A Inocentes de Belford Roxo levou para a Marquês de Sapucaí um dos enredos mais inusitados da temporada. Segunda escola da noite, a agremiação da Baixada Fluminense apostou no improvável sob o título “O Sonho de Um Pagode Russo Nos Frevos do Meu Pernambuco”, criação do carnavalesco Edson Pereira. O resultado foi um desfile criativo, tecnicamente equilibrado e com bons momentos plásticos, especialmente na comissão de frente e na harmonia. Entre os pontos de atenção estiveram um espaço aberto pela ala de passistas antes do módulo 3 e falhas de acabamento em parte das fantasias.

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A proposta partiu da obra de Luiz Gonzaga para costurar as estepes russas no chão nordestino. A narrativa não se limitou ao exotismo visual e construiu um fio condutor claro, defendendo que, no território do samba, distâncias geográficas se dissolvem ao som da sanfona.

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Fotos: Alllan Duffes/CARNAVALESCO

A escola apresentou três alegorias bem preenchidas, com iluminação funcional e ocupação cênica coerente. O abre-alas, “O Sonho de Pedro, o Grande, no Paço do Frevo”, sintetizou o conceito ao fundir referências da arquitetura de São Petersburgo com elementos clássicos do carnaval recifense. A leitura era imediata e dialogava com o enredo sem ruídos.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Patrícia Salgado e Sérgio Lobato, a comissão de frente cumpriu seu papel de cartão de visitas com clareza dramatúrgica e impacto visual. Eram 15 bailarinos: sete representando a estética russa, sete a pernambucana e um sanfoneiro no alto de um tripé cenográfico que remetia ao coreto de uma praça.

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A coreografia começou no chão, com passos marcados, saltos e interações entre os dois grupos, enquanto o sanfoneiro dominava o plano superior. Em seguida, o grupo russo subiu para a parte mais alta do tripé, e o pernambucano ocupou as laterais. O elemento girava em sentido anti-horário enquanto os bailarinos retiravam sobreposições em tons terrosos, revelando figurinos coloridos típicos do frevo.

No clímax, dançaram com o gesto clássico do frevo, com braço erguido e sombrinha em punho, fazendo com que faíscas brilhantes surgissem das pontas dos guarda-chuvas e do topo do tripé. A apresentação, com duração de uma passada do samba, foi coesa, dialogou diretamente com o enredo e sintetizou o “casamento matuto na neve” proposto pela escola.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Vinicius Jesus e Thainá Teixeira, realizou uma apresentação de uma passada do samba, marcada por bailado tradicional, rodopios sem excesso de intensidade e boa sincronia. Houve conexão entre os dois e leitura clara da coreografia.

O mestre-sala conduziu cortejo clássico, protegendo o pavilhão com veemência, mas incorporou passos de frevo em trechos estratégicos do samba, especialmente no verso “no fervo do frevo, o destino sorri pra mim”. O mestre-sala deslizou com segurança pela Avenida.

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A porta-bandeira apresentou dança tradicional com carisma e interação constante com o parceiro. Em dois momentos, nos módulos 1 e 3, a bandeira apresentou leve dobra, sem chegar a enrolar, situação que pode ser observada pelo júri, mas sem caráter de falha grave.

Com figurinos em cores quentes como o vermelho, amarelo e laranja, foi uma apresentação aplaudida pelo público presente.

SAMBA E HARMONIA

O samba, defendido por Ito Melodia e pela ala musical, passou bem e encontrou resposta da comunidade. O intérprete conduziu a escola chamando o canto, o que fortaleceu a participação das alas.

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A harmonia foi positiva, com destaque para a elevação do canto a partir do segundo setor, quando a escola ganhou ainda mais volume e consistência.

EVOLUÇÃO

A Inocentes de Belford Roxo apresentou um desfile de desenho organizacional bem estruturado, especialmente nos dois primeiros setores. A escola iniciou compacta, com alas preenchendo corretamente os claros da pista e mantendo alinhamento lateral consistente entre as fileiras. A cadência esteve ajustada ao andamento do samba, sem aceleração excessiva nem arrasto visível nos primeiros módulos.

A transição do abre-alas para as alas subsequentes foi fluida, sem engarrafamentos na saída dos carros. Houve boa leitura espacial entre alas, fator importante para a percepção de continuidade do desfile.

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O ponto de atenção surgiu pouco antes do módulo 3, quando a ala de passistas abriu um espaço significativo na parte central da pista, que rompeu momentaneamente a forma linear do conjunto e criou um vazio perceptível na diagonal de visão dos jurados. A recomposição aconteceu, mas o intervalo foi suficiente para chamar atenção técnica.

