A Estrela do Terceiro Milênio apostou na força da obra de Paulo César Pinheiro e construiu um desfile seguro no Anhembi. Com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro, Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, a escola apresentou uma narrativa organizada, sustentada por um samba eficiente e por uma comissão de frente impactante, entregando na avenida aquilo que vinha anunciando na proposta.
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Sem grandes erros, a Milênio fez uma apresentação tranquila, com leitura clara dos quadros e boa resposta da comunidade. A plástica veio mais simples em comparação a outras escolas da noite, mas coerente com a proposta e sem comprometer o conjunto.
A agremiação encerrou seu desfile em 1h03min47seg, dentro do tempo regulamentar, mantendo regularidade na maior parte da pista.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente da Estrela do Terceiro Milênio apresentou uma coreografia teatral que revisitou momentos da vida e da obra de Paulo César Pinheiro. O elemento alegórico, com a escultura de Olodumarê ao fundo segurando o grande espelho funcionou como palco. Em determinados momentos, o espelho se abria como portais, permitindo a entrada e saída de personagens e revelações ao longo da coreografia.

No palco do elemento alegórico, o ator caracterizado como Paulo César Pinheiro observava sua própria trajetória ganhar forma diante dele. A criança que representa o compositor em sua juventude teve papel central. Em diferentes momentos, foi elevada nos braços, dançou com desenvoltura ao lado dos demais componentes e ajudou a dar leveza à cena. O menino se destacou pela segurança e pelo molejo, executando toda a coreografia com naturalidade.

A roda de capoeira foi o ápice da apresentação. Os capoeiristas surgem de dentro do elemento alegórico, formando a roda na pista ao som do trecho “Zum Zum Zum quero ver capoeira jogar”. A cena cresce com palmas ritmadas, que são acompanhadas pela arquibancada. O clima festivo é quebrado pela entrada da figura da repressão, que dispersa a roda, criando contraste claro entre liberdade e censura, ponto importante na vida do homenageado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Arthur dos Santos e Waleska Gomes defenderam o pavilhão com segurança e muita sintonia. O casal dançou para além dos movimentos obrigatórios, construindo uma apresentação que dialogava diretamente com o samba. Em trechos como “zum zum zum quero ver”, era possível perceber a marcação clara dos passos no ritmo da música, sem perder a elegância da condução.

A fantasia do casal representava a força criadora e luminosa da obra de Paulo César Pinheiro, dialogando com a ideia de inspiração, poesia e espiritualidade que atravessa o desfile. Em dourado, branco, laranja e amarelo, remetia à luz e à força criadora, em sintonia com a ideia de inspiração e espiritualidade que atravessa o enredo.
Na frente da cabine, mantiveram a mesma postura solta e segura apresentada ao longo do desfile. Não houve interferências visíveis do figurino na condução do pavilhão. Foi uma apresentação consistente, que reforçou a harmonia visual do conjunto e sustentou bem o quesito.
HARMONIA
O samba de fácil assimilação, com refrão de cabeça explosivo, funcionou muito bem para a proposta da escola e sustentou o rendimento do desfile. A comunidade respondeu, cantando de forma consistente ao longo da pista. A ala 12 se destacou puxando o canto com mais força, ajudando a manter o volume coletivo.

No geral, as alas sabiam a letra e demonstravam vontade de envolver as arquibancadas, que reagiam principalmente nas bossas. Havia troca entre pista e público, algo que favoreceu a atmosfera do desfile.
ENREDO
A proposta de revisitar a vida e a obra de Paulo César Pinheiro foi cumprida. Os blocos narrativos se organizaram de forma compreensível: a formação nos morros, a resistência política, os amores, a religiosidade e a consagração artística do compositor. A escola optou por uma leitura direta, sem construções muito abstratas, o que favoreceu a compreensão do público.

A ideia do altar sincrético é conceitualmente interessante e dialoga com o universo espiritual e musical do homenageado. A narrativa forte se manteve organizada e compreensível ao longo do desfile.
ALEGORIAS
O abre-alas foi um dos momentos visuais mais fortes da escola. A lua estrelada girando no alto, combinada ao efeito das lâmpadas nas laterais, criou uma imagem marcante na avenida.

Um dos destaques fica para a segunda alegoria, inspirada em “O Canto das Três Raças”, apresentou imponência, a proposta era traduzir visualmente o lamento das três matrizes que formaram o Brasil: indígenas, negros e brancos. As coreografias realizadas no alto do carro, em cativeiros, reforçaram o peso simbólico da canção.
O quadripé das “Tesouras de Chumbo” dialogou de forma eficiente com a ala seguinte sobre a anistia, criando uma sequência coerente dentro da proposta política do enredo. Já o altar sincrético trouxe uma proposta interessante ao unir elementos religiosos e musicais, embora a representação literal de Clara Nunes possa não ter alcançado o resultado visual desejado e tenha dividido opiniões.
O último quadripé, com o encontro da coruja da Milênio com a águia da Portela, encerrou com boa leitura, já que ele quem compôs a exaltação “Portela na Avenida”.

FANTASIAS
As fantasias utilizaram materiais simples, mas cumpriram a função proposta. A escola foi honesta na execução: sem luxo excessivo, porém coerente. A ala 3, representando a boemia, é um exemplo claro disso, a leitura era imediata, ainda que com uso de plástico e materiais mais básicos.

As baianas, homenageando Ivone Lara, reforçaram o eixo musical do enredo e contribuíram para a construção simbólica do desfile. No conjunto, as fantasias foram justas e comunicativas, mesmo sem grande requinte de acabamento.
EVOLUÇÃO
Não houve buracos na pista, mas ocorreram momentos de organização irregular entre as alas. Uma baiana passou mal na altura do setor H, momentaneamente exigiu aceleração das duas alas seguintes para recompor o fluxo. A ala 6 apresentou embolamento no mesmo ponto, forçando o carro atrás a correr na frente do quinto módulo de julgamento.

As alas 7 e 8, por conta do volume das fantasias, tiveram mais dificuldade de deslocamento e se embolavam com maior frequência. Ainda assim, os problemas foram pontuais e mais relacionados à organização interna das alas do que a falhas estruturais na ocupação da pista.
SAMBA
O samba foi o ponto alto da apresentação. De fácil canto e com refrão principal mais explosivo, funcionou plenamente para a escola e sustentou a energia do desfile do início ao fim. A resposta foi tanto na pista quanto nas arquibancadas.

O carro de som ajudou a manter a energia, especialmente com Grazzi Brasil, foi um ganho para a Milênio. A condução segura ajudou a potencializar o rendimento do conjunto, reforçando o samba como principal trunfo da escola.
OUTROS DESTAQUES
O paradão da bateria em frente à Monumental foi bem respondido pelo público e criou um dos momentos de maior interação da apresentação.

O berimbau segue como marca registrada da bateria. Enquanto amplificado, tem impacto e dialoga com enredo. No entanto, quando a bateria passa e as caixas de som são desligadas, o instrumento perde projeção e parte do efeito se dilui.
Sávia David teve boa atuação como rainha de bateria, com ritmo natural, especialmente nos momentos em que a bateria executava as bossas.










