Em 2025, o Barroca Zona Sul fez história com o samba-enredo “Os Nove Oruns de Iansã” – vencedor do ESTRELA DO CARNAVAL [concedido e organizado pelo CARNAVALESCO] na categoria em questão. O desfile, entretanto, foi marcado por uma série de incidentes – que culminaram na décima segunda colocação, a primeira acima da zona de rebaixamento, com a mesma pontuação da instituição que caiu com a melhor colocação. Agora, sétima e última escola a desfilar na sexta-feira do Grupo Especial de São Paulo, a agremiação apresenta “Oro Mi Maió Oxum”, sobre outra orixá. Buscando sempre informações sobre as escolas de samba de São Paulo, o CARNAVALESCO entrevistou Pedro Alexandre, popularmente conhecido como Magoo, carnavalesco do Barroca.
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Surgimento da ideia

Ao falar sobre como veio o estalo para exaltar Oxum em 2026, Magoo destacou que haviam outras tantas propostas na mesa: “A gente, assim como acontece com todas as escolas, nunca chega para nós uma proposta só de enredo. A gente tinha umas quatro, cinco propostas. A linha que a gente queria seguir, porém, já era uma certeza. E a gente começou a analisar os prós e os contras de cada um. Daí foi natural: foi uma coisa de consenso da nossa diretoria. Na hora de escolher, eu falei, que esse era o melhor caminho e já surgiram ideias. Só aí que nós batemos o martelo”, comentou.
Trauma?
Outros pontos que veio a favor da temática sobre Oxum foram os problemas que aconteceram com a Faculdade do Samba no último ano: “Como a gente queria esquecer o Carnaval de 2025 por conta do que aconteceu, a gente não ficou remoendo, pensando nas coisas do ano passado. Já começamos bem cedo o planejamento. Daí, em cima disso, eu já comecei com o trabalho de pesquisa. Escrevi o enredo, comecei a desenhar fantasias, desenhar carro, escrevi sinopse. Já comecei o processo de criação e tudo fluiu. Deu certo, etapa por etapa. A comunidade gostou para caramba – e está dando certo”, comemorou.
Histórias e amores interligados
Ainda citando o marcante desfile de 2025, Magoo começou a falar qual o fio condutor (ou melhor, os fios condutores) da apresentação deste ano: “No ano passado, a gente focou em uma história e desenvolveu todo o enredo em cima de uma história – nos nove oruns de Iansã. Nesse ano, de Oxum, você começa a pesquisar com uma coisa em mente e, à medida que vai descobrindo, você percebe qual o melhor caminho a seguir – por isso é tão importante o trabalho de pesquisa. Foram várias histórias muito legais que, no final, se interligam. Na verdade, o nosso enredo é um compilado de histórias, de feitos de Oxum – que, no final, tem uma única mensagem: Oxum é amor”, revelou.

A mensagem sentimental segue: “Oxum amou intensamente seu povo. Oxum teve os seus amores: o principal foi Oxóssi, quem ela amou intensamente; assim como o filho, Logun Edé. Tudo que envolve Oxum tem o amor por trás. A gente seguiu essa linha e vai contar várias histórias, feitos, poderes e qualidades de Oxum – mas, no fundo, todas se interligam e têm a mesma mensagem”, comentou o carnavalesco.
Pesquisa
De acordo com o próprio, foram duas as principais fontes de pesquisa do carnavalesco: “Eu gosto bastante de mergulhar em livros, me debrucei em vários livros. Mas teve um papel fundamental do pai Douglas, que cuida da parte espiritual do Barroca Zona Sul. Ele tem um conhecimento muito grande e ele mostrou um vasto material, trabalho de pesquisas e histórias. Ele me apresentou, também, pessoas que são filhos de Oxum. Eu fui juntando a parte literária com esse trabalho de conversa, que foi muito, muito valioso. A participação do pai Douglas nesse processo foi fundamental”, destacou.

