Na construção do Carnaval, há temas que contam histórias e há aqueles que escavam o tempo, desenterram memórias silenciadas e as devolvem à Avenida como afirmação política, estética e identitária.
Em “Berenguendéns e Balangandãs”, enredo da União de Maricá para o Carnaval 2026, Leandro Vieira escolhe o segundo caminho. Criado pelo carnavalesco, o desfile transforma a joia produzida por mãos pretas em linguagem de resistência, autonomia e orgulho ancestral, reposicionando o corpo feminino negro no centro da narrativa carnavalesca.
Em seu segundo ano na escola, Leandro explica que o enredo nasce de um processo contínuo de escuta, descoberta e entendimento do lugar simbólico que a União de Maricá ocupa no Carnaval.

“É o meu segundo ano na escola e, na verdade, como todo processo de construção, a gente vai descobrindo. Vai descobrindo junto com a escola o que é possível fazer para contribuir para a construção do imaginário da União de Maricá. Não é um processo fechado, é um processo de troca, de observação e de entendimento do que essa escola pede e do que ela pode se tornar. Acho que a União de Maricá é uma jovem escola e considero fundamental que essa jovem escola tenha um discurso de ancestralidade, principalmente hoje, fazendo parte de um grupo onde existem escolas ancestrais. Você está em um grupo que tem o Império Serrano, a Estácio de Sá, a União da Ilha e a Unidos de Padre Miguel. São todas escolas com marcas ancestrais e identitárias muito fortes. Então, acho bonito a Maricá saber onde está pisando. E, sabendo onde está pisando, considero importante que ela entre nesse contexto louvando aspectos ancestrais”, declarou.
Segundo ele, os dois carnavais que assina na escola dialogam diretamente com essa consciência.
“O carnaval do ano passado e o deste ano apontam para a construção de uma escola que demonstra que sabe que onde pisa é um território sagrado, cheio de ancestralidade. São dois enredos que demonstram reverência, respeito e uma vontade muito clara de pegar na mão dessas escolas ancestrais e construir junto algo que discursa sobre ancestralidade”, afirmou.
Dentro desse percurso, “Berenguendéns e Balangandãs” aprofunda um pensamento que já vinha sendo gestado anteriormente.
“Esse enredo aprofunda uma ideia de ancestralidade que o enredo do Seu Sete da Lira, Exu das encruzilhadas, já inicia na construção da minha cabeça. É um aprofundamento, não é uma ruptura”, explicou.
A história que a história não conta
Durante a pesquisa, Leandro identificou no balangandã um objeto carregado de sentidos invisibilizados.

“O que acho mais interessante nesse enredo é que ele dialoga com a ideia da história que a história não conta, algo que eu já tinha trabalhado na Mangueira em 2019. Porque, apesar de estarmos falando de um artefato conhecido visualmente, seu significado foi esvaziado ao longo do tempo. As pessoas, em geral, têm muito mais na cabeça a ideia do balangandã como um artigo decorativo, quase turístico da Bahia. Mas conhecem pouco a história de ancestralidade que essa peça carrega, os porquês de sua existência e a finalidade real de seu uso”, afirmou.
Para Leandro, o balangandã confronta diretamente o imaginário construído sobre o corpo negro no Brasil.
“Quando a gente pega um artefato que aponta para a construção do corpo negro, mas principalmente do corpo feminino negro como lugar de luxo, de ostentação e de riqueza, estamos enfrentando uma construção histórica que sempre associou esse corpo ao flagelo, à miséria e à dor”, disse.
Ele destaca que, mesmo diante da violência da escravidão, essas mulheres construíram estratégias de autonomia.
“Apesar das amarras sociais e dos horrores da escravidão, essas mulheres conseguiram construir uma luta individual que aponta para a autonomia, para o luxo e para o acúmulo de riqueza. E isso é algo que foi sistematicamente apagado da nossa narrativa histórica. Muitas mulheres pretas, na condição de escravizadas, conquistaram a liberdade antes da Lei Áurea. O Brasil ainda não sabe que muitas alforrias foram compradas por essas mulheres que, além de se libertarem, libertaram companheiros e filhos. Imaginar que mulheres pretas, no século XIX, deixaram heranças, joias e colares de ouro é fundamental para a construção de uma ideia de orgulho e pertencimento. Ainda há muita história de afirmação para ser contada”, pontuou.
Beleza, resistência e inteligência ancestral
No desfile da União de Maricá, o balangandã surge como síntese de beleza, luxo e resistência. De acordo com o carnavalesco, a peça funcionava como um verdadeiro mecanismo de sobrevivência.

