Por Lucas Santos, Luiz Gustavo, Matheus Morais, Júnior Azevedo e Marcos Marinho
O Salgueiro mostrou neste ensaio aquilo que todo mundo já sabe, mas que é sempre bom reafirmar: a Academia tem muito brio, é gigante. A Vermelha e Branca da Zona Norte ficou quase dez minutos sem som após uma falha no equipamento da Sapucaí, mas a comunidade sustentou e fez o ensaio técnico como à moda antiga, baseado no gogó do componente, pior, sem a voz do intérprete para ajudar. Não era para acontecer: o ensaio é teste para as escolas, não mais para o equipamento. Mas o Salgueiro não estava nem aí e deu uma aula de canto com garra, correção e emoção. O componente se agigantou em um ensaio no qual a comissão de frente, de muito bom gosto, assinada por Paulo Pinna, deu um brilho especial ao homenagear as icônicas bruxas de “Breazail”, da Imperatriz em 2004, e o casal Sidclei e Marcella mostrou, como sempre, dança de alto nível, com maestria e elegância. No mais, uma evolução bem cadenciada e correta da escola e uma boa recepção do público, principalmente quando percebeu a força da comunidade salgueirense.
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Com o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna de pau”, o Salgueiro vai encerrar os desfiles do Grupo Especial no Carnaval 2025.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografados por Paulo Pinna, os componentes mais uma vez vieram homenageando as icônicas bruxas da comissão de frente da Imperatriz no desfile de 2004. Destaque para a fantasia, belíssima, claro, não como aquela própria para o desfile, mas, para um ensaio, o Salgueiro esbanjou bom gosto, utilizando suas cores nesta versão; o verde também estava presente na parte de baixo da fantasia. Na coreografia, o deslocamento lembrava aquelas falanges espetaculares do saudoso Fábio de Mello, em uma formação que se movia como uma flecha. Na apresentação para o júri, a coreografia trouxe movimentos daquela comissão, mesclados com gestuais e passos que remetiam ao samba deste ano. No final, a surpresa: as saias se levantavam e, com o verde da parte de baixo combinado ao vermelho da saia, era perceptível a formação de várias rosas em alusão à homenageada. Apresentação igual à da semana passada, mas com a mesma beleza, qualidade e interação com o público. Ótima ideia e ótima realização.

“Resolvemos trazer mais uma vez as bruxas pelo sucesso que teve no primeiro ensaio técnico, com uma repercussão muito boa. Pensamos em trazer alguma outra coisa também, a ideia até estava pronta, mas achamos legal reforçar porque foi um sucesso muito grande e preferimos apostar novamente, até para que as pessoas que não puderam vir pudessem ver de novo. Foi algo muito marcante. Tivemos uma falha no som que, infelizmente, atrapalha um pouco o andamento por causa da musicalidade, mas conseguimos segurar no gogó e isso não comprometeu. Mesmo assim, a gente fica um pouco tenso, porque é um problema complicado; se acontece no desfile, dá uma desestruturada. Ainda assim, conseguimos seguir com êxito e foi ótimo. Já estamos com a nossa coreografia oficial pronta para a cabine espelhada. Acho que conseguimos atingir o nosso objetivo dentro do que entendemos ser o melhor para a gente e para o nosso trabalho. Estamos confiantes e confortáveis com a cabine”, garantiu o coreógrafo Paulo Pinna.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Sidclei Santos e Marcella Alves são uma instituição do Carnaval. É incrível o entrosamento e a relação de dança que um tem com o outro. Outra relação que merece destaque especial é a de Marcella com o pavilhão. Impressiona o domínio intrínseco da porta-bandeira nos rodopios, na forma de conduzir o pavilhão sempre bem desfraldado e em todo o gestual, valorizando o maior símbolo da escola. Apostando mais uma vez em uma dança tradicional que valoriza o bailado dos dois, seja nos “pulinhos” de Sidclei, que em determinado momento encontram a porta-bandeira, seja nos giros de alta intensidade e na postura perfeita de Marcella.

