A Acadêmicos do Salgueiro vai muito além de ser apenas uma escola de samba ou uma simples quadra visitada por turistas todos os anos. Ser salgueirense é sinal de território, pertencimento e identidade. O amor pela escola ultrapassa palavras: é um sentimento que a comunidade carrega através de gerações e que, enquanto houver uma pessoa desfilando pelo Salgueiro, a escola seguirá firme e forte, como vem sendo há mais de oito décadas.
Não existe homenagem maior do que desfilar pela própria escola. Dentro desse universo, a ala das passistas carrega uma trajetória marcada por inovação e reconstrução, sem jamais perder a tradição de transmitir a paixão através do corpo e do samba no pé.
Reconhecido mundialmente por seu talento, rispidez e olhar crítico, o diretor artístico Carlinhos Salgueiro é a alma criativa por trás das musas e passistas mais icônicas da Marquês de Sapucaí. Para ele, o samba vai além do desfile: ser passista do Salgueiro é dar voz e destaque às pessoas da comunidade.

“De uns dois anos para cá, eu montava uma comissão de personalidades e artistas para escolher, mas eu voltei a sentir no meu coração. Eu sinto as pessoas, eu gosto de pegar pessoas cruas, que aí eu coloco o meu tempero. E ser campeã de prêmios é a realização do meu trabalho e ver que o trabalho tá dando certo”, destacou.
Esse olhar detalhado e preciso do diretor artístico se reflete na trajetória da estagiária de Educação Física Ellen Belo. Aos 23 anos, ela participou das audições carregando insegurança e a certeza de que não seria aprovada. No entanto, o pressentimento apurado de Carlinhos transformou em realidade um sonho de infância: ser passista do Salgueiro.

“Eu entrei recentemente, no final do ano passado, mas sempre foi meu sonho ser do Salgueiro. Só que eu achei que eu não tava pronta, eu não estava confiando em mim naquele momento. Pensei: ‘Se eu passar, ok, mérito meu; se eu não conseguir, vou persistir até conseguir’. Dito e feito: cheguei, fiz o teste. Na hora ele tava chamando as meninas, e eu tava lá atrás. Ele veio me olhando assim… eu falei: ‘Será que ele tá me olhando?’. Eu olhava para baixo, eu olhava para cima, aí ele veio, me deu a mão e me botou lá na frente. Eu fiquei muito feliz”, afirmou.
Ser passista vai além de sambar na avenida. É ser referência para os mais novos, representar disciplina, dedicação, trabalho duro, beleza e plasticidade. As passistas do Salgueiro carregam um nome forte, construído por Carlinhos ao longo dos anos, por meio de projetos sociais voltados para a comunidade e abertos a todos.
Raquel Lima, de 34 anos, arquiteta, dançarina e no quinto ano desfilando pela escola, é uma dessas histórias. Assim como muitas outras passistas, Raquel foi pupila de Carlinhos por meio do projeto Samba no Pé.

“Eu fiz, durante um ano, curso com ele no projeto Samba no Pé, que acontece no Salgueiro. Aí eu fui me desenvolvendo e, um dia, ele me chamou para fazer parte da ala. Desde criança sempre quis ser passista e eu estou muito feliz por estar representando. Grandes nomes vieram do Salgueiro, vieram através do estudo com o Carlinhos. É incrível fazer parte e estar também trazendo esses prêmios todos os anos com ele”, enfatizou.
Tradição, inovação e pertencimento são palavras que definem as passistas do Salgueiro, sempre um passo à frente e sem rótulos. Davi Araújo, de 26 anos, é cabeleireiro, integra a escola há quatro anos e atualmente ocupa o posto de passista diversidade. Para ele, estar nesse espaço vai além da individualidade. Consciente dos rótulos impostos pela sociedade, Davi não se deixa limitar e celebra a alegria de ser passista.

“Eu acho que é muito mais além. Para mim, por ser Passista Diversidade, que é algo que não é muito aceito pela sociedade… é um corpo afeminado sambando da forma que quer, com seus trejeitos. Então, para mim, é de uma felicidade muito grande estar nesse lugar de passista.”
Davi também destaca seu sentimento de pertencimento, o direito de escolher onde seu corpo quer estar e o respeito recebido dentro da escola.
“As pessoas me diziam muito: ‘Ah, por que você não vai para uma outra ala?’. Não, eu quero ser passista. É onde o meu corpo quer estar. E o Carlinhos vem criando essa vontade de ser o passista de diversidade. Eu sou muito salgueirense, é minha ala, amo de paixão, todo mundo me respeita. Então, eu acho que vale muito, porque é muito mais do que o samba no pé. O respeito é muito mais importante”, declarou.
Entre ensaios intensos e jornadas de trabalho fora da quadra, os passistas do Salgueiro seguem carregando o amor por suas raízes. Levam no corpo a própria história e o orgulho de sambar com o coração. É essa entrega que transforma esforço em espetáculo e faz com que, ano após ano, continuem fazendo história na avenida, conquistando prêmios e reafirmando o Salgueiro como referência de excelência, tradição e identidade no Carnaval.









