A União da Ilha do Governador desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida. Com o enredo “Viva o Hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola abriu sua apresentação propondo um mergulho no contraste entre o deslumbramento e o temor. 

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Nayana Gottgtroy 47 domestica
Nayana Gottgtroy. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes da primeira ala detalharam emoções, expectativas e a responsabilidade de representar, logo no cartão de visitas, a identidade visual da comunidade insulana na disputa por uma vaga no Grupo Especial para 2027.

Inspirado no brilho lunar que corta o Universo, a escola trouxe para a Avenida a imagem de uma população dividida entre o fascínio e o medo diante da passagem de um cometa. De um lado, figuras elegantemente vestidas sob a influência de ares franceses; de outro, figuras do início do século passado, remetendo a um possível colapso atmosférico. O contraste se materializa no diálogo entre luxo e caos, traduzindo a pergunta que intitula a alegoria: “Será que o mensageiro desse caos sou eu?”.

A estética mistura referências da Belle Époque com o Movimento Steampunk. As figuras monstruosas, de visual impactante, foram confeccionadas com sobras de materiais e fantasias de carnavais anteriores, cedidos por colaboradores e escolas coirmãs. A proposta sustentável de Marcus Ferreira não apenas reduz desperdícios, como também reforça a criatividade como marca do fazer carnavalesco, ressignificando o passado para construir o presente.

Estreante, Nayana Gottgtroy, 47, doméstica, fala sobre sua percepção da fantasia que estava vestindo. “Para mim representa a elegância. É a primeira vez que desfilo, então tá sendo uma emoção e uma expectativa fora do normal”, afirmou. Sobre o reaproveitamento de materiais na alegoria, ela foi direta: “Acho muito melhor, reaproveitar é sempre o caminho mais sustentável”. Para Nayana, a responsabilidade de estar no Abre-Alas exige que a primeira impressão seja inesquecível, mesmo com a correria que teve para sua preparação.

Carlos Salcedo
Carlos Salcedo. Fotos: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Componente da escola desde 1997, Carlos Salcedo, 39 anos, técnico de enfermagem, também veste o luxo da composição afrancesada. “A minha fantasia representa a elegância, me sinto lisonjeado e extremamente feliz em vir no abre-alas. Acho uma boa ideia as escolas investirem nisso (uso de materiais recicláveis na produção de fantasias e alegorias), é muito mais sustentável”. Em sintonia com o samba-enredo, ele garante que, se o mundo acabasse ao fechar dos portões, sairia realizado da Avenida.

Carlos ainda destacou o peso emocional de abrir o desfile. “Emocional não tem jeito, a gente sempre fica emocionado, já o físico é a alimentação, beber muita água, praticar atividades físicas e descansar pra gente poder aguentar essa batalha na Avenida”, afirmou. A fala reforça que, por trás do espetáculo visual, há preparo e disciplina para sustentar o impacto que a escola deseja causar logo nos primeiros minutos de apresentação.

Morgan Little 44 vendedora
Morgan Little. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A estrangeira Morgan Little, 44 anos, vendedora, viveu sua primeira experiência no carnaval carioca diretamente no Abre-Alas. “É a minha primeira vez no carnaval do Rio, estou muito animada e mais animada ainda em poder fazer parte desse show. Minha fantasia é bem luxuosa, colorida e repleta de detalhes, parte a parte”. Encantada, ela afirmou não poder estar mais feliz e que quer “aproveitar tudo e ser muito feliz com a União da Ilha na Avenida”, sintetizando o espírito do enredo que celebra o hoje.

Entre o medo simbolizado pelas máscaras de gás e o luxo refletido nos figurinos elegantes, a União da Ilha construiu uma abertura que convida à reflexão sobre o tempo, o agora e o amanhã incerto. O Abre-Alas, com sua mistura insana de Steampunk e Belle Époque, não apenas impactou visualmente, como reafirmou o pertencimento de seus componentes a uma narrativa que transforma incerteza em arte.