A temporada 2026 da Unidos do Jacarezinho foi marcada por dois incêndios: um no barracão, em outubro, e outro na quadra da escola, há pouco mais de uma semana, que resultou na destruição de 12 alas a apenas oito dias do desfile oficial.

O impacto material foi imediato. O emocional, mais profundo ainda. Às vésperas do retorno à Marquês de Sapucaí após 12 anos, a escola precisou reconstruir fantasias, reorganizar alas e reafirmar sua própria existência. Na concentração, antes de cruzar a Avenida, o que se via era uma comunidade que transformou o trauma em combustível.

Antes de pisar na avenida, as referências aos incêndios surgiam espontaneamente nas conversas, mas eram acompanhadas por abraços, ajustes coletivos de fantasia e palavras de incentivo. O clima emocional misturava lembrança da perda e orgulho pela reconstrução possível em tão pouco tempo.

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ANGELO CAMPEAO
Ângelo Campeão. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Compositor há duas décadas na agremiação, Ângelo Campeão, 58 anos, relembrou o momento em que soube do incêndio. “Eu senti como se uma parte da nossa história estivesse sendo ameaçada. Quando você está há 20 anos dentro de uma escola, entende que cada fantasia carrega o esforço de muita gente. Não é só material, é memória, é dedicação. Fiquei profundamente entristecido porque a gente vinha construindo um trabalho muito bonito”, afirmou.

Questionado se em algum momento acreditou que o desfile poderia não acontecer, foi direto: “A apreensão existe, claro. Mas eu conheço essa comunidade. A Jacarezinho sempre encontrou força na dificuldade. Eu nunca achei que a escola fosse deixar de desfilar. Pode não ser como foi idealizado, mas acontece com verdade”, declarou.

Sobre o significado pessoal de atravessar a Sapucaí depois dos incêndios, ele completou: “Voltar já seria especial depois de 12 anos. Voltar depois de enfrentar dois incêndios é uma afirmação de permanência. Para mim, que tenho essa trajetória na escola, é um dos momentos mais simbólicos que já vivi aqui”, concluiu.

LEONARDO DUTRA
Leonardo Dutra. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Leonardo Dutra, 39 anos, músico e há cinco desfiles na escola, também descreveu o primeiro impacto.

“Foi uma notícia muito dura. A gente sabe o quanto cada ala representa para quem está ali. Saber que 12 alas foram destruídas a poucos dias do desfile é algo que mexe com qualquer um”, afirmou.

Ele admitiu que a dúvida atravessou os primeiros instantes. “Passa pela cabeça se vai dar tempo, se vai ser possível reorganizar tudo. Mas rapidamente a gente viu a mobilização acontecer. Teve gente que não dormiu, que se ofereceu para costurar, ajustar, resolver o que fosse preciso”, relatou.

Para Leonardo, o momento é histórico. “Estar aqui hoje representa resistência. Não é só cantar um samba. É ocupar novamente um espaço que a escola ficou 12 anos sem pisar. Depois do que aconteceu, o desfile ganha uma dimensão ainda maior”, afirmou.

VERA CICARELLO
Vera Cicarello. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Vera Cicarello, 41 anos, professora e há três anos na escola, contou como recebeu a notícia do incêndio. “Eu fiquei muito chateada porque, particularmente, esse ano achei o samba-enredo maravilhoso, estava muito feliz com a homenagem ao Xande. Saber que as fantasias foram queimadas, foram destruídas, é muito triste porque é o trabalho de um ano inteiro de uma comunidade. É realmente lamentável que isso aconteça ano após ano”, afirmou.

Questionada se temeu que o desfile não ocorresse, Vera explicou: “Não cheguei a achar que não fosse acontecer porque senti que a comunidade se uniu. As informações que a gente tinha eram de que ia se dar um jeito. Claro que dá aquela apreensão, mas eu senti que a gente desfilaria”, declarou.

Para ela, o momento também carrega um significado pessoal. “É a minha primeira vez desfilando na Sapucaí, porque nas outras vezes desfilei na Intendente. Só isso já seria especial. Diante dessa superação toda, fica ainda mais marcante. Acho que vai ser um desfile inesquecível”, concluiu.

ANDERSON DE CARVALHO
Anderson de Carvalho. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Anderson de Carvalho, 44 anos, músico e estreante na escola, viveu tudo com intensidade redobrada. “Eu senti tristeza, claro. Pensar que tantas pessoas perderam suas fantasias tão perto do desfile é muito duro. Mas também senti uma vontade enorme de ajudar”, afirmou.

Ele reconheceu que a dúvida apareceu. “Por um instante a gente pensa se vai ser possível. Mas a reação da comunidade foi imediata. Ninguém falou em desistir”, relatou.

Sobre o que representa estar nesse momento, Anderson destacou o pertencimento. “Estrear na escola já seria especial. Estrear em um contexto de superação faz a gente entender o que é comunidade de verdade. Eu me senti parte de algo maior”, afirmou.

HENRIQUE ARCANJO
Henrique Arcanjo. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Henrique Arcanjo, 37 anos, músico e estreante na Bangu, também descreveu o impacto inicial: “Quando eu soube do incêndio, senti indignação e impotência. É difícil aceitar que tanto esforço seja interrompido dessa forma”.

Perguntado se acreditou que o desfile poderia ser comprometido, respondeu com firmeza. “Em nenhum momento achei que a escola fosse recuar. A mobilização foi imediata. Eu vi gente que tinha perdido praticamente tudo voltando no dia seguinte para reconstruir”, declarou.

Para Henrique, atravessar a Sapucaí nessas circunstâncias é simbólico. “Para mim, que estou chegando agora, representa honra e responsabilidade. A gente não entra só para desfilar. A gente entra representando uma comunidade que decidiu permanecer”, concluiu.