A Unidos do Jacarezinho abriu os desfiles da Série Ouro convertendo o carro abre-alas no principal manifesto do enredo “O ar que se respira agora inspira novos tempos”, homenagem ao cantor Xande de Pilares. Em vez de apenas apresentar o tema, o abre-alas assumiu o papel de síntese de uma temporada marcada por perdas, reconstrução e mobilização comunitária.
Horas antes do desfile, na concentração, o cenário era de tensão e entrega coletiva. Integrantes ainda colavam tecidos sobre a estrutura de madeira da alegoria, numa corrida contra o tempo para finalizar o acabamento da alegoria.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

A proposta visual era retratar uma favela colorida, com pipas no topo, evocando as vielas do Jacarezinho onde as primeiras músicas de Xande ecoaram. O que poderia ser lido como improviso revelou-se, na Avenida, como potência estética e política: a comunidade sustentando, com as próprias mãos, o próprio sonho.
A temporada foi atravessada por perdas severas. Na madrugada de 5 de fevereiro, um incêndio atingiu três salas da quadra da agremiação, no bairro do Jacarezinho, destruindo fantasias de 12 alas e diversos adereços. Meses antes, em outubro, outro incêndio já havia atingido o barracão da escola na zona portuária.
A ausência de fantasias e o impacto material eram visíveis. Mas o clima, como repetiam os componentes, era de resiliência e garra.

Estreando na escola, Ângelo Rios, 24 anos, assistente administrativo, resumiu a apreensão que antecedeu o desfile. “No primeiro momento eu fiquei um pouco apreensivo. Eu achei que ia dar meio ruim, mas agora que está chegando perto da hora da escola desfilar, eu estou achando que pelo menos a gente vai entregar. Alguma coisa vai entregar”, afirmou.
Morador da comunidade, ele se deteve na parte frontal da alegoria. “Eu gostei muito dessa parte aqui da frente, do Jacarezinho, acho que vem trazendo o nome da escola, vem trazendo a comunidade, eu acho que isso é muito importante. E gostei das cabeças lá em cima que remete muito a Xangô, eu acho que isso traz um pouco do Xande também. Estou gostando das cores vívidas, acho que melhorou”, disse.
Ao refletir sobre a representação da própria comunidade, foi sincero: “Eu acho que poderia estar melhor. Eu acho que a comunidade vem muito mais forte do que as alegorias, mas eu acho que a escola de samba também é isso. Alegoria é só uma figuração, eu acho que o que importa é o que a comunidade vem trazendo e eu acho que a gente vai trazer um bom desfile para saudar o Xande, saudar a comunidade, eu acho que é isso que importa no final”, explicou.

Para ele, abrir o desfile falando da própria realidade tem peso simbólico. “Eu acho que é extremamente importante. Eu também tenho uma identificação muito grande com a Caprichosos de Pilares, eu ainda não tive a oportunidade de desfilar por lá e eu acho que trazer o Xande, ainda mais nesse meu primeiro ano na Sapucaí, é uma realização interna minha e eu acho que também para a própria comunidade. O Xande esteve aí em diversos carnavais da Jacarezinho, foi autor de diversos sambas. Eu acho que é muito importante. Eu estou gostando bastante, acho que também trazer um pouco da Jacarezinho que não aparece muito nos noticiários”, afirmou.
Sobre a ligação do artista com a escola, ele revelou descoberta recente. “Na verdade eu conheci a partir do enredo. Boa parte eu já sabia que ele tinha escrito alguns sambas mas não sabia que era tantos, e sambas tão históricos assim para Jacarezinho. Então acho que foi uma escolha perfeita do carnavalesco, uma pena que não está saindo da forma que a gente queria que saísse, mas se depender da comunidade a gente vai estar fazendo o que a gente pode de melhor”, disse.
A frase-tema do carro — “dar nó na tristeza e fazer da vida um carnaval” — ganhou interpretação existencial. “Esses dias eu li, vi um vídeo, que dizia justamente isso: a gente não faz carnaval porque a gente é feliz, eu acho que a gente faz carnaval porque na maioria das vezes a gente está triste e a gente precisa desse momento para dar um restart na vida, para que a gente possa reviver. Isso aqui é vida. Não só o carnaval como um todo, mas uma comunidade, a gente estar em prol de um objetivo. Quando passar daquela Sapucaí, a sirene tocar, a vida vai tocar na gente. Eu acho que é isso que importa”, concluiu.

