
A profissional do sexo também é mãe e chefe de família
Ao comentar a dualidade presente na fantasia, Rafael Martins avaliou que a sociedade ainda enxerga a profissional do sexo apenas pelo viés do prazer e da luxúria, apagando sua dimensão humana: “Existe um processo de subalternização dessa profissão. A sociedade tende a enxergar a profissional do sexo apenas pelo viés do prazer, como se ela estivesse ali apenas por diversão ou luxúria, ignorando completamente que, por trás daquela figura, existe uma pessoa com necessidades pessoais e responsabilidades familiares como qualquer outra”, afirmou.
Silvano de Castro destacou que o preconceito parte de uma visão que desconsidera as escolhas individuais: “As pessoas olham para isso com um preconceito desnecessário. Cada indivíduo sabe o caminho que está traçando para sua própria vida e as escolhas que faz. Não cabe a ninguém ficar criticando ou tentando se meter na vida alheia”.

FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Juliana D’Arc de Souza Magalhães ressaltou que a proposta da ala foi justamente ampliar o olhar sobre essas mulheres: “A ideia foi trazer que não é só esse lugar de profissional, mas que também existe uma mãe por trás dessas mulheres. São mulheres completas, não apenas a profissão”.
“Meu sustento vem da luta”: trabalho e dignidade
O verso do samba-enredo ecoou como uma declaração de resistência e sobrevivência. Para Rafael Martins, a frase representou um posicionamento claro sobre respeito e valorização: “Eu vejo essa mensagem como um grito de afirmação. Todas as profissões são importantes para a engrenagem da sociedade. Elas precisam ser valorizadas e tratadas com o devido respeito. Não é uma vida fácil; é uma forma de sobrevivência e sustento que merece reconhecimento como qualquer outra jornada de trabalho”.
Silvano de Castro reforçou que não existe trabalho sem desafios. “Não existe vida fácil em nenhum tipo de trabalho. Eu enxergo a prostituição como um trabalho como qualquer outro. Ela possui dificuldades e desafios da mesma forma que qualquer emprego formal teria”.
Juliana também associou o verso à realidade do sustento diário. “É uma forma de ganhar dinheiro. É uma profissão. Não deixa de ser uma maneira de colocar o alimento de cada dia na mesa, de levar comida para o filho”.
Representatividade para enfrentar o preconceito

FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
A ala também trouxe à tona a realidade de mulheres que escondem a profissão da própria família por medo do julgamento social. Para Rafael Martins, colocar esse debate na avenida foi um passo importante na quebra de estigmas. “Quando trazemos essa discussão para o desfile, mostramos que a remuneração e o sustento que vêm do trabalho, seja ele qual for, são fundamentais para a dignidade humana. Essa representatividade na avenida é um passo importante para quebrar o estigma e mostrar a realidade dessas mulheres”.

Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Silvano de Castro enxergou a iniciativa como um enfrentamento direto ao conservadorismo: “Tudo aquilo que bate de frente com o conservadorismo é extremamente importante. A ala trouxe essa história e essa mensagem necessária para a avenida, e é sob essa ótica de resistência e visibilidade que devemos enxergar essa iniciativa”.
Juliana destacou que o silêncio muitas vezes nasce do medo do julgamento: “O esconder é pelo medo do que vai ser julgado, do que vai ser pensado em relação a elas. Trazer aqui que todas são mães, são donas de casa, são mulheres, ajuda a diminuir esses preconceitos”.










