No Carnaval, não há protocolo que resista à força do povo. Em 2026, a Inocentes de Belford Roxo leva para a Avenida a Ala 09: “Os foliões populares invadem a festa”. Ela representa o momento simbólico em que o povo negro, excluído das recepções oficiais, rompe o cerimonial com dança, algazarra e criatividade improvisada.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

IMG 4186
Detalhes da Ala 09, da Inocentes
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Segundo a narrativa do enredo, diante da exclusão, esses grupos criaram suas próprias manifestações: figurinos feitos com sobras de tecido, fitas coloridas, sombrinhas recortadas e a ocupação da praça com energia explosiva. Mais do que desordem, essa invasão marca o nascimento de uma força cultural que ajudaria a consolidar o frevo como expressão urbana e coletiva.

A ala encena a ocupação simbólica do espaço elitizado, a criatividade que nasce da precariedade, a explosão popular que rompe o protocolo e a transformação da exclusão em potência cultural.

No enredo, a Ala chega para quebrar o clima cerimonial e colocar a alma do povo na jogada, com a dança explosiva a força que emerge dos guetos pernambucanos desde o tempo de 1800.

Werino Gierinazani, fisioterapeuta, de 56 anos, estreia na Inocentes trazendo memórias afetivas de Pernambuco e reflexões sobre o Carnaval contemporâneo. Para ele, representar essa narrativa é celebrar a diversidade cultural brasileira.

“Muita coisa, porque na diversidade cultural do país, Pernambuco é muito importante no Carnaval brasileiro. Estar aqui representando, ainda mais isso que é o pagode russo, que eu cresci cantando, é maravilhoso. Representar Pernambuco dessa forma no Carnaval do Rio de Janeiro, que para mim é o único do mundo, é incrível. Certamente a falta de recurso amplia a criatividade. O que mais sinto quando vira o cotovelo na Avenida e a bateria começa, é a produção de um monte de substância no meu corpo e eu viro outra criatura. A festa é maravilhosa e a gente tem que viver o momento”, conta o fisioterapeuta.

IMG 4182
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Daniele de Sales, de 44 anos, cuidadora, desfila há cinco anos e carrega no discurso a vivência de mulher negra dentro e fora da festa.

“Eu vejo muito presente no Carnaval a falta de recurso virando criatividade. Desfilo desde os 12 anos. Eu sou uma mulher negra, então a gente acaba sendo excluída em muitas coisas, tem preconceitos. O Carnaval é onde a gente pode se divertir e ser igual a todo mundo. Quando o frevo começa, tudo arrepia, é um fogo, parece que eu tenho 15 anos de novo. É emoção, é felicidade. O povo de Belford Roxo tem garra e a gente veio brigar para ganhar”, comenta.

IMG 4183
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Arthur Sampaio Marinho, 23 anos, técnico em química, também vive seu primeiro ano na escola e enxerga na ala um reflexo da própria trajetória.

“Eu estou muito feliz por estar aqui pela primeira vez e representar uma história que representa a cultura da minha família, que é toda nordestina de Pernambuco, do Recife. Tem um significado muito grande. Às vezes, a criatividade existe, mas pela falta de recurso a pessoa não consegue mostrar o talento. Aqui na Baixada a gente é muito excluído de oportunidades, então estar numa ala que representa transformar exclusão em inclusão significa muito. Eu estudo em universidade federal, minha mãe é empregada doméstica, meu pai é motorista, e a gente vai quebrando barreiras. Quando o frevo começa, o coração transborda e você só se solta. Eu espero que a Inocentes arrase e que todo mundo curta”.

IMG 4184
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Ana Paula Aragão, de 58 anos, bióloga, desfila há três anos e resume o sentimento coletivo da ala.

“É muita emoção participar da escola. É um movimento cultural com tanta história que eu me sinto emocionada de fazer parte. A criatividade e a falta de recursos caminham juntas, a gente faz malabarismo na vida o tempo todo. Por que não transformar exclusão em manifestação? A voz do povo é a voz do conjunto. Quando o frevo começa é emoção. E quando a ala entrar na Avenida, eu espero sentir muita alegria, muita emoção e torcer muito pela escola”, diz Ana Paula.

IMG 4185
A bióloga Ana Paula Aragão, de 58 anos
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Na Ala 09, a exclusão não é silêncio, é batida forte. Não é ausência, é ocupação. Não é limite, é reinvenção.

Quando os foliões populares invadirem simbolicamente a festa na Avenida, será a prova de que o Carnaval continua sendo o maior palco da resistência brasileira: onde o povo transforma o que lhe negaram em espetáculo, tradição e potência cultural.