Nem só de vermelho e branco se constrói um desfile. Em meio às cores que definem a identidade da Unidos de Padre Miguel, uma ala rompe o padrão cromático e provoca impacto imediato na Sapucaí.
A Ala 19, “O Gritador”, surge no setor do Encantamento como um ponto de tensão na narrativa de “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”. Com a fantasia em preto e branco, caveira no topo do estandarte e estética sombria, a ala representa uma entidade do folclore nordestino: um espírito que grita na noite e habita o limiar entre a vida e a morte. É Carnaval. É festa. Mas também é memória, respeito e espiritualidade.
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A presença da ala dialoga com o período retratado no enredo, a invasão holandesa e o contexto de guerra que marcou a história de Clara Camarão. O brilho não apaga o luto. O espetáculo não esquece as perdas.
José Feital, de 65 anos, aposentado e há 14 anos na escola, descreve o impacto já na concentração. “Foi inusitado chegar na concentração com essa fantasia. As crianças ficam assustadas e encantadas ao mesmo tempo. Tirei foto com o público, mas é importante explicar que estamos representando uma lenda e que isso faz parte do enredo da Unidos de Padre Miguel, que foi chefiado por uma líder guerreira. É preciso ter muita coragem para vestir esse manto, porque precisamos representar com orgulho. Na época da invasão dos holandeses houve muita morte, e estamos aqui representando essas perdas. Vamos brilhar e fazer acontecer a vitória da escola”.

Luciana Santana, 42 anos, vive sua estreia na escola e sente o peso simbólico da fantasia. “As pessoas ficam assustadas com a fantasia, mas encantadas ao mesmo tempo. Desfilar na avenida com toda essa montagem é uma emoção.”

Pamela Reis, 43 anos, autônoma e há dois anos na Unidos, destacou a curiosidade do público diante da quebra estética. “A reação é engraçada. As pessoas perguntam qual é a escola, porque foge das cores tradicionais. A gente explica a história e elas gostam demais. Não precisa de preparação psicológica para vestir essa fantasia. E hoje ainda é sexta-feira 13, as caveirinhas vêm aí para fazer sucesso na avenida”.

Já Ewerton da Silveira, 50 anos, há 12 anos na escola, chama atenção para o impacto visual e físico da ala. “A coisa mais luxuosa é a reação das pessoas. Ninguém acredita no que está vendo, é a maior alegria. Para alguns exige preparação física para sustentar a fantasia, o estandarte da caveira e atravessar a avenida”.

O contraste que fortalece o enredo, a Ala 19 quebra o vermelho dominante e mergulha o público em uma atmosfera de respeito ao sobrenatural. O preto e branco simboliza o limiar entre vida e morte, presença e ausência, medo e fascínio.
No Carnaval, onde a alegria costuma ser a protagonista, “O Gritador” lembra que a história também é feita de dor, resistência e memória. A guerra, o sangue derramado e as perdas fazem parte da construção do povo que hoje celebra sua identidade.
Ao destoar das cores da escola, a ala não enfraquece a narrativa, e sim aprofunda.
Entre caveiras e gritos simbólicos, a Unidos de Padre Miguel mostra que o Carnaval também pode ser silêncio, sombra e reverência. Porque celebrar a ancestralidade é, acima de tudo, não esquecer. E na Avenida, até o medo pode virar encanto.









