A Barroca Zona Sul encerrou o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial, realizados no Sambódromo do Anhembi. Sétima escola a se apresentar, a passagem da Faculdade do Samba pela Avenida foi marcada pelo desempenho implacável do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira e pelo andamento do samba ao longo do cortejo, encerrado após 65 minutos na Passarela do Samba. A Verde e Rosa desfilou com o enredo “Oro Mi Maió OXUM”, assinado pelo carnavalesco Pedro Alexandre Magoo.

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O desfile da Barroca ocorreu totalmente de manhã o que ficou evidente na estratégia para o conjunto visual e é mencionado no samba. Como apresentação para o público, o desfile funcionou bem, e manteve as arquibancadas atentas até o fim graças ao grande desempenho do carro de som com um dos melhores sambas do ano. Mas os problemas no quesito Evolução e as falhas observadas nas Alegorias foram acentuados o suficiente para gerar preocupações quanto ao julgamento da escola.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Chris Brasil, a Comissão de Frente representou na Avenida “Oxum e o primeiro iniciado”. Contando com um elemento alegórico que representou a Terra Sagrada dos Orixás, o quesito retratou o momento em que, segundo a crença do Candomblé, Oxalá ordenou que Oxum realizasse a iniciação daquele que se tornaria o primeiro filho de santo. Outros orixás fazem parte desse ritual, como Orunmilá, que decifra os mistérios de Oxalá e prepara Oxum e o Escolhido para o processo. Exu é o responsável por guiar a Senhora do Ouro e o escolhido até um rio sagrado, onde esse homem comum se torna um ser iluminado e devotado ao sagrado, símbolo vivo do Axé.

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A atuação do quesito apresenta simplicidade de leitura dentro da narrativa proposta, e a coreografia indica com clareza o início do desfile acalentador promovido pela escola. Mas o elemento alegórico, com a escultura de Oxalá com o corpo vazado, não causou o impacto visual esperado, apesar de um componente interagir com a estrutura em determinados momentos.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal do Barroca foi formado por Cley Ferreira e Lenita Magrini. Ambos já haviam dançado juntos pela Independente Tricolor entre os anos de 2017 e 2018, e reeditam a parceria com a chegada do mestre-sala à Faculdade do Samba, para a qual a porta-bandeira retornou em 2024. Ambos se apresentaram com fantasias que representaram “A filha de Oxalá e Yemanjá”.

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Foi um dos poucos casais da noite que precisou encarar um vento mais acentuado na Avenida, mas Lenita superou o desafio com bravura, e a energia da dança com Cley, cumprindo todas as obrigatoriedades do quesito nos módulos em que foram observados, fez com que o quesito conseguisse embalar o astral do início do desfile da escola. A dupla, sem dúvida, foi um dos principais destaques da Faculdade do Samba em 2026.

HARMONIA

A sequência de vários sambas grandiosos na discografia recente da Barroca Zona Sul facilita com que os componentes tenham mais entusiasmo para brincar o Carnaval. Como a escola não teve um andamento acelerado enquanto foi observada, os desfilantes conseguiram desfilar com leveza e cantar alegremente. Um quesito forte para a conta da Verde e Rosa.

ENREDO

“Oro Mi Maió OXUM” é um enredo de exaltação à Oxum, conhecida como a orixá que reina sobre as águas doces e como a divindade do amor, da beleza, da fecundidade e da riqueza. Trata-se de um desfile com ampla narrativa sobre a entidade, descrevendo em detalhes suas qualidades e histórias, como os amores vividos e a relação com o filho Logun Edé.

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A narrativa tem uma característica interessante. Cada carro alegórico representou uma história sobre Oxum, sendo dois deles sobre amores da orixá. As fantasias representaram elementos e personagens que narraram a história da Senhora do Ouro, somando ao que as alegorias representavam com riqueza e profundidade. Trata-se de um enredo acima de tudo cultural. Na Avenida, porém, algumas alas eram de difícil interpretação, como foi o caso da Ala 15 “Yalodê, A Grande Mãe”, cabendo aos julgadores definirem se entenderam o recado que pretendiam transmitir.

EVOLUÇÃO

O desempenho do quesito foi errático. Apesar do andamento inicial ter sido satisfatório, conforme a escola foi avançando pela Avenida, as falhas de compactação ficaram evidentes. Um espaço grande, superior a dez grades, abriu-se entre a Ala 7 e o Carro 2, no alcance de visão do segundo módulo de julgamento, com as destaques de chão que vieram ao meio não conseguindo suprir a falha de compactação. O recuo da bateria também foi irregular, com a mesma alegoria citada não parando enquanto a manobra ocorria, a ponto de um diretor ser observado correndo para pedir que a alegoria não andasse. No mesmo módulo também ocorreu uma abertura superior a cinco grades entre a Ala 13 e o Carro 3, maior do que o espaço que a destaque à frente pode usufruir, e o mesmo quase ocorreu também à frente do Carro 4.

