Por Lucas Santos, Maria Estela Costa, Juliane Barbosa, Juliana Henrik e Luiz Gustavo
Debaixo de muita chuva, a Viradouro pisou na Sapucaí neste segundo ensaio técnico com o alto padrão de qualidade a que a escola se acostumou nos últimos anos, mas colocando, mais uma vez, nesta temporada um teor significativo de emoção, componente que não poderia faltar ao falar de um personagem histórico da agremiação, que está muito vivo, ativo e trazendo notas para a escola. Com o carinho de quem quer homenagear alguém da família, a Viradouro preparou um ensaio recheado de elementos que traziam a emoção à flor da pele. Com o enredo “Pra Cima, Ciça!”, a Viradouro será a terceira escola a desfilar na segunda noite de apresentações do Grupo Especial.
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Essa grande emoção esteve presente nos passistas, na ala de bambas e nas crianças que vinham à frente da escola, uma forma de homenagear o sambista em geral, valorizando aquilo que Ciça é e foi. Também apareceu nas crianças que soltavam balões no final da apresentação do casal e nos componentes que se abaixavam no trecho “e, hoje aos teus pés”, como uma reverência. Até em pequenos gestos, como na saída da bateria do segundo recuo, quando Marcelo Calil, pai, saiu abraçado com o homenageado e ainda colocou seu chapéu no mestre Caveira.
Tudo isso banhou uma noite de alto rendimento dos quesitos, como na dança forte e emotiva do experiente casal Julinho e Rute, no canto potente da comunidade ou na comissão de frente, que manteve o padrão dos últimos ensaios, divertindo o público, mesmo não sendo a coreografia que irá para o desfile. Excelência de quesitos e padrão Viradouro mostraram, mais uma vez, a ligação entre emoção e técnica que deu muito certo.
COMISSÃO DE FRENTE
Comandados pelos coreógrafos Priscilla Mota e Rodrigo Negri, os componentes, como no primeiro ensaio técnico, valorizaram a apresentação que veio desde o mini desfile, com fantasias duplas: um terno em que, no lado vermelho, apareciam caveiras em referência ao apelido do mestre, e, no outro lado, o homenageado surgia com seu rosto e seus óculos característicos. A dança e a sincronia dos movimentos faziam a variação e brincavam com os dois personagens inseridos em uma vestimenta e coreografia que remetiam aos movimentos da gafieira.

Na cabine espelhada, a coreografia mostrava ainda mais o seu valor, pois, sem muito esforço, os componentes conseguiam interagir com o público dos dois lados da Sapucaí. A comissão trouxe o início do mestre Ciça como passista no Morro de São Carlos, traçando um paralelo com o mestre consagrado. A coreografia mostrou leveza, uma verdadeira brincadeira que, desde o início do desfile, evoca um saudosismo que estará presente durante todo o treino, valorizando o sambista ao exaltar a figura de Ciça.
“A alegria define esse ensaio. Foi um momento de lavar a alma. Hoje tivemos um ensaio muito consciente, especialmente em relação ao espaçamento. Mesmo não sendo a coreografia original, já puxamos no andamento correto do desfile e consegui cumprir todas as marcas. A chuva veio para renovar as energias. Eu amo desfilar na chuva, especialmente no ensaio técnico, porque dá uma energia diferente. Foi um ensaio muito produtivo e muito positivo para a gente. Esse ensaio foi tão bom quanto o da semana passada. A diferença é que hoje pegamos chuva logo no início, ficamos no esquenta e isso acabou trazendo ainda mais concentração. A escola estava mais focada, mas com a mesma energia positiva do outro ensaio”, comentou a coreógrafa.

