A Unidos do Porto da Pedra levou para a Sapucaí o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, desenvolvido pelo carnavalesco Mauro Quintaes. Entre os setores que provocaram reflexão está a Ala 09 – “Perpétua Moralidade”, que usa ironia e crítica social para questionar o julgamento direcionado às trabalhadoras do sexo. Inspirada na personagem Perpétua, da novela Tieta, a ala representa o dedo apontado de quem condena em público, mas esconde contradições na intimidade.

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A fantasia mistura símbolos religiosos, marcas de beijo e o gesto de silêncio, compondo uma alegoria visual sobre hipocrisia, desejo reprimido e falso moralismo.

Monica Maia de 62 anos
Monica Maia, de 62 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para falar sobre o significado desse desfile, participaram Monica Maia, de 62 anos, corretora e há dois anos na escola; Jeferson Vieira, de 28 anos, desempregado e há três anos na agremiação; e Nélia Cláudia, de 51 anos, babá e integrante da Porto da Pedra há sete carnavais.

A sociedade ainda é muito parecida com Perpétua?
Para os três componentes, a personagem ultrapassa a ficção e dialoga diretamente com a realidade brasileira. Monica Maia acredita que o país ainda convive com uma cultura forte de julgamento, especialmente contra mulheres.

“A gente ainda vive numa sociedade que aponta muito o dedo, principalmente para as mulheres. Existe um discurso moral muito forte, mas que nem sempre corresponde às atitudes. A Perpétua é esse retrato da hipocrisia: condena publicamente, mas esconde seus próprios desejos”, afirmou.

Jeferson Vieira relaciona essa postura ao comportamento nas redes sociais e ao discurso moralista que nem sempre corresponde à prática: “A gente vê muito isso nas redes sociais: pessoas julgando, atacando, falando de moral e bons costumes, mas vivendo outra realidade escondida. A Perpétua não é só uma personagem, ela representa um comportamento que ainda é muito comum”.

Já Nélia Cláudia destaca que o julgamento recai, sobretudo, sobre quem foge dos padrões sociais: “Existe uma cultura de julgamento muito forte, principalmente contra mulheres que fogem do padrão. Infelizmente ainda temos muito disso no nosso dia a dia”.

Os símbolos religiosos e as marcas de beijo: o que representam?
A fantasia da ala aposta no contraste entre o sagrado e o profano para evidenciar contradições. Para Monica, os elementos visuais funcionam como um choque proposital: “Os símbolos religiosos representam essa imagem de pureza que muita gente quer sustentar. Já as marcas de beijo mostram o outro lado, aquilo que é escondido. E eu acho que é por aí ninguém é totalmente santo, e julgar o outro é muito fácil quando não se olha para si mesmo”.

Jeferson Vieira 28 anos
Jeferson Vieira, de 28 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Jeferson interpreta o figurino como uma crítica direta à fachada moral: “Os símbolos religiosos mostram essa aparência de santidade, enquanto os beijos representam os desejos e as atitudes escondidas. Acho que todo mundo tem suas contradições, então antes de julgar, é preciso ter consciência disso”.

Nélia reforça a ideia de denúncia presente na composição visual: “A religião é importante, mas muitas vezes é usada como instrumento para julgar. As marcas de beijo mostram que por trás do discurso moral existe desejo, existe contradição”.

Desfilar contra o falso moralismo é uma forma de protesto?

Na avaliação dos três integrantes, levar essa crítica para a Avenida transforma o desfile em manifestação artística e política. Monica vê o Carnaval como espaço histórico de questionamento: “Quando a gente entra na Avenida com essa mensagem, está dizendo que a sociedade precisa rever seus preconceitos. É um protesto feito com arte”.

Jeferson destaca que o debate ganha ainda mais força por estar inserido em um enredo que trata das trabalhadoras do sexo: “Quando a gente critica o falso moralismo, está defendendo o direito dessas mulheres serem vistas como trabalhadoras e como seres humanos. É um protesto por respeito”.

Jeferson Vieira 28 anos 1

NELIA CLAUDIA
Nélia Cláudia, de 51 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para Nélia, o tema exige coragem e posicionamento: “A gente está falando de um tema sensível, que muita gente prefere fingir que não existe. Levar isso para a Sapucaí é dizer que essas mulheres merecem respeito e dignidade”.