A Vigário Geral pisou na Sapucaí com muita criatividade, trazendo um enredo diferente, satírico, baseado em ideia criativa dos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini. Com estética criativa, uso de materiais diferentes, soluções estéticas inovadoras e carros grandiosos, a dupla ousou na ideia, mas pecou um pouco na leitura e no encadeamento da história, que não ficou muito clara para o público. O início, com a caravela e o mar, até dava bom entendimento, mas, a partir da metade do desfile, a história e a proposta não se traduziram nas fantasias de forma clara. Apesar de um bom rendimento do samba, a comunidade cantou pouco. Comissão e casal tiveram pequenas questões que podem não influenciar tanto na nota. A evolução também não foi perfeita, mas o carro de som, comandado por Danilo Cezar, deu show.

Com o enredo “Brasil Incógnito – O Que Os Seus Olhos Não Veem, A Minha Imaginação Reinventa”, desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, a Vigário Geral, com o tempo de 55 minutos, encerrou a primeira noite de desfiles da Série Ouro.
COMISSÃO DE FRENTE
À frente dos componentes da Vigário Geral desde 2020, Handerson Big apresentou a comissão “Sátira do Pequeno Invasor”, que trouxe um sujeito de mangas bufantes, suando sob o sol de 40 graus, na vestimenta de um português do período das grandes navegações. Na coreografia de deslocamento, esse invasor se desloca com uma pequena caravela meio destruída e com um globo terrestre que ora ele sobe em cima, ora ele empurra. Na apresentação para o júri, este personagem dança com o globo, onde a Europa ocupa o centro, esticada e inflada por um ego cartográfico. Ele joga o mundo para o alto, os componentes se unem nessa dança e depois colocam o globo na caravela.

No clímax dessa sátira, os componentes retiram da roupa pequenos mapas-múndi que, na verdade, de um lado têm imagens de monstros mitológicos e, do outro, as letras que formam o nome Vigário Geral. Após se assustarem com as imagens desses seres, eles se juntam e formam o nome da escola no final. A ideia é bem legal, tem muito a ver com o enredo, traz um tom de sátira e irreverência. O que prejudicou um pouco foi o uso da iluminação cênica. Em alguns momentos-chave, a Sapucaí ficava muito escura, como no momento em que os invasores erguiam o globo juntos. Em outro momento, quando os personagens apresentavam os monstros nos mapas, a iluminação muito baixa não destacava a cena, e as imagens não ficavam muito nítidas. No geral, uma ideia legal; a execução poderia ser melhor.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Johny Matos e Isabela Moura, veio com o figurino “A dança das marés”, que representou o fenômeno natural do movimento de sobe e desce do nível do mar, causado pela atração gravitacional da Lua e do Sol, criando um ciclo constante. É um bailado de ondas que, junto ao vento, leva as embarcações rumo ao desconhecido.

A dupla optou por uma coreografia intensa, com Isabela dando muitos giros e mostrando muita força e talento para sustentar o pavilhão. A única questão a ser analisada foi no primeiro módulo de julgamento, que não é duplo, em que, em dois momentos, nos giros, a bandeira não ficou bem desfraldada, como é recomendado ao casal no julgamento. Mas eles se mantiveram bem nas outras cabines, fazendo inclusive um passinho muito interessante no verso do samba “Deixa o chão tremer”, em que Johny parecia interagir com o público. Do casal, só essa situação a se analisar na primeira apresentação.
HARMONIA
O “pequeno notável”, o capixaba Danilo Cezar, em seu terceiro desfile pela Vigário, mais uma vez mostrou que é nos pequenos frascos que estão os melhores perfumes. Que voz. Terminou o desfile como começou: com muita potência, afinação, correção e colocando muita expressão na apresentação do samba, pois a obra pedia um pouco de irreverência e picardia. E, com a ajuda das vozes de apoio, ele conseguiu dominar a obra.

Já a comunidade ficou abaixo no canto. Era fácil notar, em diversas alas, componentes que não cantavam, e, em algumas alas, era difícil achar gente cantando, como na ala “Imaginária Riquezas”. Na ala “Vigarista à vista”, a primeira da escola, os componentes estavam com o rosto tampado com pano, dificultando o canto para o desfilante e a visualização, pelo jurado, de quem estava cantando. E foi assim em diversas alas. O canto ficou devendo.
ENREDO
O enredo “Brasil Incógnito – O Que Os Seus Olhos Não Veem, A Minha Imaginação Reinventa” teve como objetivo recontar a história do Brasil a partir da perspectiva dos monstros e seres mitológicos criados pelos colonizadores. Os carnavalescos fizeram desses seres os verdadeiros heróis do país, de forma cômica, sarcástica e crítica.
O primeiro setor apresentou a estética marítima, com caravela híbrida e criaturas fantásticas. Nele, a Vigário Geral mostrou o primeiro encontro do invasor com o desconhecido nas águas do oceano Atlântico.

Já no segundo setor, a floresta e a invasão europeia dialogaram com o imaginário indígena distorcido. Nele, a escola abordou a entrada de bandeirantes, clérigos, viajantes, naturalistas e artistas no interior verde do Brasil.
Por fim, o último setor ressignificou esses “monstros” como símbolos da cultura brasileira, defendendo que a história de um país também é a história de suas criaturas imaginadas. Nessa última parte, a agremiação retratou a terra: os sertões revelaram-se uma região árida e pouco habitada, prolífera em causos, visagens e assombrações.
Apesar de um enredo ousado, irreverente e com crítica histórica, na Avenida, olhando fantasia por fantasia, havia certa dificuldade de relacionar os setores e de transportar o que era mostrado para a narrativa proposta pelos carnavalescos.
EVOLUÇÃO
A Vigário começou seu desfile com muita energia, no ritmo do samba, com espontaneidade e alegria. A escola manteve o tom de picardia do enredo e se apresentou brincando o carnaval, sem alas coreografadas e sem alas engessadas.