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Os erros numerosos concentrados em um mesmo jurado podem significar que em outros setores a escola possa ter passado melhor, mas o fechamento dos portões, no limite do tempo regulamentar de 65 minutos, também evidencia que o cortejo não fluiu dentro do esperado. A Barroca Zona Sul precisa repensar suas estratégias de Evolução no próximo Carnaval.

SAMBA-ENREDO

O samba da Barroca para o Carnaval de 2026 foi assinado por Thiago Meiners, Sukata, Morganti, Claudinho, Fernando Negão, Shumacker, Valencio, L. Santos, Daniel Paixão, Léo PZ, Beto Savanna, Wilson Mineiro e Tubino. A escola optou há anos por encomendar dessa parceria as obras que canta na Avenida, e o resultado mantém um alto padrão de qualidade. Desde seu retorno para o Grupo Especial em 2020, todos os sambas compostos ficaram entre os mais bem avaliados do Carnaval de São Paulo, sendo essa uma sequência rara na história da folia paulistana. Na Avenida, o samba deste ano foi defendido pelos intérpretes Dodô Ananias, que está em seu segundo ano na escola, e Rafael Tinguinha, que estreou em 2026 pela Faculdade do Samba.

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O samba aposta em uma poesia serena e condizente com a narrativa em celebração à Oxum. A menção ao amanhecer, em função da posição de desfile, ganha ainda mais impacto, tendo em vista que se trata de uma homenagem à Senhora do Ouro. Os versos são de fácil aprendizado, e os componentes souberam cantar a obra com clareza. Na Avenida, a obra funcionou muito bem, com a comunidade e o público respondendo positivamente, e o desempenho do carro de som também foi exemplar. Um dos quesitos mais fortes da Faculdade do Samba no desfile.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias da Barroca teve papel fundamental para a compreensão do enredo. Não se percebe uma divisão clássica de setores, já que a história é contada conforme as alas fazem essa demanda. São observados, por meio dos desfilantes, elementos de devoção à orixá, ao mesmo tempo que os personagens são encaixados dentro da narrativa gradualmente, destacados posteriormente no que foi apresentado nas alegorias. O maior problema, porém, foi a clareza de leitura. Algumas fantasias não transmitiam suas mensagens com facilidade, e o acabamento das vestimentas variava entre soluções criativas e outros nem tanto. A Ala 12 apresentou um conjunto de costeiros com representação de jarros, onde alguns pareciam mais caídos que outros, gerando uma falha de uniformidade que pode ser considerada pelos jurados.

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ALEGORIAS

A Barroca Zona Sul apresentou na Avenida um conjunto formado por quatro carros alegóricos, e cada um retratou individualmente uma história sobre a orixá exaltada no enredo. São eles: O Abre-alas, “As Águas Sagradas de Oxum”, contou a história da filha de um rei que caiu nas águas de um rio, mas foi encontrada após dias de buscas viva e carregada de tesouros, fazendo a majestade nomear o rio sagrado de “Rio Ossun” e transformando o título de seu reinado em Rei Osogbô, que significa o “rei que acredita em Oxum”. O Carro 2, “O fogo que move uma paixão”, contou a história de quando Oxalá procurava um marido para sua filha Oxum, mas entre vários pretendentes nobres e ricos, ela se apaixonou por um andarilho versador, que na verdade era Xangô, o orixá da justiça, disfarçado. O Carro 3, “Quando a água encontra a mata”, contou a história de outro amor de Oxum, agora por Oxóssi, o qual conheceu na beira de um rio e precisou de uma ajuda de Exu, irmão do orixá caçador, para conquistá-lo. Por fim, o Carro 4, “Oxum e Logun Edé, amor de mãe”, mostrou o fruto da relação de Oxum com Oxóssi, na forma de seu filho Logun Edé, cujo nascimento se tornou símbolo de fertilidade e representou a mais bela e pura forma de amor que existe.

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É interessante como, enquanto as fantasias apresentaram elementos da história de Oxum, as alegorias contaram histórias completas sobre a entidade. Quatro grandes narrativas muito bem retratadas, que mostram os valores da orixá e como uma única entidade da cultura iorubá representa tantas histórias marcantes, evidenciando como aquele povo vivia, antes de influências externas, um estilo de vida mais livre de dogmas restritivos.

Mas o conjunto alegórico não foi uniforme. O acabamento e o impacto visual do Abre-alas e do Carro 4 foram visivelmente superiores ao dos Carros 2 e 3, e problemas no funcionamento dos mecanismos que jorrariam água ficaram evidentes, em especial na última alegoria, onde apenas o esguicho do lado esquerdo funcionava, e mesmo assim, não ao longo de toda a Avenida. A solução de iluminação se mostrou acertada para o horário do desfile, contribuindo para destacar elementos das alegorias mesmo com o já esperado Sol que esperava pela escola.