“Está tudo pronto, mas sempre existem os ajustes finais. É importante pisar mais uma vez na avenida, sentir o público, porque sempre surgem pequenas questões técnicas para acertar na reta final. No geral, está tudo encaminhado. Agora é esperar a próxima vez e, se Deus quiser, entrar na avenida para buscar o campeonato. A principal atenção fica na parte técnica, principalmente por conta do risco de escorregar. Fora isso, o nível foi o mesmo da semana passada. O público compareceu, a galera estava animada e a energia foi muito boa. Agora é levar essa vibração positiva para o desfile”, citou Rodrigo.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
A dupla principal da Vermelha e Branca de Niterói, Julinho Nascimento e Rute Alves, mostrou por que é um casal tão premiado, tão esperado e que entrega sempre muitas notas para a escola. Julinho, neste ensaio, parecia incorporado e energizado, com passos muito assertivos e, ao mesmo tempo, carregados de emoção. O mestre-sala deslizava pela Sapucaí em total sintonia com o samba e com sua porta-bandeira.
Rute mostrou, mais uma vez, sua coleção imparável de giros intensos, alternados com a delicadeza do gestual e o pavilhão desfraldado com firmeza, sob total controle. O casal entregou ao público uma apresentação que soube dar o tom ao mesmo tempo saudosista e muito forte do enredo.
Com ênfase na valorização do bailado clássico de mestre-sala e porta-bandeira, a inserção de um passo de pegada mais afro no trecho do samba que canta “Atabaque mandou me chamar” teve ótima performance do mestre-sala, apresentando os movimentos com excelência e emoção.

No final, uma grande surpresa e um momento tocante: no verso “e, hoje aos teus pés”, o casal se vira para a escola e as alas se abaixam em reverência, ficando ainda mais bonito pelo fato de a ala logo atrás ser a das crianças. Na cabine espelhada, elas inclusive soltam balões em direção ao casal, finalizando de forma apoteótica a apresentação. Alto rendimento do casal.
“A gente já tem ensaiado muito aqui quando o tempo permite, porque a gente diz que não há necessidade de sair de casa para ensaiar aqui com o tempo chuvoso. E a maior dificuldade, o maior desafio em relação à cabine espelhada foi criar o desenho coreográfico. Uma vez criado, a gente já teria bastante noção e saberia aprimorar. O ensaio de hoje foi muito bom, nossa diretora artística pode falar; ela é nosso terceiro olhar e realmente observa o que aconteceu. Dentro da dança, eu te digo que foi muito bom”, disse a porta-bandeira.
“Estamos ensaiando há muito tempo, foram muitas vivências para chegar até essa coreografia: troca daqui, testa dali, tem que apresentar um pouco mais para cá. Acho que chegamos a um ajuste; há uns 15 dias chegamos ao ajuste final. Agora, qualquer ajuste é com a fantasia e com o espaço. Com relação à cabine espelhada, acho que isso só irá fazer com que a gente melhore a nossa dança, tanto a nossa como a de todos os outros casais. Vamos procurar melhorar no aspecto de comportamento; a dança seguirá a mesma para todos os casais, mas o comportamento irá mudar. E a parte mental, que é o principal. Falando de dosar, esse enredo é emoção pura, a Viradouro será emoção. É importante a gente saber dosar essa emoção, os momentos em que temos que colocar um pouco mais de vigor, suavizar as paradas, e iremos trabalhar isso junto com nossa preparadora nesta semana. Mas saímos deste ensaio com a certeza de que foi positivo e dá uma mega autoestima para o desfile oficial”, completou o mestre-sala.
HARMONIA E SAMBA
A obra escolhida pela Viradouro para este carnaval, em homenagem ao mestre Ciça, tem um caráter quase nostálgico, com um campo harmônico mais melodioso e alguns trechos de melodia comparável ao partido alto, como nos versos “lá, onde o samba fez berço, do alto do morro…”, justamente quando conta o início da paixão e da história do mestre pelo samba.
A obra segue nessa toada, permitindo que Wander desfrute de algumas realizações vocais de que ele tanto gosta, como terças e vocalizações. Com andamento agradável, a composição sempre se manteve em uma região que facilitou o canto do componente, mesmo com a chuva forte que caía na Sapucaí.

