Ao escutar as palavras de Heitor dos Prazeres, homenageado da Vila Isabel no Carnaval 2026, os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad reconheceram, na obra do multiartista, um princípio estético: o sonho. Esse princípio ganha forma nas técnicas que atravessaram a vida e a arte de Heitor e se traduz no projeto visual que a azul e branco levará à Sapucaí.

Para Bora e Haddad, o sonho não se refere a uma experiência do dormir, mas a um modo de fabular o mundo a partir da vida cotidiana, da festa, da fé e das experiências coletivas. Essa compreensão aproxima a obra de Heitor dos Prazeres da própria lógica das escolas de samba, entendidas como espaço de imaginação compartilhada, celebração da ancestralidade e afirmação da identidade negra.
“Esse sonho que o Heitor pintou e cantou a vida inteira é uma espécie de ‘Kizomba’, o próprio sonho de uma escola de samba: essa união comunitária, esse desejo de celebrar a vida, a alegria e a própria ancestralidade, com suas visões feéricas e invenções tecnológicas”, declarou Bora.
Dessa compreensão do sonho surgem as primeiras imagens do desfile. Nas alegorias, técnicas como a carpintaria, a escultura, a alfaiataria e, sobretudo, a pintura transformam em forma, cor e matéria o universo de Heitor dos Prazeres, anunciando uma Vila Isabel que se quer salpicada de tinta do início ao fim e inaugurando o percurso visual que a escola levará à avenida em 2026.
Abre-alas: Onde o sonho de Heitor começa a tomar forma na Vila Isabel
A primeira imagem do desfile da Vila Isabel em 2026 já tem forma: um abre-alas inspirado nos ranchos carnavalescos que marcaram a infância de Heitor dos Prazeres. Divulgado nas redes sociais nas últimas semanas, o carro apresentou ao público os primeiros sinais do universo visual concebido por Leonardo Bora e Gabriel Haddad e antecipou o caminho plástico que a escola pretende levar à Sapucaí.
Mais do que uma referência histórica, o rancho aparece como porta de entrada simbólica do enredo. Ao retomar a tradição dos cortejos festivos que ocuparam as ruas do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, a alegoria projeta um cenário de celebração coletiva em que festa, memória e presença negra se afirmam como fundamento da narrativa visual.
“A abertura é um rancho, essa tradição carnavalesca das mais feéricas e iluminadas que temos. Era esse o cenário que o Heitor via quando criança, desfilando nos ranchos, e foi a partir dessa imagem que a gente pensou o abre-alas como um rancho dedicado a Heitor dos Prazeres”, explicou Gabriel Haddad.
No barracão, a alegoria ganha densidade por meio de um trabalho artesanal que envolve diferentes frentes de criação. Escultura, carpintaria, pintura, acabamento e a produção de joias cenográficas constroem uma imagem marcada pela exuberância visual e pelo cuidado com os detalhes, reafirmando a artesania como linguagem fundamental do desfile.
A apresentação do carro ao público também evidenciou a natureza processual do carnaval. “É um trabalho que está sempre sendo avaliado. A alegoria no papel é uma coisa, no barracão é outra, e na avenida é completamente diferente. Mesmo ainda sem os destaques, os efeitos finais, o chassi acoplado, a recepção foi muito generosa e reconheceu o cuidado do trabalho”, afirmou Leonardo Bora.
O carnavalesco destacou ainda a atuação da equipe responsável pela execução da peça, com menção à diretora-chefe Daiane Almeida, ao escultor Max Miller e aos profissionais de ferragem, pintura, carpintaria, vidraçaria e alfaiataria.
As roupas das composições teatralizadas foram desenvolvidas por Rogério Pacheco, em um processo que exigiu modelagem e acabamento rigorosos. “Quando as pessoas percebem esse cuidado, a gente fica muito feliz, porque ele foi pensado com carinho em busca de muito axé para a comunidade da Vila”, completou.
Um desfile salpicado de tinta
A pintura assume protagonismo no projeto visual da Vila Isabel para 2026. Fantasias nascem do gesto manual do pincel, enquanto tripés e partes das alegorias recebem tinta diretamente na madeira, materializando, em cor, superfície e textura, o universo de Heitor dos Prazeres.
A aposta coloca a pintura no centro do projeto visual. Para Leonardo Bora, ela não entra apenas como referência ao artista homenageado, mas como linguagem do próprio desfile: “Ela não é só um tema, ela é forma”, resumiu o carnavalesco.
