Por Guibsom Romão, Marielli Patrocínio, Matheus Morais, Júnior Azevedo e Luiz Gustavo
No seu segundo ensaio técnico, a Unidos da Tijuca levou à Marquês de Sapucaí e mostrou que está preparada para a caminhada rumo ao Carnaval 2026. Em um ensaio marcado por simbolismo e emoção, a escola transformou a Sapucaí em palco de resistência ao exaltar a trajetória de Carolina Maria de Jesus. Com uma comissão de frente potente e majoritariamente feminina, um casal de mestre-sala e porta-bandeira que uniu técnica e entrega, um samba cantado em coro consciente e uma evolução segura, ainda que cadenciada, a Tijuca apresentou um conjunto coeso, no qual narrativa, estética e identidade caminharam lado a lado. Entre livros erguidos, punhos cerrados e versos que ecoaram como manifesto, a escola reafirmou a força de seu enredo e deu sinais de que pode emocionar no desfile oficial. A agremiação encerra os desfiles da segunda-feira de carnaval com o enredo “Carolina Maria de Jesus”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira.
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COMISSÃO DE FRENTE
Composta por 11 mulheres trajando vestidos em amarelo e azul e quatro homens com figurinos em tons de bege, a comissão de frente da Unidos da Tijuca, sob a direção coreográfica de Ariadne Lax e Bruna Lopes, traduziu em movimento a força simbólica do enredo. Mais do que executar passos, o grupo construiu uma narrativa corporal potente. Punhos cerrados, gestos amplos e expansivos, expressões densas: as bailarinas não apenas dançam, elas dramatizam a trajetória de Carolina Maria de Jesus, a catadora de papel que transformou a própria vivência em literatura e conquistou, pela palavra, o seu lugar ao sol.
A apresentação tem início no verso “Sou a liberdade, mãe do Canindé”. Nesse momento, a pivô se adianta ao módulo dos jurados e se apresenta como Carolina. O gesto do punho erguido, recorrente ao longo da coreografia, ganha múltiplos significados: luta, resistência e reivindicação. É um símbolo que atravessa a encenação e sintetiza a essência da homenageada.
O protagonismo é assumidamente feminino. Enquanto os homens, ao fundo, desfraldam uma bandeira com a imagem de Carolina e a inscrição “A luta continua”, as bailarinas retiram de seus bolsos exemplares de Casa de Alvenaria. O livro, erguido ao alto como antes o punho fechado, transforma-se em instrumento de manifestação. A palavra passa a ocupar o lugar do grito; a literatura, o espaço da denúncia.
No desfecho, a pivô abre a saia e revela a frase “Quem inventou a fome são os que comem”, síntese da crítica social que permeou tanto a vida quanto a obra de Carolina. Seja como catadora, seja como escritora, sua luta sempre foi contra a fome física e estrutural.
Na cabine espelhada, a coreografia assume forma circular, ampliando a percepção dos movimentos e conferindo tridimensionalidade à apresentação, o que valoriza ainda mais o desenho cênico pensado pelas coreógrafas.

Em suma, foi apresentada a mesma coreografia da semana anterior, com igual vigor, carga emocional e execução segura. Pela prévia, é possível projetar que a versão oficial tem tudo para emocionar a Sapucaí e reafirmar a potência narrativa da comissão tijucana.
“Nossa coreografia permaneceu a mesma da semana passada. Obtivemos êxito no dia de hoje, cumprindo o que estamos desenvolvendo há mais de três meses nesses exaustivos ensaios. Assim, hoje concluímos com sucesso aquilo que viemos propor e realizar nesta noite”, comentou Bruna.
“Nós optamos por fazer o que já vínhamos repetindo nos ensaios de rua e o que fizemos no primeiro ensaio técnico. Optamos por repetir a coreografia e há, sim, alguns spoilers do que virá no desfile oficial. Temos elementos, obviamente, para engrandecer o espetáculo e a história de Carolina, para ser contada da melhor forma”, completou Adriane.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Assim como a comissão de frente, Matheus Miranda e Lucinha Nobre cruzaram a Marquês de Sapucaí com a missão clara de emocionar e cumpriram. O figurino do casal não era apenas indumentária, mas discurso. No terno de Matheus, inscrições e referências à homenageada; no vestido de Lucinha, uma saia construída a partir de colagens de imagens, papéis e livros que remetiam diretamente ao universo de Carolina Maria de Jesus. Havia ali simplicidade estética, mas, sobretudo, densidade simbólica. A vida e a obra da escritora estavam costuradas em cada detalhe.
Um dos momentos mais tocantes acontece no verso “Aos barracos do Borel”. Ao som desse trecho, Lucinha abraça o pavilhão com delicadeza e intensidade, em um gesto que transcende a coreografia e se transforma em declaração de amor ao morro que dá origem à escola. É um abraço que carrega pertencimento, memória e identidade.

