O Arranco do Engenho de Dentro, terceira agremiação a cruzar o Sambódromo da Marquês de Sapucaí neste sábado de carnaval, apresentou um dos projetos mais lúdicos e necessários da Série Ouro: “A Gargalhada é o Xamego da Vida!”. A carnavalesca Annik Salmon não se limitou a uma biografia linear de Maria Eliza, como construiu uma crônica visual sobre o direito ao riso da população negra, elevando a figura da Palhaça Xamego ao status de baluarte da cultura popular brasileira em um desfile marcado pelo equilíbrio entre técnica e explosão emocional.
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COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada com rigor cênico, a comissão transportou o público para o Circo Teatro Guarany por meio de bailarinos caracterizados como palhaços clássicos, em uma performance que fundia dança e acrobacia. O elemento cenográfico, um tripé em formato de caixa de palhaço, foi o protagonista de um dos momentos mais inteligentes da noite, com o uso de um monociclo pela bailarina central, que conferiu dinamismo ao cortejo.

O ápice foi a transição identitária na marcação do samba, na parte “é homem, é mulher, não importa”. Em uma troca de figurino ágil e precisa no topo da caixa, a “Palhaça” deu lugar à “Mulher”, revelando Maria Eliza sem os ornamentos do picadeiro, humanizando o mito e emocionando as frisas com uma leitura clara e objetiva.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Diego Falcão e Denadir Garcia protagonizaram uma exibição de gala. Defendendo o pavilhão com a fantasia “A Gargalhada Ancestral”, o casal exibiu figurinos de altíssimo nível, nos quais o dourado e os tons claros serviram de base para um detalhamento em pedrarias pretas e muitas plumas, garantindo volumetria imponente.
No campo técnico, a sincronia foi absoluta. Diego apresentou um bailado tradicional, com giros velozes e cortejo reverente à bandeira, enquanto Denadir flutuou na avenida com giros bem espaçados e precisos, mantendo o pavilhão sempre desfraldado. O sorriso constante do casal ratificou a conexão com a proposta festiva do enredo.

O mestre-sala optou por uma linha de bailado tradicional, caracterizada por cortejo elegante e protetor ao pavilhão. Seus movimentos foram marcados por giros de precisão cirúrgica e sapateado que, em diversos momentos, dialogava diretamente com a letra do samba e as bossas da bateria. Houve equilíbrio notável entre a força de seus passos e a leveza necessária às coreografias que remetiam ao tema festivo, mantendo postura altiva e contato visual firme com sua parceira e com o corpo de jurados.
Denadir Garcia, por sua vez, foi a personificação da suavidade e do domínio técnico. Conduzindo o pavilhão azul e branco com extrema destreza, a porta-bandeira apresentou giro clássico, bem espaçado e com excelente controle de eixo, garantindo que o pavilhão se mantivesse sempre desfraldado, sem enrolar no mastro. Denadir incorporou o espírito do enredo ao seu bailado, fundindo técnica rigorosa a passos mais soltos que remetiam à alegria do samba. Sua performance foi marcada por expressão radiante, transmitindo a segurança de quem possui domínio absoluto de seu espaço e de sua função sagrada.
SAMBA E HARMONIA
A bateria “Sensação” escreveu um capítulo importante da história recente do carnaval sob o comando de mestra Laísa, a única mulher à frente de uma bateria na Sapucaí. A ala musical deu show de criatividade com bossas que incorporavam sons circenses e migravam, com maestria, para a cadência do forró, homenageando a ascendência da família de Maria Eliza.

Esse vigor rítmico serviu de alicerce para uma harmonia robusta. A escola cantou a plenos pulmões, com o refrão principal funcionando como verdadeiro grito de afirmação da comunidade do Engenho de Dentro, amparado por bom trabalho do carro de som.
ALEGORIAS E FANTASIAS
O conjunto alegórico demonstrou excelente aproveitamento de materiais e cores vibrantes. O abre-alas, “A Chegada do Grande Circo Guarany”, em tons de azul e dourado, impactou, mas apresentou falha no acabamento da escultura do Falcão e também em parte da fantasia do destaque no chão.

O uso de materiais metálicos na segunda e na terceira alegorias trouxe brilho extra sob a iluminação da passarela. A última alegoria foi bom fechamento, com explosão cromática e bailarinos realizando movimentos em balanços circenses no topo do carro, conferindo dinâmica vertical que traduziu com fidelidade a alma do enredo. No chão, as fantasias dos destaques mantiveram padrão de acabamento, completando a unidade visual da escola.
EVOLUÇÃO
No quesito Evolução, o Arranco demonstrou maturidade. A escola manteve andamento fluido, sem abrir buracos ou apresentar oscilações de ritmo. As alas estavam compactas, e os componentes demonstravam alegria genuína, brincando o Carnaval sem perder alinhamento técnico.

A leveza das indumentárias permitiu que a agremiação evoluísse com rapidez e preenchesse o asfalto com a densidade de uma escola que brilha para ascender ao topo.
O Arranco do Engenho de Dentro entregou desfile técnico e emocional. Ao elevar Maria Eliza Xamego, a escola reafirmou a importância do riso como ferramenta de luta e a competência feminina nos postos de comando do samba.
OUTROS DESTAQUES
Se o enredo do Arranco celebrava o pioneirismo de uma mulher negra no picadeiro, tratou de atualizar essa narrativa para os dias atuais. Sob o comando de mestra Laísa, a única mulher a ocupar o posto de regente principal no Grupo de Acesso neste carnaval, a “bateria Além da excelência musical, o trabalho de Laísa à frente dos ritmistas simboliza um marco de representatividade na Sapucaí. Com uma regência firme e uma liderança respeitada por todo o corpo de ritmistas, ela provou que o comando do ritmo não tem gênero. A bateria do Arranco não apenas sustentou o canto da escola, mas foi um elemento narrativo fundamental e a sustentação necessária para que a comunidade desfilasse com a alma lavada.









