Por Luiz Gustavo, Matheus Morais, Júnior Azevedo, Marcos Marinho e Lucas Santos

A Unidos de Vila Isabel abriu a noite de ensaios técnicos no último sábado, colocando mais uma vez à prova um dos sambas mais elogiados do ano, e passou com louvor em uma apresentação quente. Marcada por um paradão no meio da avenida para um discurso de Tinga, agradecendo e chamando a força da comunidade, seguido de uma nova arrancada do samba, o ensaio mostrou uma agremiação ciente da potência que tem em mãos, entoando um ótimo samba com muita felicidade. A azul e branco também teve um casal em grande noite e uma evolução firme, mesmo com um menor tempo para cruzar toda a pista por conta da interrupção, formando um excelente conjunto pronto para dar voos altos no desfile oficial. A escola de Noel desfilará na terça-feira de Carnaval, sendo a segunda escola a pisar na Marquês de Sapucaí, trazendo o enredo “Macumbembê, Samborembá, sonhei que um sambista sonhou a África”, desenvolvido pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, estreantes na agremiação.

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“Hoje, desde a comissão de frente até os meninos que estavam soltando os fogos lá na torcida, está todo mundo de parabéns. Isso foi estudado a semana inteira para a gente fazer hoje. Tudo é muito conversado, tudo é muito estudado. Só agradecer à comunidade da Vila Isabel, ao presidente Luiz Guimarães, por acreditar sempre nas nossas ideias. Quando levei a ideia do paradão para ele hoje, falou: ‘Pô, vai dar certo’. Eu falei: ‘Presidente, acredita. Acredita que vai dar certo’. E é isso. Feliz, feliz. A Vila Isabel está pronta para, na terça-feira, a gente fazer um belo desfile. Carnaval é na pista. A gente sabe disso. A gente está brigando com outras onze. E é isso. A gente vem para brigar pelo título”, garantiu Moisés Carvalho, diretor de carnaval.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão comandada por Alex Neoral e Márcio Jahú trouxe uma coreografia composta por um grande terreiro com filhos de santo, as representações de Oxum e Xangô, além de um integrante interpretando Heitor dos Prazeres. Os orixás orbitavam em torno do homenageado enquanto rolavam momentos como uma gira e Heitor sambando no meio da roda. Uma coreografia enérgica, bem executada pelos componentes, com sincronismo e limpeza nos movimentos. A presença dos orixás foi mais estética do que de participação na parte coreográfica. O simbolismo de Heitor e a interpretação foram o ponto alto de uma boa apresentação.

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“Achei mais prazeroso, mais tranquilo, mais confiante. Acho que no primeiro a gente teve uma questão com a música, e isso interfere muito diretamente na comissão. Teve uma variação de ritmo, e hoje eu senti muito bem a bateria. Isso impacta positiva ou negativamente, e hoje foi uma delícia ouvir os bailarinos se entregarem. Essa proposta do Tinga de parar a escola foi incrível, isso mexe com todo mundo envolvido. Foi um desfile, para mim, pela comissão, memorável e histórico. A gente já está ensaiado, mesmo não tendo pessoas, às vezes, no ensaio, de um lado e do outro, mas eu acho maravilhoso para o espetáculo porque é respeitoso com todo mundo que está assistindo. Não fica uma coisa soberana para um jurado, algo específico e particular. A festa é para quem está aqui assistindo, para o público, é uma festa lateral, 360 graus. Eu já tinha proposto isso na minha comissão da sereia da Viradouro e fui penalizado por isso, porque virei para um lado e para o outro. Que bom que hoje em dia estão esperando que a gente espelhe, que a gente esteja reverenciando os dois lados. É muito bonito e generoso de nós, artistas do Carnaval, prestigiar ambos os lados, porque o público é igual. Eu acho que todo mundo é jurado, inclusive; todo mundo está dando nota e todo mundo quer ser campeão. A gente gosta de fazer bem o que é o enredo, que é Heitor dos Prazeres, esse mundo dele, e você vai ver, é isso mesmo. Tem bastante da coreografia, é mais ou menos o que é. Acaba que, com o figurino, tudo muda, mas a gente tem uma alegoria muito importante, então às vezes não pode mostrar tanto porque a gente fica refém da presença da alegoria, que hoje em dia é muito importante”, explicou o coreógrafo Alex Neoral.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Raphael e Dandara formam um casal que se comunica pelo olhar e tem uma troca de energia enorme durante a dança. Esses pontos foram evidenciados na excelente apresentação que fizeram neste ensaio técnico, em mais um quesito da Vila que primou pela força. Dandara exibiu um bailado muito elegante, com postura corporal ereta e bastante agilidade nos giros, enquanto Raphael explorou magistralmente os cortejos à sua porta-bandeira e deslizou na pista em seu bailado, como no refrão central, onde exibe um primoroso jogo de pernas, com muita ginga e agilidade. No final da série realizada, reverências a Oxum e Xangô, citados no refrão de cabeça, representando o fundamento e a energia presentes em um grande desempenho, numa apresentação muito alinhada com o homenageado Heitor dos Prazeres.