A comunidade manteve a firmeza do canto durante todo o ensaio, ainda que as primeiras alas, na cabeça da escola, por se tratarem de crianças, passistas e ala de bambas, mesmo cantando muito, cantassem um pouco menos por conta dos movimentos. Algo normal para o tipo de segmento escolhido para a abertura. No geral, o canto foi muito forte, impulsionado por um Wander extremamente focado e por um grupo de apoio muito bem ensaiado. Destaque para as vozes feitas pelo cantor no trecho de “Atabaque mandou me chamar” até “Legado do mestre Caveira”. Já em relação à comunidade, foi de arrepiar ouvir o trecho a partir de “Ciça, gratidão pelas lições que pude aprender” até desaguar no refrão de baixo “Se eu for morrer de amor”.

“O balanço do ensaio de hoje foi positivo. Apesar de o som não ter ajudado e ter falhado bastante, o que acabou atrapalhando um pouco, o desempenho da escola como um todo foi muito bom. No conjunto geral, o desfile aconteceu de forma consistente e o ensaio cumpriu o seu papel. É isso que o público pode esperar para a próxima segunda-feira, dia 16: um grande desfile, com muita emoção, muita energia e uma Viradouro com vontade de vencer”, afirmou Wander Pires.
EVOLUÇÃO
A Viradouro é uma escola de ensaio constante, o que resulta em bom controle da evolução. Neste domingo, a agremiação trouxe como estratégia uma evolução um pouco mais rápida no início, até pelo fato de a bateria entrar na pista apenas no último setor. Depois, com a bateria na pista e principalmente no final, houve uma chegada mais cadenciada à Apoteose, com os desfilantes brincando mais.
As escolhas da escola para este ano, pertinentes ao enredo, também influenciaram o quesito, tanto pelas alas mais leves no início, como as de crianças, bambas e passistas, quanto pelo posicionamento da bateria. No geral, não houve impacto no padrão Viradouro de qualidade, fazendo com que a escola evoluísse com fluidez, sem buracos ou grandes espaçamentos, e dando a oportunidade de, no final, curtir com mais calma o trabalho do homenageado.

“É lógico que, com uma chuva dessas, algumas pessoas não conseguem chegar, infelizmente. A escola fez o seu papel em termos de evolução. Hoje, eu pude perceber mais uma vez uma grande interação entre o público e a escola. A arquibancada, inclusive, onde havia pessoas que não eram torcedoras da Viradouro, também cantou o samba e dançou. Acho que isso é o que o Ciça merece, o que a Viradouro merece: um sentimento muito especial neste segundo ensaio. E tudo tem um propósito. Quando escolhemos abrir com segmentos tradicionais, passistas, as crianças, tudo estava casado com o enredo. Colocamos esses membros para homenagear o sambista e para que a abertura fosse satisfatória. Nós damos uma espécie de saudosismo aos sambistas. Recebemos vários elogios por levar essa proposta, por ter passistas, alas de bambas, as crianças. Percebemos que foi uma escolha acertada, mas tudo casado com o enredo; foi de forma espontânea, uma ideia que nasceu de acordo com o enredo”, explicou Alex Fab, diretor de carnaval.
OUTROS DESTAQUES
A Furacão Vermelho e Branco do homenageado mestre Ciça veio no último setor, com diversos componentes trazendo alguma referência às caveiras, apelido dado ao mestre. No esquenta, Wander cantou “Arroboboi, Dangbé”, campeão em 2024, e “Anita Garibaldi”, de 1999.
No início do samba, assim como nos ensaios de rua e no primeiro ensaio técnico, houve a mescla entre sambas que marcaram ou fizeram parte de desfiles importantes na vida do homenageado, da Viradouro e da Estácio de Sá, entre eles “Me dê, me dá”, “Ti-ti-ti do Sapoti” e “A Viradouro vira o jogo”. A rainha Juliana Paes esbanjou beleza e muito samba no pé ao lado do mestre, que ela encontrou ainda em sua primeira fase na escola.

“Sensacional o ensaio de hoje! O rendimento com essa chuva intensa foi excepcional. Diversos lugares alagaram, alguns componentes não conseguiram chegar e, mesmo assim, fizemos acontecer. A escola está pronta para brilhar e se preparem: o pau vai quebrar”, garantiu mestre Ciça.