O único problema foi no segundo módulo de julgamento, quando a escola teve um momento em que o casal se movimentou e a ala de trás não acompanhou, deixando um espaçamento equivalente ao tamanho entre duas torres de som.
Na reta final, a Vigário ainda parou um pouco nos últimos setores para brindar o público com a bateria. Não foi um desfile perfeito no quesito, mas não chegou a ser um problema grave, pois a cabine não era dupla.
SAMBA-ENREDO
O samba foi produzido por Verônica dos Tambores, Junior Fionda, Marcelinho Santos, Junior Falcão, Flavinho Avelar, Geraldo M. Felício, Camila Lúcio, Gilsinho da Vila, Rogério Máximo, Rafael Gonçalves, Soares do Cavaco, Antônio Neto e Davison Jaime.

Baseado em um enredo que, mais do que qualquer coisa, é uma sátira, o samba da Vigário tem uma pegada engraçada, lembrando os melhores tempos, por exemplo, da São Clemente, tratando, neste caso, um assunto histórico com uma roupagem leve, com desconstrução, o que resultou em uma obra alegre, para cima. O andamento escolhido pela bateria e pela direção musical ajudou, assim como o rendimento do carro de som, que impulsionou a obra.
Destaque para os dois refrões “Se a canoa não virar…” e “Deixa o chão tremer…”, que eram os momentos em que o samba mais se destacava e a comunidade mais cantava.
FANTASIAS
O conjunto estético desenvolvido por Alex Carvalho e Caio Cidrini foi outro ponto alto do desfile na questão da estética, da criatividade e dos materiais alternativos. A dupla mais uma vez mostrou um trabalho com assinatura própria.
As primeiras alas, em um setor que trata do mar, trouxeram tons de azul mais claro na indumentária. As fantasias “Vigarista à vista”, falando dos portugueses que, para justificar a invasão, criaram um Brasil mitológico; logo depois “Criaturas marinhas”, que representava a vastidão do mar e o desconhecido do que havia nele por parte dos exploradores daquele tempo; e “Assombrações litorâneas”, que tratou do fascínio pelo desconhecido que aportou no litoral brasileiro, no mesmo setor e no mesmo tom de azul, produziram um efeito estético e de colorimetria interessante.

No segundo setor, houve mais utilização de tons dourados. No último setor, a escola trouxe cores mais vivas ao retratar dimensões da cultura brasileira. Já os tons mais desbotados, como o da ala das baianas “Relatos sertanistas”, trouxeram o que o próprio nome da fantasia indica: anotações, cartas e documentos que permitiram e validaram as descobertas feitas durante as jornadas, funcionando como ferramentas de registro científico, histórico e pessoal.
No final, a literatura de cordel também estava retratada na última ala, em consonância com os tons do último carro.
ALEGORIAS
Assim como nas fantasias, as alegorias tiveram a assinatura dos carnavalescos. Com trabalho estético criativo, bem executado e utilização de materiais diferentes do uso comum, a escola mostrou ter superado o incêndio no pré-carnaval, apresentando três alegorias de muito valor estético.

O carro abre-alas, primoroso e alto, com o nome “Imponente Brasil Submerso”, trouxe uma ode às assombrações do mar, bioma pelo qual os falsos “descobridores” adentraram o Brasil. Na alegoria, a caravela, símbolo maior da expansão marítima europeia, dialogava com a fauna e a flora marinha, como uma espécie de navio metamorfo que representava o medo do desconhecido. Da lateral, saíam bolas de sabão.
Na segunda alegoria, “Quimérico Nativo”, a escola apresentou uma floresta diferente de tudo que já havia sido visto por aqueles que chegaram à praia: árvores de todos os tamanhos, misturadas com orquídeas, cipós, samambaias, arbustos e ervas. No chão, sempre molhado, raízes e mudas. A segunda alegoria da Vigário Geral retratou as florestas tropicais do Brasil com seus enxames de insetos e répteis.

A terceira alegoria, “Malassombro Sertanejo”, apresentou a dura vida de quem desbravou o Brasil profundo, resultando em um carro alegórico inspirado nos causos do sertão nordestino. Para tal conceituação, a estética cordelista foi inspirada na obra visual de J. Borges e na obra textual de Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré e Cego Aderaldo.
Na figura central, o Cramulhão, meio monstro, meio humano, fruto da mestiçagem religiosa, sintetizava os temores do destino final dessa viagem no tempo e na alma brasileira. Carros de muita qualidade estética e criativa.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Swing Puro”, de mestre Luygui Silva, com a fantasia “Visagens da mata”, representou as aparições, assombrações, encantamentos ou seres sobrenaturais que povoam as florestas e tanto assustaram quanto fascinaram os povos locais e as expedições estrangeiras.
A rainha Patrícia Souza representou os rituais antropofágicos dos povos originários. Já os passistas da Vigário, com a fantasia “Bicho-fera”, representaram a onça-pintada, animal que causou muito espanto aos portugueses em sua chegada.
A presidente Betinha valorizou o trabalho de sua equipe, que superou o incêndio no barracão da agremiação.









