Quando nasce um monstro? A pergunta ecoou na Marquês de Sapucaí na primeira noite de desfiles da Série Ouro, quando a Acadêmicos de Vigário Geral foi a sétima escola a atravessar a avenida com o enredo “Brasil Incógnito – O Que os Seus Olhos Não Veem, a Minha Imaginação Reinventa”.
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Assinado pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, o projeto propõe uma revisão crítica do imaginário colonial ao transformar o “bestiário” descrito pelos europeus em símbolo de resistência e reinvenção histórica.
A ideia é simples e provocadora: aquilo que foi chamado de monstruoso passa a ocupar o centro da narrativa. O medo, antes instrumento de dominação, torna-se potência criativa. Entre componentes de diferentes alas, a reflexão ganhou corpo e voz.

FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Professor e estreante na escola, Vinícius Moraes, 35 anos, entende a monstruosidade como construção social: “É muito relativo. O que é monstro pode ser para uns e para outros não ser. É algo que depende do ponto de vista. O próprio enredo vem dizer que é tudo uma construção social”.
Para ele, o medo nasce do desconhecimento e do preconceito: “O medo tem uma coisa de desconhecimento, de preconceito, e isso pode ser interpretado como uma ameaça, como algo ruim”, disse.
Ao comentar como o Brasil foi historicamente descrito como selvagem ou monstruoso, Vinícius apontou interesses de poder por trás dessa narrativa.
“Havia todo um interesse em pintar o Brasil dessa maneira. Era com o intuito de deturpar, converter e retirar a imagem do Brasil. Existe um interesse de poder nesse sentido”, afirmou.
O professor também questiona a ideia de padrão: “Alguém estabelece o padrão. Se você não está dentro dele, dizem que aquilo é errado ou complicado, e isso começa a assustar”, disse. Para o professor, a inversão proposta pelo enredo dialoga com um novo olhar sobre a história do país: “Nos últimos anos temos visto esse novo olhar sobre a história do Brasil. Monstros nem sempre são como foram pintados”, concluiu.

FOTO; Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Também estreante na agremiação, o produtor cultural Mike Vieira, de 34 anos, reforçou que o termo pode carregar sentidos opostos. “Quando você chama o outro de monstro é muito mais sobre a sua percepção do que sobre o que o outro de fato é. Pode ser elogio ou algo negativo. Quando aquilo é estranho para nós, o primeiro sentimento é medo, até que se conheça de fato”, disse.
Ao falar sobre a mistura cultural brasileira, frequentemente vista como ameaça ao longo da história, Mike defendeu a força dessa identidade plural: “Somos um povo tão multicultural que o resto do mundo tem um pouco de medo, porque sabe que nunca vai chegar aos nossos pés culturalmente”.
Ele acredita que o carnaval responde ao medo com criatividade e superação. “O carnaval é construção coletiva, luta e superação. Existe sempre o medo de que algo dê errado, mas no final dá tudo certo”, encerrou.
Já Hélida vê na proposta da escola um gesto de reeducação histórica: “Fomos educados a ver a história do nosso país de uma forma. Quando artistas mudam esse ponto de vista e contam a história não pelo olhar do colonizador, mas pelo lado de quem sofreu a invasão, mostram um novo olhar que não estamos acostumados, porque aprendemos de outra maneira”.

FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Desfilante que retorna à escola após mais de três décadas, Sara Etienne, 43 anos, desfilou pela primeira vez na ala infantil, em 1992. Para ela, o termo “monstro” também oscila entre o medo e a admiração.
“Chamam de monstro quando consideram alguém muito feio ou assustador, mas também quando a pessoa é muito importante na música ou no teatro, por exemplo. É alguém grande, imenso”, afirmou.
Na Avenida, a Vigário Geral levou à cena a pergunta que atravessa séculos: quem define o que é monstruoso? Ao devorar simbolicamente o olhar colonial e reinventar suas próprias imagens, a escola transforma o medo em narrativa, a diferença em potência e o monstro em espelho.









