Em outubro de 2025, a Acadêmicos de Vigário Geral se deparou com um grande obstáculo: o incêndio em seu barracão. Naquele momento, a escola já havia iniciado os preparativos para o Carnaval — tinha os chassis das alegorias, as madeiras necessárias e até esculturas. Porém, com o fogo, houve perda total. A agremiação não teve muito tempo para se lamentar; afinal, o Carnaval se aproxima e a necessidade de retomar os trabalhos o quanto antes falou mais alto.

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Em 2026, a escola levará à Sapucaí o enredo “Brasil Incógnito: o que os seus olhos não veem, a minha imaginação reinventa”, idealizado pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, com o intuito de recontar a história do Brasil a partir da perspectiva dos monstros e seres mitológicos criados pelos colonizadores. Nessa narrativa, essas figuras são os verdadeiros heróis do país, pois, sem elas, não existiria o famoso “jeitinho brasileiro”. A história será apresentada de forma cômica e sarcástica, sem deixar de lado a crítica proposta.

Durante visita do site CARNAVALESCO a uma das alegorias, Alex e Caio falaram sobre os preparativos e as expectativas para o Carnaval 2026.

“Foi uma missão muito grande se reestruturar. Primeiro, processar tudo o que aconteceu. A gente estava com o barracão bem encaminhado, em um andamento muito bom. O Carnaval não estava pronto, mas estava tudo muito adiantado: madeira, ferragem, escultura. Tivemos um prejuízo muito grande e tivemos que processar tudo muito rápido. Não tivemos tempo de sofrer. O próprio Caio fala que ainda não teve tempo de chorar toda aquela perda. Foi um baque enorme, mas tivemos que virar a chave. Não podemos abaixar a cabeça — e nem é o nosso perfil fazer isso, nem o da Betinha. Em nenhum momento ficamos nos lamentando. Erguemos a cabeça e vamos botar o Carnaval na rua”, disse Alex Carvalho.

Caio Cidrini detalhou os desafios logísticos:

“A gente planejou carro, desenhou carro, fez escultura, comprou escultura. Já estávamos com dois carros na madeira — o que, para outubro, é bem adiantado na Série Ouro. Quando pegou fogo, não podíamos nem entrar para retirar nada. E, mesmo se conseguíssemos, teríamos que reconstruir toda a parte mecânica, o que seria muito caro. O primeiro passo foi correr atrás de chassis. Conseguimos um na Estácio, um na Maricá e um no Salgueiro. Depois, percebemos que o mais difícil não era isso, mas encontrar espaço. Tentamos terrenos, buscamos apoio da prefeitura e da Liga. Conseguimos fazer o carro da Estácio no próprio barracão deles, outro próximo à Maricá e um no Arranco. Trabalhar em três lugares ao mesmo tempo muda projeto, estrutura e gera custos de logística. Não tem sido fácil, mas estamos satisfeitos com o que estamos construindo e vamos passar competitivos.”

Apesar da tragédia, a dupla destaca o fortalecimento da comunidade, que tem sido fundamental no processo.

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“Diante da tragédia, tentamos enxergar o lado positivo. Isso deu um gás na escola. A comunidade se comoveu, as pessoas estão somando. Todos abraçaram a situação. Isso fortaleceu o projeto e nos fez acreditar em algo ainda maior”, afirmou Alex.

Caio completou:

“Toda a equipe já estava com a gente antes do incêndio. Existe um sentimento de doação maior. É uma montanha-russa de emoções, mas hoje, olhando para o que estamos produzindo, acredito que podemos manter o nível ou até superar o ano passado.”

A ideia do enredo surgiu anos atrás, a partir de anotações de Caio.

“Eu já tinha esse enredo há muito tempo. Quando surgiu a oportunidade, fomos pesquisar e percebemos que era contemporâneo, com aspecto decolonial e irreverente, algo que combina com a Vigário.”

Sobre a abordagem estética e narrativa, Alex explicou o equilíbrio entre crítica e humor:

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“A gente traz irreverência para dialogar com a crítica. Passamos por três biomas — litoral, floresta e sertão — sempre equilibrando estética bonita, crítica e leveza.”

Caio acrescentou:

“Poderíamos ter sido mais agressivos, mas encontramos humor nessa narrativa. Transformamos o olhar preconceituoso do colonizador em caricatura.”

O grande trunfo, segundo eles, será conseguir colocar o desfile na Avenida com qualidade, apesar de tudo.

“Chegar inteiro já será nossa coroação. Estamos caprichando muito, mesmo com três barracões e logística monstruosa.”

A dupla também aposta no samba-enredo como peça-chave do desfile, fruto de maior aproximação com os compositores neste segundo ano.

Nas fantasias, prometem leveza com volumetria variada, apostando em cores fortes e leitura visual clara.

Entenda o desfile

A Vigário Geral apresentará três alegorias, passando por três biomas brasileiros — litoral, floresta e sertão — com 17 alas e cerca de 1.200 a 1.300 componentes.

Setor 1 – Litoral: estética marítima, com caravela híbrida e criaturas fantásticas.

Setor 2 – Floresta: invasão europeia, imaginário indígena distorcido e alegoria com movimentos inspirados em Parintins.

Setor 3 – Sertão: sincretismo religioso, estética de cordel e o Cramulhão como herói simbólico.

O desfile ressignifica os “monstros” como símbolos da formação cultural brasileira, defendendo que a história de um país também é a história de suas criaturas imaginadas.