Os carnavalescos Braulio Malheiro e Gleydson Castro falaram ao CARNAVALESCO sobre o enredo “As Viagens de Arlindo – Minha Loucura é Ser Artista”, da União do Parque Curicica, escola da Intendente Magalhães, que homenageia Arlindo Oliveira, artista plástico que ressignificou os desafios da saúde mental no Ateliê Gaia, localizado na Colônia Juliano Moreira, em Curicica (Zona Oeste do Rio de Janeiro). O espaço foi um dos maiores e mais antigos complexos manicomiais do Brasil, inaugurado em 1924 para abrigar pacientes psiquiátricos.

“O enredo não é nosso. O enredo é do professor Nilton Gamba Jr., da PUC. Ele teve contato com o Arlindo por muitos anos e fez uma exposição de obras dele na própria PUC. A partir disso, levou esse enredo para a escola. Nós setorizamos e fizemos a sinopse”, explicou Braulio.
“Todo o processo criativo partiu da gente junto com ele, para construir essa narrativa ali na Intendente”, complementou Gleydson.
O grande destaque do enredo
Para os carnavalescos, o maior trunfo está no resgate do território e das histórias que ele produz.
“Falar dele já é um grande trunfo, porque a ideia do enredo é falar da localidade, resgatar esse lugar, que é a região da Colônia, ali em Curicica, com bairros muito próximos. O enredo é, na verdade, olhar para dentro de si, para dentro dos artistas que a comunidade produz. Por mais que o Arlindo não seja nascido ali, ele viveu a vida naquele local”, afirmou Gleydson.
Braulio pontuou que Arlindo se tornou parte do imaginário popular da região. “Existem histórias folclóricas sobre ele em Curicica, como a do boi que ele matou, um mito que assombrava o bairro. Quando ele saiu com a cabeça do boi, tornou-se, para ele e para os moradores, o herói de Curicica”.
Gleydson ressaltou a importância de mostrar a criatividade que existia dentro da Colônia.
“Também mostramos todo o processo artístico que aconteceu durante o período em que ele esteve internado. É engrandecedor falar disso e mostrar para o mundo que ali existia uma semente artística, como Bispo do Rosário, Estela do Patrocínio, Arlindo de Oliveira e tantos outros do Ateliê Gaia. Muita gente conhece o Bispo do Rosário, mas a colônia produziu muitos artistas visuais e também vocais, como Estela do Patrocínio. Existe uma potência artística enorme ali, na Zona Oeste, em Jacarepaguá, que muitas vezes passa despercebida. Hoje ainda existem artistas atuando lá, no Ateliê Gaia, com diversas vertentes. A colônia, que nos anos 60 e 70 chegou a ter mais de três mil pessoas internadas, hoje é um espaço que respira arte e vida. Nos anos 80 e 90 havia ali um espaço voltado para o carnaval. Escolas levavam alas para serem produzidas junto com os internos. O carnaval sempre esteve presente naquele espaço”.
Braulio lembrou o estigma histórico do local e a necessidade de ressignificação, destacando personagens fundamentais dessa história e fazendo um convite:
“Jacarepaguá, por muito tempo, foi conhecido como o ‘bairro dos loucos’. No final, fazemos uma homenagem ao centenário da Colônia Juliano Moreira, que completa 100 anos, destacando essa contribuição artística que ela deu e ainda dá para a cidade do Rio de Janeiro. Quem ainda não conhece o museu que existe dentro da colônia, vale muito a pena visitar. Durante as visitas, descobrimos também que Dona Ivone Lara foi terapeuta ocupacional e enfermeira de saúde mental, e que ela, junto com Nise da Silveira, ajudou a romper com o estigma do manicômio, trabalhando com pintura e música para resgatar os internos”.
A parte plástica e estética do desfile
Visualmente, a União do Parque Curicica promete evolução em relação ao último carnaval.
“A gente aumentou a escola em relação ao último desfile. Como a escola saiu da posição 11, trouxemos fantasias mais altas, sempre respeitando o espaço da Intendente Magalhães. Utilizamos materiais que favorecem a luminosidade, como muito acetato, para potencializar o brilho. As alegorias terão mais cenografia e menos pessoas”, explicou Braulio.
Gleydson adiantou que a estética nasce das próprias referências do território:
“Todo esse processo artístico é alimentado pelas referências que encontramos naquele local. Queremos entregar para a comunidade uma escola bonita, com volume, uma estética interessante, buscando o grande objetivo, que é o título e o retorno à Sapucaí”.
Desafios da Intendente Magalhães
Para driblar as dificuldades financeiras e estruturais, o reaproveitamento é palavra-chave.
“Inicialmente, olhamos tudo o que a escola tinha do último carnaval: materiais que sobraram, bases, cores. Aproveitamos tudo o que foi possível encaixar no novo projeto. Trabalhamos com métrica muito certinha, comprando exatamente o necessário e evitando desperdício”, contou Braulio.
Gleydson explicou que o processo envolve garimpo e resumiu a filosofia da dupla:
“Também trabalhamos com doações, sempre deixando clara a nossa assinatura estética.”
Braulio reforçou: “Reaproveitar não significa que alguém verá fantasia do ano passado. Nosso processo é técnico e artístico ao mesmo tempo. Sabemos quanto custa cada fantasia. É um trabalho pensado também no bolso da escola. A escola está feliz com o enredo, a comunidade está orgulhosa. Falar do próprio bairro é muito significativo para eles”.
Assim, a União do Parque Curicica dá luz a uma história rica da cultura brasileira que surgiu — e segue viva — na Zona Oeste carioca através da arte.