Durante toda a apresentação, Lucinha dançou com a bandeira plenamente desfraldada, exibindo-a com imponência e executando suas tradicionais bandeiradas com firmeza e segurança. Há técnica, mas há também entrega.
Matheus, por sua vez, riscou a avenida com elegância e precisão. Seguro nos movimentos, cortejou sua porta-bandeira com destreza, conduzindo a dança com leveza e domínio do espaço. Juntos, formaram um conjunto harmônico, no qual técnica e emoção caminharam lado a lado, reafirmando a capacidade do casal tijucano.
Lucinha Nobre declarou: “Hoje a gente veio mais devagar, no ritmo da fantasia. Semana passada a gente ‘botou fogo’. Esta semana, tentamos vir no ritmo da fantasia, do que queremos entregar semana que vem. A gente sabe que semana que vem é o resultado final de tudo o que vem sendo trabalhado desde abril. Não tivemos férias. Começamos a trabalhar em maio para chegar nisso que estamos apresentando aqui. Ensaiávamos duas vezes por semana, de forma solitária, eu e Matheus, com a ajuda da Ariadne também, que pegou nosso trabalho no início junto com a Gabriela. Depois fomos crescendo… aí chegou a Camille, que veio de Portugal, ela já trabalha comigo há muito tempo. Estamos nesse processo de busca da perfeição e do entrosamento. Todo mundo falava que a gente não tinha muito entrosamento. Existe muito preconceito com casal que está começando, e é muito difícil recomeçar. Mas a história da minha carreira como porta-bandeira é essa: eu nada fiz além de recomeçar. Não tenho vergonha nenhuma da minha trajetória; muito pelo contrário, tenho muito orgulho. Tenho orgulho de ter caminhado até aqui, de ter honrado todos os pavilhões pelos quais passei, de ser querida. Hoje tinha muita gente da Mocidade aqui e eu recebi o carinho dessas pessoas. Estou muito, muito feliz. Acho que meu reencontro com a Tijuca, 15 anos depois, tinha que acontecer. E, como leitora de Carolina Maria de Jesus quando adolescente, eu me sinto parte dessa história, desse enredo. Hoje fiz questão de assinar o nome de vários componentes, diretores, pessoal de ala, bateria, cantores, todo mundo assinou essa blusa, porque aqui a gente traz a palavra da Carolina Maria de Jesus. Quero dizer também que essa roupa foi feita pela Érica Modesto, idealizada pela Érika, com confecção da Ágatha Lacerda. Estou muito feliz e orgulhosa”.

Matheus afirmou: “Emoção. É o que define a Tijuca hoje. A escola está de peito aberto e recebeu esse enredo da mesma forma. Todo mundo comprou a ideia, todo mundo está feliz, comemorando tudo ao mesmo tempo. É uma mistura de sentimentos, porque representar e falar de Carolina não é mole. Representar toda a sua história, suas obras… é incrível compartilhar esse momento. Entrei muito emocionado e, quando deu a largada, eu incorporei. Incorporei a história da Carolina, o personagem, todas as mulheres pretas que lutaram. É isso que vou fazer até o desfile: incorporar e emocionar”.
EXPECTATIVA PARA O DESFILE OFICIAL
Lucinha: “Eu espero que faça jus a tudo o que a gente trabalhou, porque trabalhamos muito. Eu só quero que as pessoas olhem, vejam e reconheçam. Que entendam e curtam como eu estou curtindo”.
Matheus: “Que venha logo. Todo mundo está ansioso, com o coração acelerado, o ano inteiro pensando nisso. Estar aqui é uma oportunidade única. Espero o ano inteiro para viver esse momento e estou ansioso para chegar aqui e compartilhar minha felicidade, minha emoção e meu sorriso”.
SAMBA E HARMONIA
Com a introdução de Lissandra Oliveira, cantora de apoio da escola, dizendo: “Sou Carolina Maria de Jesus, aquela que venceu a fome, reescrevendo o Brasil”.
O ponto alto do samba na avenida acontece quando ele se aproxima do pré-refrão e desemboca no refrão principal: “Sou a liberdade, mãe do Canindé / muda essa história, Tijuca”. A reação da comunidade é instantânea. A melodia cresce, o canto ganha corpo, impulsionado pela pulsação da bateria e pela condução segura do carro de som.
No paradão da bateria com o carro de som, o silêncio rítmico abriu espaço para um dos momentos mais arrebatadores do ensaio. De longe, ecoou forte o verso “Sou a liberdade, mãe do Canindé”. A frase atravessou a Sapucaí como um chamado.