Também estreante, o biomédico Egleberto Lima avaliou o abre-alas à luz das tragédias recentes. “Eu já esperava porque depois de tudo que aconteceu com a escola, de ter pegado fogo duas vezes, então esperava que não estivesse tão grandioso, mas eu achei que está muito bonito sim”, afirmou.
O que mais lhe chamou atenção foi a identidade visual. “O brilho está bem chamativo e está com as cores da escola. Está trazendo um pouco da nossa força, da nossa energia e a nossa identidade visual como verde e rosa”, disse.
Como morador, reconheceu que a expectativa inicial era maior. “Esperava que a comunidade trouxesse algo muito grandioso porque era isso que a gente estava fomentando o ano inteiro, mas devido aos acontecimentos eu acho que está muito bonito sim, devido tudo que aconteceu”, declarou.
Sobre abrir o carnaval na Sapucaí, foi enfático. “Eu acho muito grandioso porque como todo mundo fala, é o cartão postal do Rio de Janeiro e do Brasil. Então a gente é a primeira escola a desfilar na Sapucaí, abrindo o carnaval, então é algo muito importante porque é uma comunidade, é a favela. Então a gente realmente vestiu a camisa e vai entregar tudo, então é muito importante para a gente”, afirmou.
Ele também descobriu detalhes da trajetória de Xande ao longo dos ensaios. “Eu descobri ao decorrer dos ensaios. Realmente a gente foi entendendo um pouco mais da vivência do Xande. Então ele até falou um pouco da entrevista dele que ele fez para o RJ1. Então a gente entendeu muito sobre a vivência dele e a gente meio que se integrou como comunidade, como uma pessoa que veio da comunidade, que escreveu um pouco da história do Jacarezinho”, explicou.
Para Egleberto, o conceito do carro dialoga com a estética apresentada. “Com certeza, porque o carnaval é isso, é se divertir, é mostrar que a gente veio para isso, é se entregar. Então eu acho que o carro reflete um pouco porque tem cores vibrantes, tem muito brilho, então traz um pouco também da vivência do Xande”, disse.
E completou sobre o impacto pessoal: “Sim, muito, porque eu sou carnaval desde criança. Então eu vivo isso, eu respiro isso. Então estar hoje também aqui desfilando é uma virada de chave porque eu sou uma pessoa que eu venho sempre para o carnaval, sempre para a Sapucaí, então viver isso é a minha identidade como pessoa. É o que eu vivo, é o que eu respiro, então é um momento de felicidade imensa”, concluiu.

No quinto desfile pela escola, a jornalista Luan Monteiro contextualizou as dificuldades. “A gente sempre tem a expectativa de fazer bonito. A gente teve um ano complicado por conta do incêndio e tudo mais. Mas a gente tem um espírito muito grande nessa escola. Desde que eu estou na escola, a gente sempre teve a diversidade. Então, para a gente aqui, não é uma novidade desfilar com essas condições. Então, a gente vai lá e faz assim mesmo e a gente sempre bota expectativa”, afirmou.
Sobre o carro, exaltou a identidade cromática. “Eu acho que as cores da escola são espetaculares. É a única rosa e branca. Ela é única. Então, quando a gente faz esse capricho com um esquema com dourado, eu acho que sempre é uma coisa que encaixa bem. E a gente espera entregar bonito”, disse.
Para ele, a grandeza está na base comunitária. “Eu acho que pelo fato de ser uma escola muito do povo mesmo, da favela de verdade, você vê que ela tem todas as dificuldades que as pessoas em geral têm, que a população pobre tem. E eu acho que essa que é a parte mais interessante. Você vê que é uma coisa do povo para o povo. Mesmo a verba que tem, ela não é o suficiente para poder fazer tudo. O que faz a escola ser grandiosa é uma tradição muito grande que a escola tem, que a comunidade tem”, afirmou.
Sobre Xande, reconheceu que conheceu essa parte da história por meio do enredo. “Conheci por causa da escola. Até então, não conhecia. Fiquei feliz de saber que ele morou no Jacarezinho, que parte importante da formação do samba dele foi de lá também. O Jacarezinho tem um histórico muito grande no samba. Tem várias figuras ilustres de lá também. Pelo que eu conheço, do pouco que eu estudei aqui, conversando com gente mais velha, você vê que é um pessoal que sabe muito do samba. Nada mais justo do que ter o Xande aqui sendo homenageado. Acho maravilhoso, acho ótimo”, declarou.
Ele também associou o carnaval à resistência. “Acho que faz, porque o povo sofre muito. A vida do povo é sofrida. O carnaval é uma expressão do povo brasileiro, de muitos anos, e é uma expressão que a burguesia procura reprimir de várias maneiras. Os governos, no geral, à direita, fazem um esforço muito grande para poder acabar com a festa de rua. Então a gente acaba sendo um episódio de resistência aqui”, afirmou.
E concluiu sobre o impacto pessoal: “Com certeza. Estar aqui no meio de todo mundo é uma coisa que não tem como descrever em muitas palavras. É só indo para você ver como é”, disse.

