Por Lucas Santos, Luiz Gustavo, Maria Estela Costa, Juliana Henrik e Juliane Barbosa
Máximo respeito! Deixou chegar, agora atura. Esse deve ser o sentimento das adversárias da Deusa da Passarela. Mais livre, sem o peso dos anos sem título, a Beija-Flor parece estar retomando aquela aura do início deste século, em que sempre era a escola a ser batida — e, na primeira década dos anos 2000, quase nunca era. A força de mais um ensaio muito forte, no estilo rolo compressor que ela ensinou para o mundo do carnaval e que ninguém fez totalmente igual, a Azul e Branca de Nilópolis deixou mais um forte recado na Sapucaí, a pouco mais de uma semana do desfile oficial.
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Abençoada por Oxum, a escola foi a única que não pisou na Sapucaí com chuva constante, mas mostrou a garra dos componentes que certamente tomaram muita chuva na concentração. Na Sapucaí, o que se viu foi uma escola incorporada, entregando uma evolução altamente trabalhada, canto potente e musicalidade latente, além do brilho do casal Claudinho e Selminha e do trabalho bem estruturado da comissão de frente de Jorge e Saulo. Ensaio muito forte e o recado de que a última escola que conseguiu um bicampeonato é a que quer quebrar a maldição que já dura 18 anos.
Com o enredo “Bembé”, defendendo o título do ano passado, a Deusa da Passarela será a segunda escola a pisar na Avenida na segunda-feira de carnaval.
“Este ano, com o título já conquistado, a briga pelo bicampeonato se torna mais livre. Não é que a pressão desapareça, mas a Beija-Flor pode se colocar como sempre se colocou, com as características que sempre teve. A gente precisa avaliar o quanto é difícil ganhar duas vezes seguidas. A última bicampeã foi em 2007 e 2008, e isso já fazem 18 anos. Esse intervalo mostra o quanto é complexo para uma escola que acabou de vencer conseguir vencer novamente. Por isso, o trabalho precisa ser de formiguinha, técnico, de raiz, vindo de baixo, com os componentes. Ganhar um ano não facilita o seguinte; se facilitasse, não teríamos ficado tanto tempo sem uma bicampeã. Estou muito feliz com o desempenho da escola, comunidade, bateria, cantores, casal de mestre-sala e porta-bandeira, da comissão de frente. Todo mundo entendeu a dinâmica e a ideologia que montamos para o desfile. Esse não é um trabalho individual. Não é só meu, nem apenas do presidente ou da comissão de harmonia. Envolve também pessoas da administração que entendem profundamente de carnaval. Esse trabalho de união, de escutar o outro e de querer crescer o tempo todo está sendo um diferencial para a Beija-Flor este ano. Chegamos agora à reta final no momento certo. Tenho muito receio quando uma escola atinge o ápice antes da hora, porque depois pode começar a cair. Fomos introduzindo técnicas ao longo dos ensaios justamente para evitar isso. Hoje, acredito que a Beija-Flor chegou no ponto ideal para o desfile. Sabemos que temos 11 coirmãs com a mesma vontade de vencer, todas fortes e competitivas, e isso precisa ser respeitado. Mas a Beija-Flor mostrou, ao longo de toda a temporada, que está fortalecida e ainda mais forte do que no ano passado. Ganhar o carnaval é consequência de um trabalho bem feito, de não deixar cair em nenhum momento o andamento da escola, especialmente em evolução e harmonia. Por isso, estou muito satisfeito”, explicou Marquinho Marino, diretor de carnaval.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob a direção de Jorge Teixeira e Saulo Finelon, a comissão trouxe a ancestralidade presente no enredo. O tripé de flores secas, com a pivô da coreografia, cujo corpo saía dessas raízes, interagia com os demais personagens, sendo reverenciada por eles ainda no início da apresentação. Vestidos em tons terrosos, os integrantes que evocavam essa parte ancestral realizavam muitas danças ao redor dessa Oxum presa ao tronco no tripé, evocando o desapego e a renovação.