Além de estar na ponta da língua, o samba da Tijuca é cantado com vontade e ânimo por sua comunidade, que o projeta da maneira que o enredo pede.
Marquinhos ArtSamba, em mais uma noite, fez uma apresentação exemplar e correta. Em um samba que não pede cacos nem brincadeiras, conduziu com maturidade e segurança.
Em suma, foi um coro que vibrou com consciência do que estava sendo dito. O gesto coletivo transformou o trecho em manifesto, fazendo da avenida um grande ato simbólico de resistência e afirmação.
“Hoje foi bem melhor. Às vezes a gente executa algo e não sai como o esperado; uma coisa é um ensaio de rua, outra é aqui na Marquês de Sapucaí. Geralmente executamos algumas coisas nos ensaios de rua para testarmos aqui; pode dar certo como pode dar errado. Na semana passada tentamos algumas coisas que não deram certo; hoje procuramos manter mais a cadência, cantar o samba mais reto, porque o samba pede. É um samba bonito. Só tenho que agradecer a essa rapaziada maravilhosa que está junto comigo. O som hoje foi muito bom; no início falhou um pouco, o fone não estava muito legal, mas depois se acertou, tudo dentro do que eles combinaram com a gente”, afirmou Marquinho Art Samba.
EVOLUÇÃO
Diferentemente do ensaio anterior, a Unidos da Tijuca apresentou uma evolução mais controlada e linear. As alas cruzaram a avenida com notável alinhamento, mantendo espaçamentos regulares e um ritmo cadenciado, mais desacelerado. A fluidez esteve presente, mas a escola optou por atravessar a Sapucaí com o “pé no freio”, administrando cada setor com cautela.
Não houve intercorrências nas transições, tampouco problemas nas entradas e saídas dos recuos de bateria, o que demonstra organização e domínio do tempo de desfile. Ainda assim, percebeu-se que, nos minutos finais, a escola manteve essa contenção de forma ainda mais acentuada, prolongando o andamento e encerrando o ensaio aos 74 minutos.
“Foi a nossa última oportunidade de pisar aqui antes do desfile oficial. Foi importante para testarmos algumas coisas que identificamos no último ensaio e que precisavam de ajustes, especialmente nas questões de evolução e harmonia. Fizemos o dever de casa e aproveitamos o ensaio de hoje para realizar esses ajustes. Agora vamos fazer um ensaio com a comunidade no Borel, que é sempre muito importante para a escola, porque pegamos o axé lá do morro para levar à avenida. A comunidade comprou a ideia do enredo e do samba. A escola está cantando muito, e acredito que a emoção será a marca do nosso desfile. A comunidade já está recebendo as fantasias, feliz da vida. Estamos entregando tudo com tranquilidade, o barracão também está pronto. Estamos preparados para fazer um grande desfile, à altura da Tijuca e à altura de Carolina”, explicou Elisa Fernandes, diretora de carnaval.
OUTROS DESTAQUES
Outras alas desfilaram com livros nas mãos, elemento simbólico que se integrou com naturalidade à proposta do enredo. O gesto simples de erguer ou conduzir o livro durante o canto reforçou a ideia da palavra como instrumento de transformação.

Um dos momentos mais delicados e cativantes veio com o terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por duas crianças. A presença dos pequenos trouxe leveza e esperança. O detalhe da chupeta amarrada na ponta do pavilhão é um gesto singelo, mas carregado de simbolismo: mistura de inocência, tradição e continuidade. Uma cena que reforça que o futuro da escola aprende, desde cedo, a amar e respeitar o seu pavilhão.
MESTRE CASAGRANDE
Balanço do ensaio: “Primeiramente, gostaria de agradecer ao meu presidente. Nesta semana, solicitamos alguns ajustes e ele prontamente nos atendeu, mostrando que não é apenas um gestor administrativo, mas também um grande gestor de pessoas. Quero parabenizar o presidente Gabriel David e toda a equipe pela melhoria no som, além de agradecer todo o esforço da Liesa. Falando da bateria, foi maravilhosa. Acho que conseguimos cumprir todas as metas que traçamos lá no nosso ensaio de rua e na quadra. Trouxemos isso para o ensaio técnico e o desempenho foi muito satisfatório. Fizemos as bossas onde queríamos, a bateria sustentou o samba o tempo inteiro e o entrosamento com o carro de som foi perfeito. O balanço é muito positivo”.
Expectativa para o desfile oficial: “A expectativa é a melhor possível. Estamos trabalhando muito, a bateria está focada, o grupo está muito unido. Sabemos da responsabilidade que é defender as cores da nossa escola, mas estamos preparados. Semana que vem é o dia de colocar em prática tudo o que ensaiamos nesses meses todos e, se Deus quiser, buscar a nota máxima e colocar a Tijuca no lugar que ela merece”.