A partir dessa premissa, Leonardo Bora e Gabriel Haddad trabalham para manter visível o gesto artesanal. Pinceladas aparentes, fantasias pintadas à mão, tripés pintados e superfícies que preservam textura e camadas criam a sensação de um cortejo “salpicado de tinta” do início ao fim.
O azul aparece como fio condutor dessa atmosfera. Recorrente na obra de Heitor e identidade cromática da escola, a cor ajuda a costurar variações de grafismos como listras, xadrez, losangos e bolinhas. “A ideia é construir quase um fundo, como um céu azulado, para que as pessoas possam flutuar na avenida, cantar o samba, brincar”, explicou Bora.
A artesania se estende também à alfaiataria. As fantasias foram desenhadas com redução de volume e maior liberdade de movimento, buscando deixar o componente mais solto para evoluir na pista — uma escolha que dialoga diretamente com as diretrizes mais recentes do regulamento e com a expectativa de uma evolução mais leve.
“A gente reduziu um pouco o tamanho das fantasias para deixar o componente mais solto, mais livre na avenida. Isso já era um desejo nosso e agora também dialoga com o novo regulamento, que passa a observar mais diretamente a leveza e a espontaneidade do desfile”, explicou Haddad.
Na Sapucaí, a promessa é que o público reconheça não apenas a imagem final, mas o próprio modo de fazer: um desfile atravessado pela pintura e salpicado de tinta do primeiro ao último setor, em que forma, cor e gesto manual prolongam, na avenida, o sonho artesanal que estrutura o enredo da Vila Isabel em 2026.
O contágio do samba-enredo
Se a pintura estrutura o campo visual do desfile, é o samba-enredo que vem fazendo a Vila Isabel vibrar coletivamente. Desde as primeiras apresentações na disputa, a obra escolhida pela azul e branco ultrapassou o percurso competitivo tradicional e passou a ser tratada como aclamação da comunidade, instaurando um clima de contágio que atravessou a temporada de ensaios de rua.
Para a dupla, essa resposta imediata revelou a força comunicativa da parceria de André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho. “Foi um samba que explodiu já como concorrente. Desde as primeiras apresentações, a gente sentiu um envolvimento muito forte das pessoas, um samba que mexeu com o emocional, que contagiou a comunidade”, afirmou Haddad.
A repercussão transformou a escolha em experiência coletiva antes mesmo de o desfile ganhar forma plena na avenida.
Parceria, amizade e pesquisa
A parceria entre Leonardo Bora, Gabriel Haddad e o pesquisador Vinícius Natal antecede a própria formação da dupla como assinante de desfiles e se confunde com uma trajetória de amizade construída dentro do carnaval.
“É incrível, porque a nossa amizade com o Vinícius vem antes de a gente começar a trabalhar juntos, antes de a gente começar a assinar desfiles”, lembrou Haddad.
O primeiro encontro aconteceu em 2012, na arquibancada do Desfile das Campeãs, e, já no ano seguinte, o grupo dividia a criação de um carnaval coletivo na Mocidade Unida de Santa Marta, onde conquistou o título.
A convivência seguiu por diferentes experiências, da Sossego à Cubango, onde, em 2019, o enredo “Igbá Cubango, a Alma das Coisas e a Arte dos Milagres” surgiu atravessado pelo sonho.
Para Bora, a presença de Vinícius é estruturante não apenas pela proximidade afetiva, mas pela densidade de sua pesquisa.
“É uma figura fundamental para a compreensão da nossa própria relação. É um amigo com quem a gente troca vivências carnavalescas desde sempre e um pesquisador muito cuidadoso”, afirmou.
No encontro em torno de Heitor dos Prazeres, as investigações seguiram caminhos complementares: enquanto a dupla aprofundava a visualidade e o universo plástico do artista, Vinícius desenvolvia estudos sobre o Heitor sambista, o cidadão do pós-abolição e a expressão da modernidade negra no Rio de Janeiro.
Dessa confluência orgânica de olhares nasceu o enredo da Vila Isabel. Mais do que colaboração pontual, trata-se de uma continuidade construída no tempo, capaz de ampliar a pesquisa e enriquecer a criação.
“Se torna mais rico você desenvolver um enredo a partir de outros olhares”, resumiu Bora.
O processo ainda mobilizou arquivos de familiares de Heitor, instituições de memória e novas parcerias de investigação, em uma pesquisa que a equipe espera ver seguir em desdobramento mesmo depois do carnaval.