Os integrantes vestidos em tons terrosos realizavam rituais, aproveitando algumas “mangas” da roupa, que produziam um bonito efeito tanto quando dançavam em solo quanto mais unidos. A apresentação trazia todo o traço de ancestralidade que o enredo pedia, muito voltada para a dança, de forma bastante sincronizada, com elementos bem típicos do culto do candomblé. Se olharmos pelo prisma do ano anterior e do que foi levado para os ensaios por Saulo e Jorge, deve haver, no dia oficial, algo do que foi visto neste treino.
“O nosso samba-enredo é um absurdo de bom. Isso move muita emoção na gente; os ensaios foram muito emocionantes, e esse último ensaio veio só para nos deixar mais seguros para o dia principal. Não fizemos alteração na coreografia referente à cabine; a coreografia sempre fez 360 graus para atingir todos os lados, e isso é o mais importante hoje. Não é algo difícil para nós, diretores e coreógrafos; a gente está acostumado, ou porque você faz um teatro de arena ou porque você faz um povo italiano. Como foi dito anteriormente, isso era uma coisa que já deveria ter acontecido antes. Eu posso contar um leve segredo: a nossa comissão está trazendo muita garra e será toda no chão; será de muita emoção”, garantiu Saulo Finelon.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Há mais de 30 anos dançando juntos, Claudinho e Selminha Sorriso sempre surpreendem e mostram que a tradição também é resultado do trabalho. Selminha de Oxum na Sapucaí foi um acontecimento e parecia incorporada, com seus giros, rodopios e movimentos extremamente inseridos na homenagem. Claudinho flutuava enquanto cortejava a porta-bandeira, sempre com uma postura ímpar, movimentos precisos e intensidade bem controlada dentro das características do casal, mantendo qualidade e respeitando a ancestralidade que a fantasia da dupla pedia.
O samba era bem marcado pelos movimentos de ambos. Destaque para o uso do espelho de Oxum por parte de Selminha, que, além de tudo o que representa na espiritualidade do personagem, produziu um ótimo efeito na dança e na coreografia. Destaque também para a saia dourada da porta-bandeira, de muito bom gosto e leveza, produzindo movimentos e acentuando visualmente os giros de Selminha. Tudo muito bem pensado em uma coreografia que arrancou aplausos e gerou frisson ao final.

“No primeiro ensaio, passamos com o chão seco; neste segundo ensaio, pegamos a pista molhada. Então, tivemos a oportunidade de treinar as duas situações com a mesma coreografia. Na semana passada, testamos a coreografia; hoje, já tínhamos uma base melhor, porém tinha a chuva. Mas a energia de hoje, aquela energia de estar chegando a hora, foi incrível. Os orixás de Bembé e os orixás da Sapucaí estão olhando por nós. Esse samba maravilhoso, essa voz do candomblé para o mundo, é mais um enredo necessário que a Beija-Flor abraçou. Precisamos combater esse racismo religioso. Eu me emociono cada vez que piso nesse palco sagrado, e é o meu trigésimo ano na Beija-Flor; é muita coisa junto. Estamos felizes e vamos nesse ritmo para o carnaval daqui a uma semana. Axé”, disse a porta-bandeira.
“Somos um casal. Duas cabeças que pensam e agem de forma diferente. Meu papel é cuidar, proteger não só ela como a bandeira. Então, deixo ela com a emoção mais aflorada e eu seguro um pouco mais para a gente dosar emoção e técnica. Eu sou o protetor e o guardião dela, dela e da nossa bandeira”, completou o mestre-sala.
HARMONIA E SAMBA
Com a responsabilidade de substituir ninguém menos que Neguinho da Beija-Flor, a dupla Nino do Milênio e Jéssica Martin mais uma vez mostrou força e entrosamento. Jéssica é uma das melhores notícias deste carnaval. Como voz principal pela primeira vez, tem se destacado e se imposto em um cargo que, infelizmente, no carnaval ainda é muito masculino, apesar da enormidade de talentos femininos. Com seu desempenho, Jéssica pode abrir novas portas. Vale também uma importante consideração sobre Nino: experiente no cargo e no Grupo Especial, tem sido generoso e trabalhado para que a dupla entregue muito para a Beija-Flor, sem vaidade, mas com excelente musicalidade, o que vem se refletindo na resposta do componente.
A Beija-Flor sempre foi um rolo compressor em diversos aspectos, especialmente na harmonia e no canto da comunidade, e isso não se perdeu nem nos momentos de menor brilho nos últimos anos, tendo sido fundamental no título do ano passado — e pode ser novamente. O ensaio mostrou isso. O samba, feito a partir de uma junção, é certamente uma das melhores obras deste carnaval, com tudo o que o enredo pede: negritude, religiosidade, dendê, molho e ritmo. Com dois refrões fortes, a música ainda conta com um bis muito cantado antes do refrão principal, em “Atabaque ecoou, liberdade que retumba, isso aqui vai virar macumba”. Na cabeça, “Ê-ê João de Obá, griô sagrado…” também se destaca e traz a possibilidade de algumas convenções para a bateria. Já na parte de baixo, em “o povo gira no xirê, a celebrar”, há um ótimo trabalho das cordas, com um arranjo bem praiano. Nada a se colocar sobre a harmonia e a obra.