A apresentação barroquense de 2025, mais uma vez, foi citada quando Magoo destacou qual foi a principal dificuldade ele pra produzir a apresentação do ano vigente: “A dificuldade foi a inicial, já que sair de um enredo falando de Iansã e, praticamente, uma semana depois, virar a chave para falar de Oxum, ver que Oxum e Iansã são totalmente diferentes, são linhas totalmente diferentes… para você desligar de um tema para o outro, no começo, eu demorei um pouquinho. Mas, depois que já memorizei, eu assimilei mesmo o enredo e o tema proposto para 2026. Daí deu para dar uma deslanchada”, afirmou.

O carnavalesco também falou sobre qual ponto mais o impressionou ao pesquisar e conversar com filhos da entidade: “O que mais me chamou atenção na pesquisa foi a complexidade dessa orixá. Quando a gente fala de Oxum, a gente lembra sempre do básico: é a senhora das águas doces, do ouro, da fertilidade. Mas têm outras qualidades em Oxum – como ser a primeira das feiticeiras yamis: ela aprendeu e tem o dom da cura com água fria. Ela tinha o poder da feitiçaria, ela se transformava em pássaro – e, embora ela seja ligada à água, ela conseguia voar na transformação da encantaria. Tem muitas histórias que eu nem imaginava de Oxum, que eu descobri através dessa pesquisa, que a gente colocou no enredo e está bem interessante”, comentou.

Cronologia
Uma das grandes características de Magoo é o de não setorizar os desfiles que produz. Ele próprio explicou como será, dessa maneira, a passagem do Barroca Zona Sul pelo Anhembi em 2026: “Eu, particularmente, nunca gostei de fazer enredos divididos por setores. Eu sempre faço introdução, desenvolvimento e conclusão, sempre divido mais dessa forma. A gente começa o nosso enredo falando já de histórias, mesmo. A gente já vai no ponto: a comissão de frente já é uma história, a Ala das Baianas já vem contando outra, o abre-alas é uma outra história. A gente já começa com alguns itens do começo de Oxum, as primeiras histórias, as mais antigas, a origem dessa orixá. Daí, passando esse primeiro setor, como todo mundo popularmente chama, já começamos a falar dos seus amores carnais mesmo: o envolvimento dela com Ogum, com Xangô, e principalmente Oxóssi, que foi o seu grande amor. Depois, finalizando, a gente já começa com outras qualidades: batemos muito na tecla da fertilidade, da maternidade e o amor dela pelo filho, Logun Edé. A gente finaliza com o amor materno, o amor de mãe”, ratificou.

De manhã
A última vez que o Barroca Zona Sul fechou uma noite de desfiles foi em 2015, quando militava na terceira divisão do Carnaval paulistano – hoje, tal pelotão é o Grupo de Acesso II da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP); mas, na época, era o Grupo I da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP). No Grupo Especial, 2026 será o primeiro ano em que a Faculdade do Samba encerrará uma noite de desfiles – nos anos de 1994, 1983, 1979 e 1978 a agremiação foi a penúltima a desfilar nas respectivas noites, quando só havia uma data para o pelotão de elite das agremiações paulistanas.

O desafio de fechar uma noite de Grupo Especial para o Barroca Zona Sul é evidente, mas Magoo garante que a verde e rosa está preparada: “O Barroca não está acostumado a desfilar nesse horário. Mas, plasticamente, vai mais na pesquisa de material. Você tem que fazer o material todo finalizar, trazer a luz do dia como aliada. Cores cítricas, fortes, muito espelho para refletir, muito ouro – e, ainda o enredo ajuda: Oxum, a orixá do ouro. Teremos muito ouro. Essa escolha de material é um dos nossos pontos altos. Paralelo a isso, o pessoal de quadra, de Harmonia, o pessoal da diretoria, da Comissão de Carnaval, está fazendo alguns trabalhos com os chefes de ala, com o pessoal da escola, com estratégias. Todos sabem, o Barroca é lá no Jabaquara, é longe. A estratégia, desde a saída da quadra para vir para cá, a qualidade dos componentes, tudo é uma novidade. Tudo está sendo feito com meses e meses de antecedência”, destacou.

