Nesta sexta-feira de carnaval, a Dragões da Real realizou seu desfile oficial no Sambódromo do Anhembi, exaltando as Guerreiras Icamiabas. Com o enredo “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”, a escola apresentou um espetáculo de forte identidade indígena, marcado por alegorias monumentais e um conjunto coeso.

A agremiação da Vila Anastácio demonstrou atenção ao novo manual do julgador e conseguiu executar suas propostas de forma satisfatória. O canto foi predominante ao longo de todo o percurso, sustentado por um conjunto musical bem entrosado. Destaque para as convenções do mestre Klemen e para o apagão conduzido por Renê Sobral. Como já apontado no pré-carnaval, a escola certamente brigará pelas primeiras posições da tabela. O desfile foi concluído em 1h03.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Ricardo Negreiros, a comissão apresentou o quadro “As Icamiabas e o Sopro da Floresta”. Cinco elementos compuseram a encenação: o nascimento da Icamiaba, as guerreiras já formadas, uma pajé, os espíritos da floresta e o amuleto muiraquitã, representado por uma criança.

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O ápice ocorreu na transformação das Icamiabas recém-nascidas em guerreiras. O elemento alegórico se fechava e, ao reabrir, revelava novas personagens com flechas e fantasias vermelhas, simbolizando força e impacto. A troca de elenco, com efeito visual surpreendente, arrancou aplausos do público. Todos os movimentos obrigatórios, saudação ao público e apresentação do pavilhão, foram executados com clareza. Assim como nos ensaios técnicos, a comissão teve fácil leitura e traduziu bem o enredo, especialmente ao destacar o surgimento das Icamiabas e o muiraquitã.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Rubens de Castro e Janny Moreno, com a indumentária “A Proteção Espiritual e a Superação”, realizou uma apresentação tecnicamente segura. Os movimentos obrigatórios foram executados com precisão, inclusive as finalizações após os giros horário e anti-horário. Embora a coreografia não tenha sido exuberante, o desempenho foi correto e satisfatório.

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HARMONIA

Repetindo o padrão dos últimos anos e dos ensaios técnicos, a Dragões manteve excelência no canto. Mesmo com fantasias de grande volumetria, a escola sustentou a harmonia do início ao fim do desfile. O apagão nos versos finais, a partir de “Valentes guerreiras”, foi um dos momentos mais marcantes. Diferentemente do habitual, não ocorreu no refrão principal, mas em outro trecho do samba, demonstrando ousadia do conjunto musical.
O samba foi abraçado pela comunidade e teve uma arrancada forte, contagiando inclusive as arquibancadas.

ENREDO

A proposta foi exaltar a lenda das Guerreiras Icamiabas, mulheres amazônicas associadas à força, resistência e preservação ambiental. O enredo também estabeleceu um paralelo com o empoderamento feminino contemporâneo, evidenciado em versos como: “Levam nome de Marias, mulheres comuns… No peito amor, na pele urucum”.

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Esteticamente, o desfile foi marcadamente indígena, sobretudo nas alegorias. A segunda alegoria, que retratou Iaci e Iara, destacou-se pelo clima de floresta, com animais em movimento, água jorrando e uma imponente representação de Iara.

A última alegoria trouxe uma mensagem atual e reflexiva, simbolizando a destruição da Amazônia, com predominância do preto. Não houve um final feliz, mas sim um alerta necessário. A Dragões conseguiu articular de maneira respeitosa as lendas amazônicas, o empoderamento feminino e a conscientização ambiental, oferecendo um espetáculo visual bem acabado, criativo e de fácil leitura.

EVOLUÇÃO

A evolução foi satisfatória e manteve a característica da escola: intensidade e movimentação coletiva. A Dragões desfilou compacta, sem riscos de buracos ou divisão de alas. Impressionou o espaçamento mínimo entre uma ala e outra, fruto do trabalho atento dos coordenadores ao longo da pista. Algumas alas coreografadas também se destacaram pela criatividade.

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SAMBA-ENREDO

Sob o comando de Renê Sobral, o carro de som apresentou alto nível técnico. Músicos como Jorginho Soares integraram o conjunto, e a cantora Mayara Lima realizou uma bela abertura com voz e cordas na introdução. Após o grito de guerra, a escola teve uma largada impactante. A letra, aliada aos arranjos e ao entrosamento com mestre Klemen, manteve o público envolvido durante todo o desfile.

FANTASIAS

Com assinatura do carnavalesco Jorge Freitas, as fantasias apresentaram alta volumetria, luxo e excelente acabamento. Os costeiros merecem menção especial. A evolução compacta valorizou o colorido da escola na avenida, criando um contraste visual marcante, especialmente no primeiro setor.

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ALEGORIAS

O abre-alas, “Aldeia Icamiaba e as Iguanas da Proteção”, trouxe um dragão, símbolo da escola, na maior escultura já apresentada pela agremiação, com movimentos e efeitos de fumaça. O restante do carro exibiu riqueza de detalhes indígenas, reforçando o respeito estético ao tema.

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A segunda alegoria, “Iaci e Iara no Templo das Esmeraldas e das Muiraquitãs”, destacou o amuleto sagrado em formato de sapo. Sapos cenográficos com movimentos de boca e língua deram dinamismo ao carro. As esculturas de Iara e Iaci impressionaram pelo realismo, e a água jorrando no topo reforçou a simbologia da mãe das águas. Apesar de deixar o chão molhado, o efeito não comprometeu a evolução.

O terceiro carro, “A Transformação Icamiaba na Resistência contra os Invasores”, simbolizou a chegada europeia e a defesa do território. A escultura feminina com traços humanos e animais remeteu à força mítica das guerreiras.

A quarta alegoria, “Fogo e Destruição: a Luta pela Preservação do Santuário Icamiaba”, encerrou o desfile com tom reflexivo. A predominância de cores escuras reforçou a mensagem de alerta ambiental. Observou-se, porém, a exposição de uma roda no lado direito, o que pode ser considerado elemento visual indesejado.

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No geral, o conjunto alegórico foi um dos grandes destaques da noite, alinhado ao novo modelo de julgamento, que valoriza impacto visual e acabamento.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Ritmo que Incendeia”, comandada por mestre Klemen, desfilou caracterizada como “Guerreiros Tupi”, mantendo regularidade e energia ao longo do percurso.

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As baianas, representando as “Mulheres Anciãs”, encantaram vestidas de vermelho. Já a corte de bateria, com a rainha Karine Grum, a musa Lexa e a princesa Yohana Obyara, imprimiu carisma e samba no pé ao desfile.

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Em síntese, a Dragões da Real apresentou um desfile consistente, visualmente impactante e tecnicamente competitivo, credenciando-se como forte candidata às primeiras colocações do carnaval.