“Foi maravilhoso e incrível demais o nosso último ensaio técnico. Estou muito emocionada mais uma vez; a Beija-Flor entregou tudo, tudo e mais um pouco. A nossa comunidade é especial, maravilhosa e faz a entrega com ou sem chuva; a gente se joga na avenida. Agora é aguentar o coração para viver aquela emoção do desfile, ver a escola entrando com tudo, os carros, os componentes e a Sapucaí cheia, lotada, gritando. Eu estou superansiosa e super na expectativa de que tudo dê certo, se Deus quiser”, comentou Jéssica.
“O ensaio foi maravilhoso, muito bom, lindo demais, de verdade. Muito feliz por estar vivendo esse momento. O primeiro foi maravilhoso e esse também, mas eu tive um probleminha com o meu fone. Depois que saí do primeiro recuo da bateria, eu praticamente cantei sem me ouvir. Deu algum defeito e eu não sei o que aconteceu, mas isso foi bom de acontecer, para, se caso acontecer no desfile — já que isso é normal —, estarmos preparados. São problemas técnicos, do mesmo jeito que às vezes acontecem em algumas escolas com carro alegórico ou fantasia de mestre-sala e porta-bandeira, quando solta alguma coisa. Tudo isso está propício a acontecer com todos. Tive que ir levando, mas tem algumas partes em que preciso me ouvir, principalmente de virada, onde eu uso respiração, uso ar e a massa. Tive que pedir para a Jéssica ir virando a cabeça, porque a gente divide: quando ela vira uma passada, eu viro outra. Deixei ela virar depois do recuo em diante, porque eu estava com esse problema e não queria ficar chateado de me ouvir na live cometendo algum erro. O ensaio foi maravilhoso, mas, por conta disso, eu estou um pouco triste nessa parte. Eu queria render mais, porque acabei não rendendo muito pelo fato de não estar me ouvindo. E é muito ruim o cantor cantar sem se ouvir. Mas, no geral, está tudo maravilhoso, graças a Deus. Vou te contar um segredo: eu estou usando um macete para controlar a minha ansiedade até o dia do desfile, mas eu já sei que vai ser lindo”, disse Nino.
EVOLUÇÃO
A Avenida se coloriu em um bonito tapete com a escola, que se vestiu muito bem para este último treino. Como é bom ver a Beija-Flor mostrando trabalho árduo nos ensaios de quinta-feira e no trabalho ala a ala. Ótima interação com o público, alas dançantes e coreografias pertinentes, como uma ala logo no início que nos remeteu a 2001, naquela icônica ala das pretas-velhas de Agotime. Outras, como a ala logo após o segundo carro, traziam lenços nas mãos e faziam trocas de posição, sempre dançando, mostrando alegria e sincronia, além da ala com bastões que vinha logo atrás.

Tudo muito bem ensaiado, lembrando os bons tempos com o saudoso Laíla, que sempre levava à Avenida um espetáculo com a galera de Nilópolis. Rolo compressor, evolução cadenciada, sem apresentar erros aparentes, como buracos ou alas atropelando seus espaços. Pelo contrário, tudo muito organizado e bem pensado. A escola ainda “tirou onda”: sem correr, chegou com bastante tempo no final para a Soberana ainda se apresentar nos últimos setores. A Deusa da Passarela retoma suas características com muita força.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Lorena Raissa estava deslumbrante com a fantasia definida em suas redes como “põe erva para defumar”, em tons de prateado e branco, contrastando com o azul de algumas pedras preciosas. O samba no pé da “cria” de Nilópolis está sempre em dia, e neste ensaio não foi diferente. A bateria Soberana, dos mestres Rodney e Plínio, promoveu o “paradão”, já tão característico dos ensaios técnicos da escola, em que a bateria deixa por um bom tempo apenas a escola cantando, sempre um momento de muita vibração que levanta o público. O samba campeão de 2025 não poderia faltar no esquenta, com a escola mais uma vez invocando Laíla. Na introdução do samba, mais uma vez, surgiram músicas do cancioneiro baiano, como “Ê Baiana”, de Clara Nunes, e “Marinheiro Só”, de Caetano Veloso.

“Muito feliz com a execução da bateria. Tivemos um clima adverso com a chuva, mas viemos com a afinação segura, bateria consistente. O ritmista tem que saber tocar na chuva, ou ele acaba com o instrumento. Eu não perdi nenhum surdo nesse ensaio, sinal de que os ritmistas estão bem apurados. São Pedro castigou a gente, mas irei dormir leve, feliz, ao menos por um dia, porque amanhã já volto a trabalhar, mas satisfeito com meus ritmistas, porque confio na nota máxima”, afirmou mestre Rodney.