O trabalho desenvolvido para um horário especial, é claro, faz com que a agremiação tenha diferenciações das coirmãs: “É uma percepção, claro, mas todo o nosso trabalho foi preparado para desfilar de manhã. A gente vai montar os carros alegóricos, e não vamos ter aqueles recursos de luz. Você vai ter escolas fazendo aqueles testes de luz maravilhosos, mas, na questão de material, teremos muito espelho, muita água, muito material no ouro, muitas coisas de acetato. Coisas que refletem bastante no dia. O ponto alto vai ser quando bater o Sol de manhã e chegar a gente com aquela empolgação. Aí sim vocês vão ver o Carnaval do Barroca, que foi todo preparado para bater a luz do dia e acontecer”, prometeu.
O desfile já pela manhã, é claro, também vai impactar na cromia da Faculdade do Samba: “Você vai ver o ouro praticamente na escola inteira. Tem cores, claro, mas sempre tem detalhes em ouro, em todas as fantasias, em todos os carros. É a cor é o que vai predominar. A gente usou materiais diversos na fantasia: pedrarias, muita coisa de pingentes e chapeados, até trabalho com bijuterias. Oxum é da vaidade, a gente tem que ter joias – e esse tipo de material foi legal e diferente, foi um trabalho de pesquisa diferente. Está sendo muito, muito legal, mesmo. A gente vai mostrar um trabalho legal na avenida”, afirmou.
Comunidade esperançosa
Ao ser perguntado sobre como os barroquenses receberam o enredo, Magoo destacou, mais uma vez, a diferença que as temáticas de 2025 e 2026 tiveram no Jabaquara: “É inevitável não fazer um comparativo entre 2025 e 2026. No ano passado o começo, por incrível que pareça, foi normal – mas foi crescendo, crescendo e tomou uma proporção gigante. A cada ensaio, a cada festa, a cada dia, tudo aquilo foi crescendo – e virou, por exemplo, o samba do ano no Estrela do Carnaval. Em 2026, a gente teve já uma aceitação imediata: o pessoal já comprou o samba-enredo do Barroca Zona Sul de 2026 – tanto é que o pessoal pegou o samba mais fácil em 2026 do que em 2025, por incrível que pareça. O que eu vejo de diferente é que foi uma coisa linear: não teve aquela coisa de começou baixo e foi crescendo, ele já chegou em um nível e foi – e a gente está nesse nível aí: a aceitação da comunidade foi, do começo até agora, a mesma”, comentou.

A comunidade, por sinal, também foi motivo de um recado bastante especial do carnavalesco: “Embora eu defenda a parte plástica e artística, o Barroca é o povão, é paixão e é o ponto alto. Vocês vão ver um Barroca cantando samba, alegre e feliz, como ele sempre foi. Vamos fazer um Carnaval grandioso, e é o que o pai de santo da escola, o pai Douglas, falou: ‘cuidado, Oxum não tolera erros’. O Barroca não vai errar, e a gente vai fazer um grande carnaval. E, se Deus quiser, vai ser um Carnaval que vai ficar para a história do Barroca Zona Sul”, suspirou.

Surpresa
Magoo aproveitou para dar um pequeno spoiler sobre as alegorias da Faculdade do Samba: “Nosso abre-alas terá dois acoplamentos, são três bases. Nossa média será de quinze metros de altura e a gente está apostando bastante em efeitos. A gente vai usar bastante efeito de água – principalmente no abre-alas. Teremos, também, uma surpresinha no Carro 04, também de água. Teremos muito movimento de articulações nas esculturas”, finalizou.
Ficha Técnica
Alegorias: 04
Componentes: 1730
Alas: 19 alas
Diretores de Barracão: Wendel Borreli e João Ricardo Alexandre (Jonny)










