Terceira escola da noite da última sexta-feira, a União do Parque Acari abriu o desfile, em homenagem a Brasiliana, com uma ala que representou artistas precursores da brasilidade cênica e da dramaturgia brasileira: o Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado por Abdias do Nascimento em 1944. Fundamental para a presença negra nos palcos, historicamente elitizados, o TEN transformou o teatro em instrumento de denúncia e afirmação racial, exaltando a cultura e a experiência negra e periférica em suas obras.

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Estandarte de Ruth de Souza em ala que homenageia o Teatro Experimental do Negro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A ala, vestida com uma bata estampada e adornada com motivos africanos como buzios e estampas Ankara e Bongolans, carrega também estandartes com imagens de Lea Garcia, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e Rute de Souza. Os componentes da escola ressaltam a alegria de representarem os artistas.

Estandartes Ala 1 Acari
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Silvio Ribeiro conheceu o Teatro Experimental do Negro através do enredo da agremiação e de sua participação na ala.

“Infelizmente não conhecia, apesar da minha idade, mas já tinha ouvido falar por alto sobre o Teatro Experimental do Negro. Agora procuro me aprofundar mais no conhecimento, porque como eu sou amante da história, estou até começando a me virar mais na história do negro. Isso vai ser bastante importante esse desfile também, porque agora está me dando essa consciência. Esses artistas que a escola representa, que eu já conhecia, como que eu estou contente de representar eles dentro desse estandarte”, contou ao CARNAVALESCO.

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Silvio Ribeiro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Por outro lado, conhecendo Abdias do Nascimento, Rute de Souza e tantos outros ícones representados nos estandartes, Silvio se sente interpretando cada um deles.

“Eu sinto como se tivesse “incorporando” cada um desses personagens. Eu vou me sentir na avenida como se fosse um desses”, afirmou.

Já Cristiane de Souza, apaixonada por teatro, tinha conhecimento sobre o TEN antes mesmo do desfile, e reconhece a importância do teatro como instrumento popular de cultura.

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Cristiane de Souza. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Eu sou apaixonada por teatro, independente de que teatro seja, teatro é sempre teatro. E exaltar a cultura nos tempos de hoje que todo mundo só pensa na internet, fica muito na tela, ir ao teatro é uma coisa… é um universo diferente, que não precisa ter muita grana. Tem peças populares, de fácil acesso pra quem tem menos grana, cultura para todo mundo”, disse.

Numa fantasia que representa tanta ancestralidade negra, o jovem Yuri Vinicius, 19 anos, sente o peso e responsabilidade de representar uma ala tão significativa.

“É algo forte. A gente vê tudo que foi construído na nossa parte teatral do nosso país, tudo que foi construído com muito orgulho de ser um povo brasileiro, de mostrar a nossa africanidade aqui no nosso país, que temos heranças. É muito divertido também. A gente está aqui levando essa energia e, claro, a gente também faz parte desse teatro. Também é uma responsabilidade grande, porque eu acho que não é qualquer um que pode colocar fantasia e sair desfilando. A gente tem que saber o que a gente está interpretando”, disse.

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Yuri Vinicius. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Maria Clara Aguiar, de Brasília, veio ao Rio de Janeiro desfilar na Sapucaí pela primeira vez, trazida por uma amiga da agremiação. Emocionada, fala sobre a emoção de carregar um estandarte que representa Léa Garcia, e ressalta que a luta contra o racismo é de todos.

“Para mim representar mulheres fortes é sempre uma honra. O artista negro tem que ocupar os espaços que são dele, que são de direito. Isso é uma festa popular fortíssima, então ter um movimento forte como esse é tudo. É uma resistência gigantesca. Apesar de ser uma mulher branca, eu acho que a gente não pode se isentar. A gente tem que lutar contra, não é ficar ali em cima do muro, não. Tem que sempre ir contra”, afirmou.

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Maria Clara. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Ao exaltar a negritude que ocupou espaços historicamente elitizados, Andrea Araújo, que é médica, compartilha a identificação com sua trajetória ao ver outros ícones negros em lugar de destaque e reconhecimento, apesar do racismo.

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Andrea Araújo. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Eu sou uma negra que lutei muito pra me formar como médica e manter minha cultura. É difícil quando a gente vem de uma outra realidade, ascender socialmente. A gente encara muitos obstáculos, então eu tinha que estar nesse lugar de representatividade”, declarou.