Última escola a cruzar a Marquês de Sapucaí no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, a Acadêmicos de Vigário Geral veio com a ala das passistas inspirada na onça, animal que descrito com temor pelos primeiros colonizadores, mas que no enredo ganha novos significados: resistência, feminilidade, poder ancestral e garra.

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Entre as integrantes está a francesa Anahí Renoso, de 34 anos, que mora no Brasil há quatro anos, desfila pela Grande Rio e saiu pela primeira vez na Vigário Geral. Ao falar sobre representar a onça pintada, ela destacou a força do animal.

“É muito bom, porque nas lendas amazônicas a onça sempre aparece com essa característica de feminilidade, de sensualidade, de poder da floresta e de toda a parte mais religiosa dos caboclos. Tudo está encarnado dentro desse animal e acho muito bom porque também bate muito com a minha personalidade. Eu devo devorar a avenida mesmo, com garra para o pavilhão. Para mim, como gringa, é um estudo da cultura, além de ser um desfile. A onça na avenida mostra a resistência dentro do samba também e a garra de uma escola para ganhar o carnaval”, comenta a francesa.

As passistas Anahi e Alicia francesas
As passistas Anahí e Alícia, francesas
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Anahí também relembrou o enredo da Grande Rio que homenageou a onça.

“Eu já me sinto muito familiarizada com a onça, porque eu também vim de onça dourada no ano da Grande Rio. E esse ano da onça foi muito bom na escola, porque mostrou essa garra da escola também na avenida. Então eu gosto de ser onça. Parece que em cada escola que desfile tem uma onça sempre”.

Ao lado dela, a conterrânea Alícia Rodrigues, de 24 anos, desfilou pela primeira vez na Vigário. Com planos de morar no Brasil e participação confirmada no Carnaval de Recife com o Maracatu, ela celebrou a energia da ala.

“Eu acho que vai ser muito lindo lá na Avenida. A gente vai quebrar tudo com o samba no pé da ala da comunidade. A onça é um animal muito misterioso, e ela também tem uma energia bem particular por conta das lendas da Amazônia e tudo isso. Então, eu acho que é uma energia fantástica também”, afirma.

a musa Betao assumiu um papel de lideranca e protecao
a musa Betão assumiu um papel de liderança e proteção
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

À frente da ala, a musa Betão assumiu um papel de liderança e proteção.

“Eu venho representando a mãezona da ala das passistas. Como eu já estou há anos na Vigário Geral, para mim está sendo uma honra vir no primeiro ano como musa das passistas. ‘Mãezona’, como eles me chamam. A a onça quer proteger, e eu estou aqui pra proteger as minhas crias com samba no pé ralegria”, conta a musa.

Matheus Andrade de 20 anos
Matheus Andrade, de 20 anos
FOTO: CAROLINA FREITAS/CARNAVALESCO

Para Matheus Andrade, de 20 anos, morador da Penha, administrador e funcionário do CE-Rio, a estreia na escola veio carregada de emoção.

“É uma honra muito grande. É o meu primeiro ano aqui sendo passista da Vigário. Foi muita luta, muito suor no chão, porque isso é muito difícil, mas hoje eu tenho um sonho realizado. Estar aqui nessa escola tão incrível, que abre portas para tantas pessoas que, muitas vezes, onde não tem porta aberta, a gente abre janela. Então é muito honrado mesmo que eu esteja nessa escola na Avenida. A gente tem que ter garra, tem que ter personalidade. É carão, bocão, pernona, cabelo pro alto. E é isso, a onça vai cantar na avenida hoje com a Vigário”, resumiu sobre o momento.

Matheus também refletiu sobre a força que, ao longo da história, foi interpretada como ameaça.

“Depois do ocorrido que teve, de carros pegarem fogo, infelizmente no Carnaval acontece muito isso. Hoje a escola está magnífica, com os carros todos prontos. A escola está com uma garra muito grande. A gente, infelizmente, viu o Jacarezinho hoje no estado do fogo. Mas a Vigário hoje mostra realmente o pessoal que veio dar o sangue pela Vigário, junto com os carnavalescos Alexandre, Alex e Caio. Eles fizeram o impossível na Vigário. E hoje, daqui a pouquinho, a escola vai entrar e vai mostrar a força da onça junto com a Vigário na Avenida”, desabafa.

Moradora da Penha, Adriana Oliveira, de 50 anos, falou sobre o protagonismo muitas vezes invisível das passistas.

“Embora o chão da escola e a comunidade e as passistas tenham uma grande parte desse sucesso, desse chão, elas na verdade não pontuam. Porém, elas auxiliam no quesito da bateria, no quesito da evolução. Então, assim, de uma forma ou de outra, a gente tem um protagonismo não visto, mas ele está aí, ele existe”, avalia a passista.

Sobre a fantasia, ela apontou a conexão com o enredo: “Nesse caso, o enredo, eu acredito que a cabeça da onça e as penas que remetem ao indígena, aos povos originários. Nesse enredo, esse é o detalhe que mais faz referência”.

Estreando na Vigário, a psicóloga Thais Monsores, de 32 anos, reforçou a potência coletiva da ala.

“A escola está vindo super bonita esse ano, a gente está vindo com uma força muito grande. E a ala das passistas realmente é uma ala super animada, que demonstra toda a força da escola, toda a animação, toda a garra”, afirma.

Sua colega de ala, Érika Espada, de 50 anos, que trabalha na Comlurb e construiu amizade com Thais nos ensaios, associou a onça à força feminina dentro da agremiação.

“E a onça é um animal que é muito potente, muito forte também, que representa muito bem o que nós somos, o que a ala das passistas da Vigário é. É uma resistência. O animal também vem significando a força da mulher, também das passistas, que a presidenta também é uma mulher que segura a escola com muito amor e força. A gente vem representando também a força da mulher, a força da presidenta e que vamos, se Deus quiser, conseguir algo muito bom para a Vigário Geral”.

Questionada sobre o elemento da fantasia que melhor simboliza essa proposta, ela nem pensou duas vezes antes de responder: “Com certeza, a cabeça da onça”.

Na Sapucaí, a “fera” que um dia foi temida como ameaça ressurge agora como símbolo de ancestralidade e a potência de uma onça que não ruge com samba no pé pela comunidade de Vigário Geral.