No barracão da Grande Rio, o mangue não é cenário, é origem. É dali, da lama entendida como potência, que o carnavalesco Antônio Gonzaga constrói o desfile sobre o movimento manguebeat para o Carnaval 2026. Ao transformar o manguezal em manifesto de vida, periferia e criação cultural, a escola de Duque de Caxias aposta em um enredo que atravessa música, identidade e reflexão social, conectando as margens de Recife às margens da Baixada Fluminense.

“O manifesto está presente no desfile todo. Não de maneira panfletária ou tão explícita. O manifesto é a mensagem geral do movimento manguebeat. A partir do momento em que estamos retratando as populações de margem, suas potências, as maneiras como elas levantam a possibilidade de uma nova construção social, já estamos levantando essa bandeira”, afirmou Antônio Gonzaga.
Da lama ao mundo
Antes de pensar em alegorias ou impacto visual, Antônio Gonzaga voltou às origens do movimento que inspira o enredo. O manguebeat não aparece como produto fonográfico, mas como desdobramento de um caldo cultural anterior, enraizado nos festejos populares de Recife e de Pernambuco.
“Foi descobrir, de fato, de que maneira esses festejos populares formam a base do movimento manguebeat e influenciam não só a estética, mas também a singularidade do movimento. Então, descobri essa relação dessas festas populares com o resultado final de Nação Zumbi, de Mundo Livre S/A, de que maneira essa música ganha o mundo”, revelou.
A partir dessa investigação, o desfile se organiza como um percurso: das manifestações tradicionais à consolidação de um movimento cultural que projetou artistas pernambucanos para além das fronteiras regionais. O foco não está apenas na música, mas na engrenagem social que a sustenta.
Gonzaga também estabeleceu um paralelo entre as periferias de Recife e as do Rio de Janeiro, aproximando o manguebeat das dinâmicas culturais da Baixada Fluminense. Se o manifesto manguebeat nasceu da lama pernambucana, o desfile propõe que essa mesma força estética e política encontre eco na Baixada. A margem deixa de ser apenas ponto de origem e passa a ser afirmação coletiva na Marquês de Sapucaí.
Pluralidade como assinatura
Antônio Gonzaga define o desfile como um projeto de múltiplas identidades visuais, estruturado para evitar repetições e criar deslocamentos constantes na Avenida.
“É um desfile plural em termos de linguagem. Vamos ter diferentes Grandes Rios no mesmo desfile, e isso é um ponto muito positivo. É um desfile ousado e desafiador para mim como artista”, disse.
A mudança de atmosfera é assumida como estratégia narrativa.
“Passou um carro, já muda completamente a linguagem. Você vai conhecer uma outra vertente do movimento manguebeat.”
Cada setor assume identidade própria, acompanhando as diferentes fases do movimento. Na abertura, por exemplo, a combinação entre roxo e vermelho já estabelece uma visualidade específica, ligando espiritualidade e vitalidade ao manguezal. Ao longo do desfile, cores e composições sinalizam essas transições, conduzindo o público por registros distintos sem romper a unidade do enredo.
Nova cara na Grande Rio
O projeto marca o primeiro desfile de Antônio Gonzaga como carnavalesco da Grande Rio. Após atuar em parceria com André Rodrigues na Portela, ele assume o comando criativo da escola de Caxias, substituindo a dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad.
Ao falar sobre a mudança, Gonzaga destacou a singularidade do processo criativo de cada artista.
“São propostas visuais diferentes, porque também acho que a proposta visual faz sentido com o artista que está criando. Obviamente, trabalhei com os dois [Bora e Haddad], mas também tenho minhas outras vivências. Isso influencia diretamente no meu trabalho, mas também é uma visualidade fiel ao enredo, ao que ele pede e propõe. O manguebeat é o enredo da Grande Rio — e a Grande Rio vai apresentar uma nova cara”, declarou.
Antromangue: reflexão e futuro
O percurso construído ao longo do desfile encontra síntese no conceito de “antromangue”, desenvolvido por Chico Science nos últimos anos de vida. A ideia propõe uma conexão profunda entre homem e natureza, entendendo o manguezal não como paisagem, mas como organismo integrante e integrado ao ser humano.
No último setor, essa imagem retorna como reflexão social. A relação entre raízes, território e corpo humano ganha dimensão simbólica, ampliando o sentido político do enredo.
“Entendendo a periferia como potência. As pessoas que vêm da periferia transformam não só o espaço onde vivem, mas também a perspectiva de sociedade — uma perspectiva política de construção de um mundo melhor”, disse.
O fechamento retoma o ponto de partida do desfile: a margem como origem de criação e transformação. Ao conectar o mangue de Recife às periferias da Baixada Fluminense, a Grande Rio encerra a narrativa reforçando a ideia de que a lama é terreno fértil de cultura, identidade e projeto coletivo.
Conheça o desfile
A Grande Rio levará para a Avenida um projeto composto por:
25 alas
5 alegorias
3 tripés
Cerca de 3.000 componentes
1º Setor
“O desfile da Grande Rio começa com a chegada a esse grande manguezal, encontrando essas raízes. Retratamos as raízes do mangue como se fossem veias, entendendo que ele é uma fonte de vida, de onde essa energia vital pulsa e vibra. É um setor em que encontramos os animais do mangue, os homens de lama e essas raízes-veias. Trabalhamos o tempo todo com as cores roxo — porque pedimos licença a Nanã, senhora dos manguezais e da lama — e o vermelho, trazendo a vida, o sangue. Essa abertura é roxo com vermelho.”
2º Setor
“É onde encontramos as populações que vivem às margens desses grandes manguezais e rios: catadores de caranguejos, pescadores, lavadeiras. Depois mostramos a vida que levam. Trazemos representações das palafitas, do urubu como símbolo da própria incerteza da vida. A alegoria resume esse grande setor: é essa ‘Manguetown’, a cidade dos mangues.”
3º Setor
“É o setor em que trazemos a representação dos festejos populares de Recife. Essas manifestações culturais são raízes da cultura pernambucana e mostram de que maneira isso se torna o movimento manguebeat. O carro alegórico apresenta uma transição entre dois momentos do desfile, trazendo a simbologia dos maracatus e a representação da cultura de Pernambuco.”
4º Setor
“É o próprio manguebeat através de seus atores principais: mangueboys e manguegirls. Representamos Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, a expansão do movimento para o cinema, o teatro, a dança e as artes visuais. Fechamos com uma homenagem a todos esses nomes que fizeram o manguebeat ser tão importante para a cultura nacional.”
5º Setor
“No último setor, a reflexão social a partir do conceito de antromangue, apresentado por Chico Science. Nos últimos anos de vida, ele trabalhava essa conexão profunda entre o homem e a natureza, entendendo essa relação com as raízes do manguezal como um corpo só. Usamos essa imagem para pensar uma sociedade mais justa, mais livre e que olhe com mais cuidado para as periferias — entendendo a periferia como potência. Pessoas que transformam não só o espaço onde vivem, mas também a perspectiva de sociedade, uma perspectiva política de construção de um mundo melhor. Fechamos com esse olhar mais social.”