A interação rítmica com a obra também chama a atenção: cada movimento estava alinhado ao samba, às bossas e ao andamento. No trecho “Andar na Ouvidor virou caso de amor”, o mestre-sala faz um gesto de extrema delicadeza ao acariciar o rosto da porta-bandeira. Mesmo quando o som da Sapucaí apresentou problemas, a dupla iniciou a apresentação na última cabine apenas com o canto da comunidade e sustentou. Mantiveram postura e perfeição na dança mesmo quando o som voltou abruptamente, já na parte final da Sapucaí, primeiro apenas com bateria e cordas, sem a referência do canto. Ainda assim, não erraram nada. Um espetáculo de excelência técnica e muita garra.
“A gente usou os ensaios técnicos como a própria palavra diz: é ensaio, e testamos algumas coisas diferentes. Estamos ansiosos para trazer uma grande surpresa no desfile oficial. A cabine espelhada é, de fato, uma novidade que exigiu uma atenção maior na concepção coreográfica, mas já venho ensaiando desde que ela se tornou uma realidade. Então, hoje foi só vibrar com a galera, curtir esse ensaio, para que, no dia oficial, a gente consiga brigar por essa décima estrela para a nossa escola”, comentou a porta-bandeira.
“Tivemos dois ensaios. No primeiro, a pista estava totalmente seca; hoje, só o terceiro jurado estava seco. Então, a gente pôde testar a pista molhada, com lama, essas coisas. Conseguimos executar mesmo com as adversidades que a pista apresenta. De repente, no dia chove, tomara que não aconteça, mas estaremos preparados caso a pista esteja molhada. Então, foi um ensaio não de superação, mas de aprendizado”, completou o mestre-sala.
HARMONIA E SAMBA
A escola deu uma verdadeira aula de canto, principalmente no momento mais crítico, quando o som da Avenida parou nas caixas e a escola contou apenas com a bateria ao longe e o gogó do componente, que já vinha forte antes da falha e foi fundamental para sustentar, inclusive, as apresentações do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira e da comissão de frente na última cabine. Muita garra da comunidade e correção para manter o canto do início ao fim, mesmo sem o apoio dos microfones por quase dez minutos. No carro de som, Igor Sorriso e suas vozes de apoio fizeram um bom trabalho, mantendo o samba com bom astral e rendimento.
No acompanhamento das cordas, como já vinha acontecendo nos demais ensaios, a presença de um violino não atrapalhou o canto nem o desenvolvimento harmônico das outras cordas e da bateria, trazendo o tom mais clássico que a escola desejava, em sintonia com gostos estéticos e musicais de Rosa Magalhães. Os dois refrões foram bastante cantados, mas o trecho que antecede o refrão de baixo, “Mestra, você me fez amar a festa…”, foi, sem dúvida, o momento de maior explosão da escola, com o salgueirense cantando com orgulho enquanto evocava a homenageada com carinho.
“Mais uma vez foi um ensaio perfeito para a gente. Tivemos um probleminha ali no meio da avenida, na questão do som, mas eu encaro tudo isso como uma prova. A escola cantou, conseguiu manter a pegada do samba, a bateria conseguiu se manter sem o som, fazendo tudo cravado. Isso foi um teste com um resultado muito positivo para a gente. Conseguimos ver um outro lado, ter uma outra dinâmica de ensaiar cinco, seis passadas sem som, e perceber que a escola estava cantando, com uma resposta do público, e a bateria ali mantendo a pegada de andamento, de bossa, tudo cravado, mesmo sem som. Se acontecer algo no dia do desfile, espero que não aconteça, a gente já está preparado para qualquer coisa que possa vir”, disse mestre Gustavo.