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“A única coisa que ficou para o desfile foi a fantasia. Tudo o que a gente tinha para experimentar, a gente experimentou. Agora fica a ansiedade para chegar o dia 17. Foi mágico. Na semana passada já tinha sido incrível. Hoje foi surreal; parece que a chuva veio só para nos ajudar, para lavar o que tinha que lavar, e a gente passar bem e testar tudo. A gente está pronto. Eu tenho a melhor equipe do mundo. Para mim, é mais especial ainda. Eu venho de uma lesão. No Carnaval de 2025, sob suspeitas de desfilar ou não, a gente passou muito bem, conseguindo todas as notas para a coirmã, a escola em que estávamos, à qual agradecemos muito por todos os anos que vivemos no Paraíso do Tuiuti. E agora, na Vila Isabel, um chão que é nosso, uma escola em que a Dandara cresceu, uma escola que acreditou no Raphael vindo lá da Cidade de Deus, me deram oportunidade. Foi aqui que eu apareci de verdade para o Grupo Especial. Hoje, retornar junto com a Dandara para viver esse momento é especial. Junto com essa equipe que eu tenho, com a nossa coreógrafa Cátia Cabral, viver esse momento com todas essas pessoas está sendo mágico”, comentou o mestre-sala.

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“Cada momento como esse é um sonho que nós estamos vivendo. O nosso sonho, o sonho de Heitor, o sonho da comunidade. Estamos em um momento em que estamos sonhando juntos. Trazer essa força da Vila Isabel, essa grandiosidade que ela tem, a comunidade que ela tem, é fantástico. Esse momento é muito importante. E, do nosso ensaio, estamos fechando agora um ciclo, nosso último ensaio oficial. Saímos com um saldo muito positivo, acreditando muito no que a gente trabalhou este ano, no que a gente pode amadurecer ainda mais neste processo com a Vila Isabel. Agora é fazer o momento tão sonhado, em que a mágica acontece, desejando que o desfile seja como a gente tem feito, com emoção, porque o trabalho está sendo entregue e que a gente possa aproveitar cada minuto”, completou a porta-bandeira.

EVOLUÇÃO

As primeiras alas pisaram com muita força na avenida, seguindo assim até o último módulo, chegando ao fim com tranquilidade mesmo com a parada durante o ensaio. A ala das baianas chamou a atenção pelo vigor e ginga com que evoluíram pela pista, além do rodar característico. Durante os dois blocos de evolução da escola, divididos pela parada para uma nova largada já no meio da pista, o avançar da Vila pela avenida foi de um ritmo enérgico e constante, com as alas quicando na Sapucaí, componentes trocando de posição, erguendo os braços, realmente desfilando e não apenas passando pelo sambódromo. Um andamento forte que não sofreu queda; pelo contrário, a parte final da escola foi uma apoteose de uma azul e branco que sambou, brincou e foi feliz em um excelente ensaio em termos de evolução. A Vila Isabel encerrou o seu ensaio com 79 minutos.

HARMONIA E SAMBA

O excelente samba da Vila Isabel passou com um andamento mais à frente do que o costumeiro, impresso pela bateria do mestre Macaco Branco. Quando o andamento estava se assentando, a escola fez a parada para o discurso do intérprete Tinga e, na relargada, o pique voltou forte e assim foi mantido até os últimos minutos de ensaio. Essa pegada, apesar de em alguns momentos valorizar menos as variações melódicas da obra, proporcionou um desempenho mais explosivo, o que impactou no canto da escola, que foi mais visceral, sem quedas durante todo o ensaio.

Na segunda metade, após a parada, o canto atingiu seu ápice nos dois refrãos e manteve ótimo rendimento nos demais versos. O refrão de cabeça levantou os componentes. Apesar dessa mudança rítmica na execução, o samba confirmou sua qualidade e suas credenciais, potencializando o canto da escola, que não apresentou alas destoando no quesito. Mais um grande desempenho de Tinga, que sabe fazer um samba render na Sapucaí como poucos, e de seus apoios.

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“Ficamos muito emocionados, muito felizes. A gente está muito feliz com a nossa comunidade. A gente conversou lá no barracão e resolveu dar esse presente para aquelas pessoas que vêm no fim da escola, que não têm oportunidade de escutar o nosso grito de guerra, o começo da escola, a emoção da escola no início de tudo. E também agradecer a esse público maravilhoso, que muitas vezes não tem oportunidade de vir no dia do desfile. Estamos felizes demais e resolvemos parar e, graças a Deus, deu tudo certo. As pessoas entenderam a nossa proposta de parar, que é só para celebrar realmente o samba. A gente é muito feliz pela nossa cultura e está muito feliz com a nossa escola e, se Deus quiser, vamos fazer um grande desfile”, afirmou o intérprete Tinga.

OUTROS DESTAQUES

A Vila Isabel esbanjou beleza em seu time de musas, liderado por Dandara Oliveira, de ligação histórica com a escola, mostrada na paixão com que desfila e se entrega na avenida. A ala de baianas, além de toda a garra demonstrada na evolução, veio muito bem vestida.

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Fotos: Divulgação/Rio Carnaval

“Ah, foi maravilhoso, graças a Deus. A bateria veio com uma pegada muito firme, muito segura, fazendo esse samba, que é maravilhoso, funcionar perfeitamente. Até porque ele é meio arredondado, né? Não tem como não fazer esse samba funcionar muito bem. Então a gente tem que ter muito cuidado para não atrapalhar o samba; é só tocar para fazer ele fluir bem na avenida. E hoje teve o paradão. O Tinga fez um discurso. A gente combinou de fazer isso esta semana. Falamos: ‘O que a gente pode fazer?’. Quando a gente faz o discurso, geralmente a escola está toda na Presidente Vargas, e lá não tem som. Que adianta fazer um discurso ali para, de repente, meia dúzia de pessoas? Tivemos a ideia de, quando a escola inteira estivesse na avenida, parar, ele fazer o discurso e a gente voltar no mesmo lugar. E, sobre a questão do retorno e do som nesse segundo ensaio técnico, para a bateria foi muito bom. A BMX está de parabéns; é uma empresa maravilhosa, que está chegando com tecnologia, com muita coisa boa e nova para valorizar cada vez mais o maior espetáculo da Terra”, explicou mestre Macaco Branco.