A União do Parque Acari desfilou na noite desta sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, e foi a terceira escola a cruzar a Avenida em busca de uma vaga no Grupo Especial de 2027.
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Com o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, a agremiação levou para a Passarela do Samba uma celebração da arte negra brasileira e de seu legado. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes das primeiras alas falaram sobre emoção, reconhecimento e a força transformadora da cultura, especialmente ao representar o encerramento do desfile com a ala “Legado à Arte Negra Brasileira”.
A proposta da ala parte de um princípio direto: o legado que continua nos palcos e na vida. Inspirada na trajetória da Brasiliana, grupo que por décadas encenou
manifestações culturais afro-brasileiras no Brasil e no mundo, a fantasia simboliza a semente plantada por esse pioneirismo. Dos palcos surgiram novos núcleos artísticos, como o Ballet Folclórico de Mercedes Baptista, o Teatro Popular Brasileiro de Solano Trindade e o Grupo Folclórico Senzala de Domingos Campos. Na Avenida, a narrativa ganhou corpo em cores, brilho e emoção.
Visualmente, a ala apostou nas cores da bandeira do Brasil como base, com predominância do verde, amarelo e azul, em diálogo com o dourado e o preto, que estruturam a estética da fantasia. Adereços na cabeça remetem à cena e à dramaturgia, enquanto bandeiras homenageiam grupos e movimentos artísticos inspirados pela Brasiliana. O conjunto reforça a ideia de que a arte negra conquistou espaço nos grandes teatros e reivindica, na Sapucaí, o reconhecimento desse protagonismo histórico.
A emoção tomou conta dos componentes: “A gente sente uma emoção, a fantasia é linda, uma emoção maravilhosa”, afirmou Dalva, doméstica, de 67 anos. Para ela, falar de legado é também falar de transformação. Ao comentar o avanço do protagonismo negro, destacou mudanças na educação e no tratamento, mas reforçou o desejo de evolução. “Espero que essa juventude de hoje aceite e respeite cada vez mais o nosso espaço”, completou.

Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Alberto Valadares, de 65 anos, autônomo, ressaltou o cuidado com o figurino e a responsabilidade de representar essa história na Avenida. “O ajuste, a dedicação, a perfeição e o cuidado com a fantasia foram perfeitos. Acredito que pode melhorar muito ainda (o progresso negro), colocando mais negros não só dentro do carnaval como na vida em um geral. Queremos ocupar todos os espaços”, declarou.
A arte como instrumento de transformação social também esteve presente nos relatos. Pedro Henrique, 47 anos, técnico de enfermagem, contou que participou de um projeto cultural no Complexo do Alemão em parceria com uma universidade, voltado à ressocialização de pessoas em situação de rua e em uso abusivo de drogas.
“Hoje temos negros dentro da comunidade, que mudaram de vida através do projeto que os inseriu dentro da faculdade”, destacou, conectando a experiência pessoal ao discurso da ala.

Foto; Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Já Maria Clara, de 29 anos, assistente social, afirmou que não conhecia a história da Brasiliana antes do enredo, o que a levou a refletir sobre o papel das escolas de samba na preservação da memória.
“A fantasia tá bem brilhosa, refletindo a cultura do teatro no Brasil. Eu não conhecia a história da Brasiliana antes do enredo, o que é louco, como a gente desconhece a nossa própria cultura, a escola de samba tem esse papel de trazer pra gente a história que ainda está ou ficou escondida”, analisou. Para ela, fechar o desfile com essa mensagem é simbólico. “A arte transformou a minha vida, no sentido da violência mesmo, nos faz ver além e levar a vida com mais leveza. Acho que tem que deixar a gente fazer Carnaval, porque ainda tem muito um lugar de inferiorizar o que a gente produz e reduzir nossos espaços. O carnaval é um lugar onde a gente ainda vê esse espaço e em expansão”, finalizou.