Dakar: o sonho encontra a África no último quadro da Vila Isabel
O desfecho do desfile da Vila Isabel se ancora em um encontro que aproxima definitivamente a trajetória da escola da de Heitor dos Prazeres fora do Brasil. Em 1966, ambos participaram do Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar. A agremiação apresentou o documentário Nossa Escola de Samba, enquanto Heitor integrou a programação com o filme Heitor dos Prazeres, registro dedicado à sua vida e obra.
Mais do que um episódio biográfico, a passagem pelo Senegal sintetiza o sentido do enredo. Depois de imaginar a África durante décadas em suas obras, Heitor a encontra no mesmo movimento em que a própria Vila Isabel atravessa o Atlântico para exibir sua memória negra.
Ao escolher esse encontro como último quadro, a escola inverte o percurso tradicional dos enredos afro, que costumam partir da África para chegar ao Brasil. Aqui, o caminho nasce no corpo coletivo do samba, na matéria artesanal do desfile e na alegria como gesto de existência, para então alcançar o continente africano não como origem distante, mas como continuidade viva.
É nesse ponto que o sonho retorna — não mais apenas como princípio estético identificado pelos carnavalescos na obra de Heitor dos Prazeres, mas como experiência coletiva que reinventa passado e presente, pintura e avenida, memória e celebração.
Na Sapucaí, a África deixa de ser imagem sonhada para se tornar encontro partilhado — e o sonho, longe de se encerrar, segue desfilando como promessa de comunidade, altivez e alegria negra que a escola insiste em imaginar, ano após ano, em seus carnavais.
Conheça o desfile
5 alegorias
3 tripés
5 setores
27 alas
3.200 componentes
1º Setor — Príncipe Lino
O desfile se abre com a infância de Heitor dos Prazeres entre os ranchos carnavalescos ligados às casas de Tia Ciata e Tio Hilário. O brilho desses cortejos, observado ainda menino, antecipa o artista, o brincante e o sujeito do samba que ele se tornaria.
A alegoria traz balangandãs ampliados e joias de axé como metáfora desse olhar infantil sobre a festa e, ao mesmo tempo, sobre o nascimento do samba na região da Praça XI e da Pedra do Sal.
2º Setor — Ogã-Alagbê Nilu
Ainda jovem, Heitor é iniciado nos terreiros e passa a frequentar especialmente a casa de Tia Ciata, onde se torna ogã, responsável pelos tambores e pelo canto. Nesse espaço, diferentes manifestações culturais — cirandas, jongos, maracatus, cateretês — se encontram, formando o caldo que daria origem ao samba.
Na leitura do enredo, o terreiro se expande como metáfora da própria cidade: a cidade como grande terreiro, onde música, religiosidade e convivência se misturam.
3º Setor — Mano Heitor dos Cavacos
A troca do piano pelo cavaquinho marca a afirmação de Heitor como sambista nos anos 1920. Entre a Festa da Penha, disputas de autoria e circulação pela cidade, ele se consolida como compositor, músico e personagem central do universo do samba.
O setor apresenta também o modo de vida boêmio, a confecção e pintura dos próprios instrumentos, a noite carioca, os cabarés e as paixões que atravessam sua trajetória artística.
Gabriel Haddad relaciona esse percurso ao próprio desenvolvimento do samba:
“Ele cresce vendo os ranchos desfilarem, passa a frequentar os terreiros e entende sua relação com os instrumentos como Ogã-Alagbê Nilu, organizando a música do terreiro de Tia Ciata. Tudo isso vai se misturando até culminar no momento em que ele se torna um grande sambista, conhecido como Mano Heitor.”
4º Setor — Afro-Rei Pierrot
Heitor se afirma como compositor de carnaval, vence o concurso de Zé Espinguela em 1928 e convive com figuras como Paulo da Portela, Cartola e outros fundadores das primeiras escolas de samba.
O setor destaca sua atuação como brincante dos blocos de rua, compositor de marchinhas — entre elas Pierrot Apaixonado, em parceria com Noel Rosa — e personagem influente na formação do carnaval carioca.
5º Setor — Embaixador
O último quadro apresenta Heitor como artista reconhecido além do samba: cenógrafo, figurinista, radialista, compositor de trilhas, participante da primeira Bienal de São Paulo e representante brasileiro no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar.
É nesse ponto que sua trajetória se cruza com a da própria Vila Isabel. Em 1966, ambos chegaram ao Senegal levando seus filmes — Heitor dos Prazeres e Nossa Escola de Samba, registro do carnaval que levou a escola ao Grupo Especial — selando o encontro que encerra o desfile.










