O Império Serrano foi a quarta escola a desfilar no segundo dia de apresentações da Série Ouro. A agremiação levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves. A verde e branco da Serrinha homenageou a escritora mineira Conceição Evaristo, transformando suas “escrevivências” em imagens de resistência, literatura negra e força ancestral feminina.

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ALA 9
Componentes da Ala 09 do Império Serrano
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

O desfile misturou elementos biográficos com personagens da autora e transformou a Avenida em um grande conto poético contra o racismo e a desigualdade. Um dos momentos centrais foi a Alegoria dois: “Navio-mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”, que apresentou o “Navio que não é Negreiro, é de Refúgio”. Com estética terrosa, de barro e reconstrução, o carro representou a enchente na favela e a transformação da personagem mítica Sabela em embarcação de fé e salvação para sua comunidade.

Na ala que representou a “mulher de mil olhos”, símbolo da proteção e da vigilância de Sabela, quatro componentes compartilharam suas emoções: Frederico de Oliveira, de 50 anos, geofísico e estreante na escola; Camila Gomes, 36 anos, designer de sobrancelhas, com duas décadas de trajetória no Império entre idas e vindas; Hugo Melo, 36 anos, analista de TI, também em seu primeiro desfile; e Joyce Braga, 29 anos, analista, que realizou o sonho de estrear na escola do coração.

A emoção de vestir a Mulher de Mil Olhos

Frederico de Oliveira de 50 anos
Frederico de Oliveira, de 50 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para Frederico, a fantasia carregada de simbolismo despertou um sentimento novo: “É uma sensação de força, de potência e, sobretudo, fazer parte da ala dá uma sensação de pertencimento que eu não conhecia. É uma sensação muito boa. O Império está de parabéns pelas fantasias, pela forma que desenvolveu o desfile o por trazer esse enredo tão importante para todos nós”, afirmou.

Camila destacou o peso da representatividade ao falar da autora homenageada: “Representar e falar sobre a Conceição Evaristo é muita responsabilidade para a gente. Uma mulher negra, escritora. Eu sinto muita emoção e fico muito feliz de desfilar pelo Império Serrano mais uma vez. Estou muito orgulhosa de estar nessa ala e, sobretudo, nessa escola que sempre traz enredos que nos emociona e nos alegra”, disse.

Hugo ressaltou a dimensão histórica do enredo e a responsabilidade de levar essa mensagem para a Avenida: “É muito importante relembrar a nossa história, desde a colonização e a escravidão. Não podemos perder nossas origens. O samba-enredo nos faz refletir sobre o mundo atual e sobre o que podemos melhorar como pessoa. Desfilar com um enredo como esse me faz aprender sempre com a cultura afro. Ainda por cima, tenho o privilégio de vir nessa ala incrível. É uma felicidade difícil de definir”.

Proteção, amuleto e confiança no desfile

Os búzios aplicados nas fantasias simbolizavam os olhos de Sabela, a entidade que tudo vê e tudo protege. Frederico revelou que, mais do que proteger, sentia-se amparado: “Espero que a ala proteja a escola, mas, mais do que proteger, eu me sinto protegido. Que a coesão da ala proteja o Império e que a gente faça um grande desfile. Tenho certeza que isso vai acontecer e a escola vai ser muito bem representada”, garantiu.

Camila Gomes 36 anos designer de sobrancelhas
Camila Gomes, 36 anos, designer de sobrancelhas
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Camila lembrou as dificuldades enfrentadas no último Carnaval e demonstrou confiança na retomada: “Depois de um ano complicado, em que mais de 90% da escola ficou sem fantasia, este ano vamos entrar na Avenida com o pé direito. Certeza que a nossa fantasia vai ajudar a trazer a proteção que a nossa escola precisa e merece”.

Hugo também destacou o clima interno da agremiação como sinal positivo: “As alas estão bonitas, as fantasias alegres, os carros muito bem feitos. Vejo muita dedicação nos ensaios. A escola vem com gana e acredito que vai fluir bem na Avenida. E essa fantasia aqui vai cumprir a missão de proteger a escola e pavimentar o caminho para que tudo dê certo”.

Para Joyce, a ala funciona como um verdadeiro talismã: “Depois de tantos anos de luta, isso aqui vai ser o nosso amuleto. Com certeza estamos ajudando a proteger o Império para fazer um grande desfile”.

As mulheres que salvam e ensinam

Inspirados pela força matriarcal de Sabela, os componentes refletiram sobre as mulheres que marcaram suas trajetórias. Frederico destacou a base familiar e uma educadora que mudou seu caminho: “Minha mãe, minha avó, minhas tias sempre foram fundamentais. E destaco uma professora que me deu muita força em um momento em que eu precisei e não encontrei apoio em outra pessoa. O nome dela é Cristina Quintela”.

Camila foi direta ao apontar suas referências: “Minha mãe, minhas avós e minha sogra. Todas serviram de exemplo para mim. Sou uma felizarda em ter mulheres tão incríveis na minha vida”.

Hugo Melo 36 anos analista de TI
Hugo Melo, 36 anos, analista de TI
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Hugo ampliou a lista e reforçou a importância do reconhecimento feminino na sociedade: “Minha mãe, minha avó materna, minha esposa, minha sogra e todas as mulheres da minha família são importantes — cada uma com seu ensinamento. O homem precisa saber valorizar e cuidar das mulheres”.

Joyce conectou sua história pessoal à cultura do samba e à identidade preta: “Minha mãe e minhas tias, todas do mundo do samba e da cultura preta, são minhas maiores referências. Busco me espelhar nelas. A minha referência é enorme dentro da minha própria família e isso é muito bom”.