“Achei melhor acontecer agora do que no dia do desfile. Como, para a gente, também é ensaio, acredito que todos os problemas sejam resolvidos até lá, de qualquer setor. Como o Gustavo falou, acho que foi importante para a gente. A galera continuou tocando, a vibração acabou aumentando, porque, na hora do desespero, você acaba puxando mais fôlego da galera. Trabalhamos andamento, trabalhamos o canto da escola também, e acho que é isso: a gente está pronto para o dia do desfile. Porque muda tudo: vem fantasia, vêm carros alegóricos… Mas, no que a gente podia fazer no ensaio técnico, acho que conseguimos entregar e estamos satisfeitos com os dois ensaios”, citou mestre Guilherme.
EVOLUÇÃO
A escola passou pela Sapucaí de forma bem cadenciada e organizada, optando por mais liberdade em vez de filas excessivamente engessadas. O salgueirense mostrou alegria e espontaneidade. Apenas algumas poucas alas apresentaram algum tipo de coreografia, todas bem integradas ao samba, sem prejudicar o andamento da escola ou limitar a liberdade dos desfilantes. Algumas alas vieram com leques, elemento muito característico de Rosa Magalhães.

A escola não teve problemas com grandes espaços ao longo da Avenida, nem com alas emboladas. A entrada e a saída dos recuos aconteceram de forma tranquila, organizada e bem-sucedida. O controle do tempo foi eficiente, permitindo que a escola atravessasse a Avenida com tranquilidade, aproveitando bastante o final e interagindo com o público. O problema com o som não interferiu na evolução; ao contrário, pareceu dar ainda mais garra ao componente.
OUTROS DESTAQUES
No esquenta, Igor Sorriso cantou “Pega no Ganzê”, “Candaces”, “Xangô”, “Ópera dos Malandros”, entre outros, em um pot-pourri com sambas marcantes, alguns apenas com o refrão, outros com trechos maiores, como “Peguei um Ita no Norte”. A rainha Viviane Araújo causou grande frisson já na entrada da bateria, quando veio sambando em uma plataforma elevada acima dos ritmistas, que seguiu pelo desfile. No elemento alegórico à frente da escola, imagens da homenageada estavam presentes, e o mascote da agremiação, o Sabiá, vestido como um nobre antigo, vinha na parte superior da alegoria.
“Cara, semana passada a gente fez um ensaio quente para caramba. Infelizmente, a gente tinha dois grupos que não são de chão, que são de carro, e que fizeram movimentações equivocadas. Eles tinham uma coreografia que parava, depois dava uma esticada, e isso acabou acelerando um pouco o fim da escola. Hoje foi completamente diferente, tão quente quanto semana passada, e acho que foi a prova final de que o Salgueiro está na disputa do campeonato. O sistema de som da avenida pegou fogo. Essa é a informação que eu tenho aqui na frente: pegou tudo, no break, ar-condicionado, tudo. Acabou o sistema de som, ficamos uns dez minutos sem som, e a galera continuou cantando, sem atravessar, só na marcação, com a referência da bateria. O casal e a comissão se apresentaram sem som, só com o público cantando. Foi emocionante. Além disso, toda a parte técnica: hoje a gente tinha um monitoramento que me permitiu ver todos os momentos, e foi tudo de acordo, mostrando que o Salgueiro está pronto. Então, é uma avaliação superpositiva, com grande expectativa para o desfile oficial. A gente termina de entregar todas as fantasias na segunda-feira. Na verdade, elas já estão prontas há bastante tempo. Nossa logística também já está pronta. Todas as fantasias que serão entregues na Sapucaí — costeiros grandes, burrinhas, tudo, já estão aqui perto, no ponto de apoio. Esta última semana é só para os últimos arremates de alegoria, alguma pintura que danificou, alguma coisa assim. A gente finalizou o Carnaval. Segunda-feira terminamos de entregar as fantasias e estamos prontos para fechar esse trabalho, se Deus quiser, com chave de ouro”, explicou Wilsinho Alves, diretor de carnaval.










