Após um 2025 com uma decepcionante décima primeira colocação, o Império de Casa Verde chega para 2026 com a autoestima renovada por conta do enredo “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, assinado pelo carnavalesco Leandro Barboza. Abrindo o sábado do Grupo Especial, a agremiação resgata uma tradição recente de desfiles que abordam grupos minoritários na sociedade brasileira.

Para saber mais sobre o que virá no desfile do Tigre, o CARNAVALESCO entrevistou o carnavalesco Leandro Barboza e o enredista Tiago Freitas para a Série Barracões SP. É importante relembrar que, ao contrário do que acontece com as treze coirmãs do Grupo Especial, o Império de Casa Verde não utiliza o espaço destinado a ele na Fábrica do Samba — e, sim, mantém um espaço próprio ao lado da quadra da instituição, na Rua Brazelisa Alves de Carvalho.
Cultural até no início
Ao ser perguntado sobre como surgiu a ideia de falar dos balangandãs, o carnavalesco destacou que um evento, em especial, teve papel fundamental na concepção da temática:
“Eu e o Tiago já tínhamos uma ideia de fazer algo nessa linha. Aí, um grande amigo nosso, o Rodney William, estava na Bahia e falou que estava acontecendo uma exposição sobre o tema. Chamei o Tiago, fomos na hora e disse que era para a gente puxar essa ideia. O Rodney nos alimentou no início, com muito material de lá — já que ele tinha o conhecimento de várias pessoas. Em paralelo a isso, o Tiago começou a se aprofundar nas pesquisas. E, quando a gente apresentou na escola, deu tudo super certo. O presidente na época, o Alexandre, topou na hora a temática. A gente ficou em cima do muro ainda, porque tinham dois enredos patrocinados. Mas, um pouco depois do Carnaval, a gente já estava com esse enredo na gaveta, trabalhando. A demora para a divulgação foi pelo patrocínio desses dois outros enredos que estavam estudando a parte financeira”, revelou.
Início no campo
Com uma exposição como ponto de partida, foi possível começar a pesquisa no próprio evento. Tiago explica:

“A gente faz essa prévia de pesquisa em cima do que tem lá em Salvador, que é a exposição ‘Dona Fulô e Outras Joias Negras’, que esteve em cartaz no Museu de Arte da Bahia (MAB). Eu já sabia que, para mim, dentro dos meus sentimentos de pesquisa, Fulô seria a condutora, a narradora do nosso enredo. A gente se aprofundou em quem foi Dona Fulô, apelido de Florinda Ana do Nascimento. A gente carrega toda a história dela dentro da nossa setorização, do envolvimento dela com a escola — no sentido figurado, é claro: como a narradora vai tocar a escola e como a escola vai tocar a narradora. Trabalhamos dessa maneira até chegar à condutora do enredo”, afirmou.
Dificuldades e destaques
O enredista também falou sobre a principal preocupação no desenvolvimento do enredo:
“Nosso principal desafio foi como não fazer isso se repetir ou ficar repetitivo por se tratar apenas de um elemento — os balangandãs. Para isso, fiz um desdobramento de pesquisa para que não ficasse cansativo para o público nem para o jurado. Encontramos saídas visuais e narrativas, quebrando um pouco da expectativa só do ouro. Essa foi minha maior dificuldade no começo”, comentou.
O trabalho dos ourives, iniciado graças às escravas de ganho, também foi destacado:
“Me chamou muita atenção os ourives que, clandestinamente, faziam esses trabalhos. A joalheria brasileira começa com eles, com esses negros que moldavam joias de forma clandestina. Pensar que com eles nasce a joalheria brasileira é muito forte. Por isso os ourives têm uma importância muito grande no nosso enredo”, afirmou.

Setorização
Para contar essa história, o Império terá divisão em cinco setores:
“Dividimos a escola em cinco setores. O Setor 1 é a comissão de frente, com Dona Fulô sonhando um sonho místico. A partir desse sonho, surge toda a narrativa. No Setor 2, as joias aparecem como amuleto espiritual. No Setor 3, como cofre ancestral, a riqueza no corpo. O Setor 4 traz as joias como reza e batuque, o afro-catolicismo. E o Setor 5 trabalha as joias como ganho de liberdade, mostrando as profissões que garantiram autonomia a essas mulheres”, detalhou.
Cores e materiais
Leandro destacou a predominância cromática e escolhas de materiais:

“A escola vem com muito ouro, muito dourado. Cerca de 80% da escola é em ouro. Mas trazemos também um setor inteiro em prata e falamos das pedras preciosas, especialmente em azul. Estamos usando muito acetato, algo que não era comum no Império, além de bastante metal nas alas”, explicou.
Retomada
Leandro vê o desfile como continuidade temática:
“Esse desfile complementa 2023 e 2024. Seria nossa terceira apresentação nessa linha. A comunidade abraçou muito e estamos felizes com o resultado”, afirmou.

Tiago reforçou: “A comunidade se reconhece como ponto de negritude. A Casa Verde é um dos bairros mais negros de São Paulo e a resposta ao enredo foi imediata”, disse.
Destaques
Leandro apontou quesitos de atenção:
“A comissão de frente é uma grande aposta, com coreografia do Sérgio Cardoso. A bateria dispensa comentários. E fechamos o desfile com a Velha Guarda e figuras como as amas-de-leite”, destacou.
Tiago complementou de forma poética: “O começo e o final se conectam: é o sonho e a liberdade vencendo. O que não se contou na História estará na Avenida, de forma respeitosa e sagrada”, afirmou.
“Podem esperar o retorno de um Império triunfal, grandioso em chão, visual, fantasia e alegoria”, encerrou Leandro.

Tiago concluiu: “O Império está concentrado, ensaiando muito e vai surpreender. Será um desfile técnico e emocionante.”
Ficha técnica
Alegorias: 4 (abre-alas duplo), 1 tripé e elemento alegórico da comissão de frente
Alas: 18
Componentes: 1.800
Diretor de barracão: Ney Meirelles










