O CARNAVALESCO conversou com Thayssa Menezes e Pedro Duque, carnavalescos da Acadêmicos da Abolição, e eles contaram detalhes do enredo “Chão é Gente: Cultivar, Cultuar e Colher Ancestralidade”, que será o tema do desfile deste ano na Intendente Magalhães.

Segundo os dois, a temática foi inspirada nos ideais de Nego Bispo e Ailton Krenak, representantes dos saberes quilombolas e indígenas, respectivamente, e propõe uma reflexão afro-indígena sobre a relação entre humanidade, terra e ancestralidade, já que tudo o que envolve nossa cultura e saberes sociais veio desses povos originários e foi se transformando ao longo do tempo.
“A gente estava pensando inicialmente em abordar as ideias do Nego Bispo, mas achamos que poderia ser uma boa convergência juntá-las às ideias do Ailton Krenak. Então pensamos nesse enredo justamente a partir da posição desses dois autores, refletindo essa visão afro-indígena e como ela pode trazer uma outra forma de enxergar a terra, pensando o ser humano como parte da natureza”, contou Thayssa, sobre como surgiu a ideia do enredo.
Pedro complementou, explicando como a narrativa também dialoga diretamente com a história da escola, já que o carnaval é uma festa formada, até hoje, pela comunidade afro-indígena: “Em 2026, a camisa acadêmica da Abolição completa 50 anos. Então, trazer o nosso chão, o chão da escola de samba, confluindo com todas essas ideias do Ailton Krenak e do Nego Bispo, foi uma grande junção que fizemos pensando em valorizar esse chão que é nosso”.
O grande destaque do enredo
Na opinião de Thayssa, o grande trunfo está na forma como o ser humano, em geral, precisa enxergar o conceito de terra. Para ela, é preciso pensar fora da caixa.

“A gente tenta pensar essa terra não só como espaço de cultivo, mas também como espaço de celebração, como um lugar que fornece outros tipos de saberes. Não é exatamente indígena, nem um enredo ‘afro’ no sentido tradicional, mas como essas visões podem gerar uma materialidade e uma experimentação diferentes”.
Pedro concorda com essa ideia e afirma que, apesar de temas como chão e colheita já serem recorrentes no carnaval, a proposta da Abolição é outra.

“A gente quer trazer uma outra vertente de pensamento, tanto visual quanto conceitual. Acho que esse é o nosso grande trunfo para o Carnaval do ano que vem”.
A parte plástica e estética do desfile
Sobre a estética do desfile, Pedro adianta que a narrativa também será construída visualmente a partir das cores e da luz, conectando-se ao carnaval apresentado pela escola em 2025.
“O nosso desfile parte de uma escolha cromática muito clara. Ele começa mais escuro e vai, aos poucos, quase amanhecendo, caminhando para essa clareza. Tivemos vontade de vir mais grandiosos no sentido de volumetria este ano. É uma continuidade do trabalho do último carnaval, de trazer uma Abolição muito rica e grandiosa, como ela merece ser”.
Desafios da Intendente Magalhães
Ao falar das dificuldades de realizar um carnaval na Intendente Magalhães, Thayssa destacou a relação com a escola como um ponto fundamental.
“A nossa agremiação nos dá muita estrutura de trabalho no sentido de liberdade criativa, de confiar na gente, no que a gente quer apresentar e experimentar. Essa construção entre a nossa equipe e a escola funciona muito bem.”
Pedro encara esse desafio como um estímulo criativo e uma oportunidade para experimentar novas técnicas artísticas.
“A gente sabe que existem dificuldades, como todas as escolas da Série Prata, mas é aí que mora a criatividade: pegar o mínimo e transformar no máximo. É nesse espaço que a experimentação com materiais não usuais entra em cena, para conseguir apresentar um trabalho imponente e grandioso.”
Com muita pesquisa, sabedoria e emoção, o desfile da Acadêmicos da Abolição virá para provar que o carnaval é mais do que um espetáculo visual. Com esse enredo, a escola convidará o público a refletir sobre uma nova forma de pensar a vida a partir da ancestralidade e dos saberes naturais, lembrando que também fazemos parte da natureza, mesmo que nos esqueçamos disso no dia a dia.