Após esse episódio, a escola retomou o controle da progressão. As alas seguintes mantiveram regularidade no deslocamento, com destaque para a boa ocupação lateral próxima às grades, evitando buracos nas extremidades. Não houve registros de componentes correndo para recompor posição, o que indica que o controle de tempo estava sob gestão adequada da direção de harmonia e evolução.

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Nos setores finais, a Inocentes manteve constância no andamento e conseguiu preservar a unidade visual até a dispersão, sem desmembramento precoce de alas. A leitura geral foi de um desfile que, apesar do episódio pontual no terceiro módulo, apresentou organização, controle rítmico e consciência espacial, aspectos que sustentam uma avaliação positiva no conjunto do quesito.

ALEGORIAS E FANTASIAS

No conjunto plástico, a Inocentes de Belford Roxo apresentou três alegorias que cumpriram bem a função de sustentar a narrativa proposta por Edson Pereira. Os carros estavam completos, com todos os espaços de composição ocupados, iluminação operante e leitura temática objetiva, fator essencial para o julgamento à distância.

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O abre-alas se destacou pelo impacto cenográfico. A fusão entre referências da arquitetura russa e elementos do carnaval recifense foi vista já na primeira leitura. Volumetria equilibrada, planos bem distribuídos e bom uso de altura garantiram imponência sem comprometer a estabilidade visual. A paleta transitou entre azuis frios e dourados imperiais, dialogando com o imaginário czarista, enquanto elementos cromáticos mais quentes inseriram Pernambuco na cena sem conflito estético.

A segunda alegoria, com estética de festa junina sob lente imperial, apostou no lúdico. Havia bom preenchimento e coerência entre figurinos de composição e escultura cenográfica. O cuidado com a ocupação evitou vazios estruturais, embora o acabamento de algumas aplicações, principalmente em detalhes ornamentais mais delicados, pudesse apresentar maior refinamento, sobretudo nas junções visíveis de materiais.

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O terceiro carro foi o mais sóbrio do conjunto. Cores como preto e dourado, forte presença de elementos do frevo e maior dinamismo visual criaram sensação de apoteose intermediária antes do setor final. A iluminação funcionou como recurso de valorização volumétrica, sem ofuscar as fantasias dos componentes.

Nas fantasias, a escola apresentou coerência narrativa entre alas e setores. A transição cromática acompanhou a dramaturgia do enredo, com tons mais sóbrios e frios nos primeiros momentos, evoluindo para explosões de cor associadas ao frevo e ao São João.

As alas representando a estética russa apostaram em casacas, golas altas e tecidos com aparência mais estruturada. Já as alas pernambucanas trouxeram leveza, movimento e cores saturadas, favorecendo a leitura coreográfica.

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O ponto sensível esteve no acabamento. Em algumas alas, especialmente na dos bonecos de Olinda, foram perceptíveis falhas de finalização, como aplicações desalinhadas e diferenças de padronização entre peças de um mesmo conjunto. Em julgamento técnico, esse tipo de inconsistência pode pesar, já que o quesito avalia uniformidade, capricho e qualidade de execução.

No geral, o projeto plástico da Inocentes foi coerente, compreensível e visualmente competitivo. A escola sustentou sua proposta estética do início ao fim, mas pequenos ajustes de acabamento poderiam elevar o conjunto a um patamar ainda mais sólido no julgamento técnico.

OUTROS DESTAQUES

A bateria pontuou a narrativa com bossas em alusão ao frevo e ao São João, criando identidade sonora para o enredo. A rainha Carolane Silva apresentou samba no pé e uma linda fantasia.

Um destaque do desfile aconteceu na segunda alegoria, com a presença da Velha Guarda em posição de destaque no carro. Em meio à mistura criativa entre Rússia e Pernambuco, a escola trouxe os baluartes ali, ocupando lugar de honra, com emoção e equilíbrio ao setor.

Outro destaque também foi a ala de passistas que levou para a Avenida a vibração que o enredo pedia. Com fantasias leves, que favoreciam o movimento, o grupo entregou gingado, presença cênica e conexão direta com a bateria. Coreograficamente, os passistas apostaram em deslocamentos dinâmicos e ocupação central da pista, garantindo destaque visual. Houve boa interação entre eles e resposta ao ritmo da bateria, especialmente nas bossas que dialogavam com o frevo.

O ponto de atenção aconteceu pouco antes do módulo 3, quando a ala abriu um espaço significativo no meio da formação. O claro ficou perceptível e quebrou momentaneamente a unidade visual do setor. A recomposição veio na sequência, mas o intervalo pode ser observado tecnicamente. Ainda assim, no conjunto, a ala entregou energia, sorriso no rosto e domínio de pista.