A Mocidade Unida da Mooca, para 2026, fará sua estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo apostando em um enredo de forte impacto social e simbólico. Com “Gèlèdés – Agbára Obìrin”, assinado pelo carnavalesco Renan Ribeiro, a escola levará para a Avenida uma narrativa que mergulha na potência do feminismo negro, na ancestralidade africana e na força espiritual e política das mulheres negras ao longo da história.

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A proposta une pesquisa acadêmica, militância, religiosidade e construção estética autoral, partindo do Instituto Gèlèdés e das reflexões de pensadoras como Sueli Carneiro, Conceição Evaristo e Maria Beatriz Nascimento. A MuM, conhecida pela força plástica e por enredos marcantes, promete uma abertura impactante na sexta-feira de Carnaval.

A escola, que inicia seus projetos a partir do samba-enredo, desenvolveu a temática por meio de um processo interno que priorizou originalidade estética, identidade conceitual e coerência narrativa, consolidando um desfile que pretende unir emoção, política racial e grandiosidade visual em sua estreia na elite do samba paulistano.

Para o Carnavalesco, a MuM abriu as portas de seu barracão para conversarmos com o artista Renan Ribeiro.

Chegada do tema

Renan contou como o tema chegou até a Mooca, escola que inicia seus projetos a partir do samba-enredo:

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Foto: Naomi Prado/CARNAVALESCO

“Antes de termos o Instituto Gèlèdés como homenageado, tínhamos três ideias, três temas, mas ainda não eram três enredos; eram três temáticas que nos agradavam. Começaram a ser construídos três sambas, um para cada tema. Para selecionar, houve uma eliminatória interna, e sentimos que um deles não iria avançar. O enredo não encaixava, o samba não tinha a que se adequar. Não estava perto daquilo que imaginávamos para uma estreia no Grupo Especial.

Os outros dois ganharam mais corpo, mas um começou a lembrar caminhos já trilhados pela escola. Desde a minha recontratação, eu, Rafael e a direção decidimos propor algo diferente: metodologia, estética e dinâmica internas novas. Não podíamos repetir.

A temática ligada ao feminismo negro ganhou mais liberdade e corpo. Dentro dela havia possibilidades de enredo. Mesclamos algumas ideias para construir o Gèlèdés”, relatou.

O enredo

O carnavalesco detalhou o desenvolvimento até a escolha final:

“A partir da pesquisa inicial sobre a sociedade africana Gèlèdés, um culto urbano feminino e secreto, nos ligamos automaticamente ao Instituto Gèlèdés, pelo ativismo do feminismo negro. Chegamos a Sueli Carneiro e a outras pensadoras como Helena Teodoro, Conceição Evaristo, Maria Beatriz Nascimento e Djamila Ribeiro.

Sabendo disso, sentei com a Thaísa e propus que ela pesquisasse livremente, tendo apenas a temática como limite. Quinze dias depois marcamos um encontro. Ela leu a pesquisa dela, eu li a minha — era a mesma coisa. Mesmo desenrolar, mesmo desfecho: o conceito de Agbára, essa energia que governa as mulheres negras. Em 20 minutos dissemos: temos um enredo.

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Foto: Naomi Prado / CARNAVALESCO

O presidente Rafael aprovou e seguimos para o próximo passo, já com samba e enredo definidos”, contou.

O que mais chamou atenção no tema

Renan destacou o ponto de partida conceitual:

“Uma frase da Thaísa foi o start: existe uma forma de organização que faz as mulheres negras caminharem para o mesmo lugar, mesmo sem acordo entre elas. Em contextos e épocas diferentes, as histórias se conectam.

Ela disse que toda mulher negra que cruza com outra na rua se olha, se reconhece. Perguntei a várias e todas confirmaram. Entendi que existe uma energia que governa essas mulheres. Chegamos ao Agbára Obìrin: a potência do feminino africano.

Paralelamente, textos de Sueli Carneiro trazem pontos importantes, como a ideia de que a fragilidade sempre foi atribuída à mulher branca. A mulher negra foi vista como resistente, sem direito à fragilidade.

Na espiritualidade africana, a mulher tem papel de equivalência ou superioridade: yalorixás, yabás, lideranças femininas. A sociedade africana espelha esse divino”, explicou.

Desenvolvimento dos setores na Avenida

Renan detalhou a narrativa visual:

“A abertura é a construção do Agbára. Abrimos com a criação do mundo na perspectiva africana, ligada a Odudua, a mulher que cria o mundo. O abre-alas é um grande assentamento feminino.

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Foto: Naomi Prado / CARNAVALESCO

Depois atravessamos o oceano, chegando ao período da escravidão. O Agbára permanece vivo no Brasil. No setor seguinte, a mulher reconecta-se às raízes através do conceito de Mulheres Atlânticas, baseado em Maria Beatriz Nascimento.

No terceiro setor mostramos movimentos que comprovam essa força: Irmandade da Boa Morte, afoxés, quilombos, marisqueiras de Sergipe, Maria Felipa, Teresa de Benguela e militantes ligadas ao Instituto Gèlèdés. O enredo carrega forte mensagem política e social”, relatou.

Materiais nos carros alegóricos

O carnavalesco explicou as escolhas estéticas:

“Pensamos também nos critérios de julgamento, como diversidade entre alegorias. Priorizamos um trabalho artesanal.

No abre-alas usamos bambu e cestaria: oito caminhões de material e quase três meses de trabalho manual com artistas de Parintins. A iluminação é interna, como um abajur. O bambu traz rusticidade e elegância, que associo ao feminino.

O segundo carro destaca transparência, ferro aparente, movimento mecânico e artistas circenses — é um carro aquático.

No terceiro teremos chafariz e cascata de água, simbolizando limpeza espiritual.

O quarto homenageia o Instituto Gèlèdés: urbano, moderno, futurista, grafitado pelo artista Cabelo, com imagens de mulheres do feminismo negro”, contou.

Ficha técnica

4 carros alegóricos

2.000 componentes

19 alas

Diretor de barracão: Diego