A psicóloga Carolina Carrijo, de 58 anos, estreou na escola justamente nesse retorno à Sapucaí. “Eu fiquei feliz de eles estarem forrando agora, também concluindo, porque foi triste o que aconteceu. E aí fiquei num ímpeto de querer ajudar”, relatou.
O que mais a marcou foi o esforço coletivo. “Eu confesso que foi esse trabalho da comunidade ali em cima, grampeando, fazendo as coisas. Foi isso”, afirmou.
Sobre participar desse momento histórico, declarou: “Eu acho que é um momento muito importante e me deu mais vontade ainda de estar aqui. Eu já queria e eu falei: conta com a gente, o que a gente puder fazer da nossa parte, a gente vai fazer”, disse.
Fã declarada de Xande, completou: “Sabia de muita coisa dele. Eu sou fã, eu admiro demais o Xande de Pilares, acompanho no que eu puder, vou a shows dele sempre que eu posso e acho a história dele muito bacana. Muito bacana. As épocas mais difíceis e tudo”, afirmou.
Para ela, a frase do carro dialoga com a realidade. “Faz muito, faz muito. Todos nós, e o brasileiro, e a comunidade mais ainda, sempre tem que dar nó, tem que se virar, é desatar nós também. Eu acho que faz muito sentido”, disse.
E finalizou com emoção: “Eu acho que esse hoje está sendo. Eu já desfilei muitas vezes em escolas grandes e desfilei na Mangueira alguns anos. O que eu acho que este está significando mais é por estar podendo participar de uma volta por cima. Para mim significa muito, então talvez seja uma virada de chave agora”, concluiu.
Para Victoria Thiers, gerente de loja, de 30 anos, também estreante, sintetizou o sentimento coletivo. “Eu senti que, por mais que as adversidades tivessem pego a gente, a gente vai entrar na Sapucaí com a garra que a escola tem, com a força que a comunidade tem”, afirmou.
O rosa, sua cor preferida. foi o detalhe que mais a tocou. “Ver que mesmo com tudo que a gente passou, com os incêndios que a escola enfrentou, a gente conseguiu colocar um carro na rua com as cores da escola, representando a escola, representando a força que a gente tem e a não desistência de passar pela Sapucaí após mais de 10 anos, eu estou muito emocionada de estar aqui hoje”, disse.
Moradora próxima à comunidade, emocionou-se ao falar da participação. “Eu frequento a comunidade há muito tempo, eu moro muito perto dali, eu consigo ir a pé da minha casa. Está sendo incrível. Eu estou extremamente emocionada de estar aqui hoje”, afirmou.
Sobre a escolha do homenageado, destacou: “Eu sou do samba há muitos anos, eu cresci no samba. E quando eu descobri que seria ele, eu fiquei muito feliz, porque ele é um cara que merece muito ser homenageado. Eu amo essas homenagens quando a pessoa está viva ainda, que pode estar aqui. Ele acabou de passar, então deu mais um gás para a escola. Isso é incrível”, disse.
E resumiu o espírito do momento: “Faz total sentido. Principalmente depois da semana passada, que a gente teve o último incêndio depois de já ter tido um. É isso: dar nó na tristeza e entrar com toda a emoção e a garra para o Carnaval”, afirmou.
Ao falar de virada de chave, trouxe memória afetiva. “Já foi uma virada de chave na minha vida. Meu avô foi presidente do conselho da São Clemente por muitos anos. Eu aprendi a gostar de Carnaval com o meu avô. É incrível. É tudo”, concluiu.










