A Unidos de Bangu, quarta escola a desfilar na primeira noite da Série Ouro do carnaval carioca, na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, emocionou o público com o enredo “Coisas que Mamãe me Ensinou”, que celebra a trajetória da cantora e compositora Leci Brandão, de 81 anos, símbolo de resistência e consciência da luta do povo preto.
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Um dos destaques do desfile foi a Ala 18 “A Coragem de Ser Quem Se É”, inspirada no histórico Jornal O Lampião da Esquina, no qual Leci assumiu publicamente sua homossexualidade em 1978, em plena ditadura militar. Com fantasias impactantes, repletas de recortes com manchetes de jornal, a ala transformou a avenida em um grito coletivo de liberdade e orgulho.
Moradora de Bangu, a fisioterapeuta Luíza Fonseca, de 27 anos, desfilou pela primeira vez ao lado do noivo, Igor Barbosa, 28, morador de Olaria, que já desfilou outras vezes na Grande Rio e na Imperatriz. Para eles, vestir a fantasia foi dar continuidade a um grito que atravessa décadas.
“Acho que não tem nada que represente mais essa ala do que a liberdade. Liberdade por estarmos aqui, bem, felizes, fazendo o que a gente ama, afirmou Igor.

“Eu acho que a nossa missão hoje é dar continuidade desse grito que a gente deu lá atrás e que até hoje a gente continua buscando e lutando por esses direitos”, completou Luíza.
Quanto a importância de trazer à maior vitrine do mundo a pauta da homossexualidade, que, nos anos 70, só era trata em um jornal de pequena circulação, ela fez questão de opinar.
“É de total importância, pois muita gente não tem nem conhecimento de que isso já acontecia lá atrás, em uma época tão importante. E continuar dando voz e hoje em dia mais visibilidade para a causa que, mesmo depois de tanto tempo, é tão marginalizada, é necessário”, afirmou.
Igor concordou com a noiva: “Acho que precisamos continuar batendo nessa tecla até a gente conseguir ter total liberdade para ser e fazer tudo o que queremos”.
Também estreante na avenida, Michele Ermenegildo de Oliveira, de 44 anos, moradora de Bangu, escolheu a ala para viver o momento ao lado da namorada, Rosi da Silva, 46, de Santa Cruz, orientadora educacional, que também desfilou pela primeira vez. Michele se identifica com a luta de Leci pela liberdade de ser uma pessoa LGBT.

“Hoje eu me encontro na mesma situação que ela, porque tenho uma companheira que está desfilando junto comigo. Eu estou muito feliz de realizar esse sonho ao lado dela. Esse desfile significa o nosso grito de resistência”, declarou.
Ao imaginar uma manchete sobre o momento, Michele declarou seu amor pela escola.
“Seria a de uma pessoa que nunca entrou em uma avenida e está se sentindo muito realizada, representando a escola do coração, que é a Bangu”.
E, se pudesse gritar algo na Sapucaí, não hesitou em responder: “Respeito! Pediria que houvesse respeito às escolhas de cada um. Seria um mundo muito melhor”.
Diretamente do Texas, onde mora com a família há 27 anos, o executivo Jorge Abreu voltou ao Brasil para desfilar na Bangu ao lado da esposa, Jimena Abreu, 49, e da filha norte-americana Júlia, de 24 anos.
Para Jorge, vestir a fantasia ainda representa um ato político: “É um ato de coragem e também de apoio. Todos os tipos de pessoas têm que ter um lugar nesse planeta. É importante a gente apoiar uns aos outros em todos os âmbitos”.
Sobre o clima do desfile, ele avaliou: “Eu acho que é a combinação de resistência e alegria. O samba é lindo e a fantasia aqui está muito linda, está todo mundo bem animado. Eu acho que desfilar hoje vai ser bem bacana”.
Já quanto a sua manchete, ele brincou: “Jorginho pisa pela primeira vez na Sapucaí”.
Jimena também realizou um sonho antigo, que era o de desfilar na Marquês de Sapucaí. “Um sonho de criancinha, que estou realizando hoje. Estou representando a minha família. Minha mãe nasceu em Bangu. Estou muito feliz de estar aqui por ela”, contou.
Já Júlia destacou a importância histórica da pauta para a causa LGBT.
“É tão importante ainda hoje, mesmo que na época da ditadura fosse ainda mais difícil. Ninguém falava sobre isso. As pessoas existiam, mas era muito tabu. Ninguém falava disso porque era ruim. Mesmo agora, ainda tem um monte de pessoas no mundo que moram em lugares onde não é permitido ser homossexual. Ter muma ala e um desfile de carnaval que está dando visibilidade e importância para isso é muito legal. Eu fiquei muito feliz quando soube que eu seria parte desse desfile A avenida precisa desses gritos de resistência. O mundo não está perfeito ainda. Mas carnaval é sempre alegria e vamos também comemorar tudo o que já foi conquistado pela comunidade LGBT”.
Com recortes de jornal estampados no corpo e coragem estampada na alma, a Ala 18 transformou a Sapucaí em manchete viva: a de que ser quem se é continua sendo, acima de tudo, um ato de resistência e também de celebração.