“O balangandã conta uma história de beleza, de ostentação e de riqueza, mas também de resistência. Era uma espécie de cofre que se carregava junto ao corpo, uma poupança levada consigo. São técnicas e saberes de resistência diante dos horrores da escravidão e daquilo que era imposto socialmente a essas mulheres”, contou.
E tudo isso se refletirá diretamente na estética do desfile.
“É uma estética luxuosíssima, metálica, que apresenta mulheres pretas cobertas de ouro. Uma estética que fala de poder, autonomia e afirmação”, disse.
Um enredo feminino para uma escola feminina
Ao apontar o grande trunfo do enredo, Leandro destaca a identificação direta com a comunidade. Para ele, “Berenguendéns e Balangandãs” funciona como um manifesto feminino.
“Percebi nesses dois anos que a comunidade da Maricá é uma comunidade feminina. Cada vez mais mulheres formam o corpo comunitário das escolas de samba. Quando você traz um enredo que é um manifesto feminista, que aponta para empoderamento, essa ideia de resistência e autonomia não só permeia o imaginário do componente, como faz parte da história particular dele. Quando uma escola se apropria do discurso do enredo, canta com mais pertencimento. E uma escola com pertencimento tem mais vontade e mais credenciais para fazer algo grande”, destacou.
O desenho do desfile
O desfile da União de Maricá será estruturado de forma narrativa e simbólica. A abertura apresenta as negras quitandeiras, mulheres fundamentais no Brasil colonial, responsáveis por gerar a renda que possibilitou o acúmulo de joias.

Na sequência, o enredo mergulha nos antecedentes do balangandã, passando pela influência das joias portuguesas, pela expertise dos negros malês na forja do metal e pela relação do artefato com Ogum, senhor da forja. Leandro também destaca a tradição africana de se cobrir de joias.
“Há relatos como o da rainha Nzinga de Matamba, que, ao vencer uma guerra, desfilou coberta de joias de ouro e latão”, lembrou.
O terceiro setor apresenta a individualidade de cada peça que compõe o balangandã: figa, estrutura metálica, dentes de animais e pingentes ligados aos orixás.
O encerramento exalta o empoderamento feminino.
“Mulheres pretas cobertas de joias, senhoras autônomas de sua própria história. Mulheres que compraram a própria alforria, que conquistaram a liberdade com as próprias mãos”, afirmou.
O samba como ferramenta de ressignificação
No samba-enredo, Leandro vê mais uma camada de discurso político e simbólico.
“O samba da Maricá conta o enredo de uma maneira muito inteligente”, avaliou.
Entre os versos, um ganha destaque especial.
“Se eu tivesse que destacar uma frase, seria ‘claro, tinha que ser preto’. Essa frase ressignifica uma expressão racista e a transforma em afirmação de pertencimento, de inteligência, de poder e de empoderamento. Ela subverte qualquer aspecto racista que essa expressão possa carregar”, explicou.
Conheça o desfile
A União de Maricá levará para a Marquês de Sapucaí um desfile composto por três alegorias, além do tripé da comissão de frente, e cerca de 1.600 componentes, organizados em setores que constroem uma narrativa de luxo, resistência e ancestralidade.
Em 2026, a escola transforma a joia em discurso, o brilho em memória e o corpo feminino negro no centro absoluto da cena. Na Avenida, “Berenguendéns e Balangandãs” reafirma que o Carnaval também é lugar de reescrever a história preta — agora com ouro, ostentação e pertencimento.










