O carnaval é feito de camadas: história, emoção, técnica, ancestralidade e inovação. Dentro desse universo, o casal de mestre-sala e porta-bandeira ocupa um lugar simbólico e decisivo, onde cada gesto carrega o peso de décadas de tradição e o olhar atento de jurados, público e comunidade. Em 2026, Sidclei e Marcella vivem um dos momentos mais marcantes de suas trajetórias, defendendo as cores do Salgueiro em um desfile que presta homenagem a uma das maiores referências da história do carnaval brasileiro: Rosa Magalhães.
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Com a responsabilidade de representar não apenas uma escola, mas um legado artístico que atravessa gerações, o casal fala sobre expectativas, pressão por notas, escolhas coreográficas, mudanças no julgamento e o cuidado com cada detalhe que compõe a dança. Em entrevista ao CARNAVALESCO, Sidclei e Marcella refletem sobre o que significa estar na avenida neste ano tão simbólico.
Antes mesmo de falar em notas, técnica ou fantasia, existe um sentimento que atravessa todo o trabalho do casal: o peso simbólico do enredo e da homenagem. Para eles, 2026 não é apenas mais um carnaval, mas um marco que exige consciência histórica e sensibilidade artística.
“Este ano é muito especial, principalmente por homenagear um grande ícone do Carnaval. A Rosa Magalhães marcou a história do carnaval. É uma responsabilidade muito grande ser o mestre-sala e o casal que vai representar o legado dela. Falar de Rosa Magalhães é contar um pouco da história do samba, do sambista e do próprio carnaval”, disse Sidclei.
Marcella complementa destacando que essa responsabilidade ganha ainda mais força por estar diretamente ligada à escola que ambos carregam no coração. Para ela, o contexto emocional se mistura à técnica, tornando cada ensaio e cada decisão ainda mais significativos.
“Poder fazer isso defendendo as cores da nossa escola, o Salgueiro, que é a nossa escola de coração, e homenagear alguém tão importante, não só para o Salgueiro, mas para o carnaval como um todo, é um privilégio e uma emoção muito grandes.”
Quando o assunto passa da emoção para a competição, o tom muda, mas não perde a profundidade. A busca pela pontuação máxima sempre fez parte da rotina dos casais, mas o atual modelo de julgamento trouxe novas camadas de complexidade. Para Sidclei e Marcella, pensar apenas nos tradicionais 40 pontos já não é suficiente.
“Agora não são mais 40, são 60 pontos. A gente não sabe quais envelopes vão ser abertos, então precisamos encantar seis olhares diferentes, com pensamentos, ideias e percepções diferentes. Apesar de existir um manual e um roteiro, são seis seres humanos diferentes”, afirmou Sidclei.
Essa multiplicidade de olhares exige um trabalho ainda mais estratégico e detalhista. Marcella explica que o casal precisou repensar a forma de construir a dança para que ela fosse completa e coerente, independentemente de qual jurado estivesse avaliando.
“Por isso, nosso trabalho este ano foi ainda mais minucioso, pensado para atender, dentro de um mesmo conjunto, esses seis olhares. Não adianta buscar 40 se você não buscar 60, porque, na nossa visão, todas as seis notas têm a mesma importância”.
Um dos temas que mais gera debate dentro e fora da avenida é a relação entre coreografia e tradição. Para muitos, a palavra “coreografia” ainda carrega um estigma de engessamento, mas Sidclei faz questão de desconstruir essa ideia, trazendo um olhar mais técnico e menos superficial sobre o termo.
“Existe muita confusão em torno da palavra coreografia. Coreografia não é passo marcado ou dancinha. É organização de movimento, com início, meio e fim. Manter a tradicionalidade da dança de forma organizada não tem mistério”.
Marcella reforça que o desafio não está em escolher entre tradição ou inovação, mas em equilibrar as duas coisas de maneira respeitosa e criativa. Segundo ela, o diferencial está justamente nos detalhes que não quebram a essência da dança, mas a valorizam.
“O nosso desafio é trazer essa tradição com algo a mais, com aquela pitada, aquele molho, aquele borogodó que faz a diferença, sempre respeitando, preservando e valorizando a essência da nossa arte”.
Outra mudança significativa no carnaval recente foi a implantação da cabine espelhada de julgamento, que alterou completamente a dinâmica da apresentação dos casais. Para Sidclei, essa mudança eliminou zonas de conforto e obrigou todos a repensarem sua ocupação espacial na avenida.
“A cabine espelhada tirou um certo conforto, não só da gente, mas de todos os casais. Isso acabou deixando a dança mais dinâmica e trouxe mais liberdade de movimentação”, explicou.
Marcella destaca que essa nova configuração exige não apenas técnica, mas preparo físico e mental ainda maiores. A dança passa a ser constante, sem pausas estratégicas, e precisa manter o mesmo nível de entrega em todos os ângulos.
“Agora temos a obrigatoriedade de dançar em 360 graus, para todos os lados da avenida. Quem está em volta assiste à mesma beleza e à mesma dedicação. Isso exigiu um condicionamento ainda maior, porque não existe mais aquele momento de respiro”.
Por fim, quando o assunto chega à fantasia, o casal prefere manter o mistério, mas deixa claro que o figurino carrega um significado especial dentro do contexto do enredo. Mesmo com poucas palavras, a emoção transparece na resposta.
“É uma grande homenagem à nossa mestra”, destaca Marcella.










