Se recuperando de um Carnaval conturbado em 2025, quando um incêndio atingiu o barracão e a escola desfilou como hors concours, o Bangu promete reescrever sua história em 2026. Com enredo forte, carros imponentes e samba na ponta da língua, a escola celebrará a vida da cantora e deputada Leci Brandão com o enredo “As Coisas Que Mamãe Me Ensinou”, idealizado pelos carnavalescos Lino Salles, Alexandre Costa e Marcos Du Val. Em visita do site CARNAVALESCO, Alexandre Costa detalha que a escolha do enredo nasce da força da figura de Leci Brandão.

“Nós já tínhamos esse enredo guardado há bastante tempo. E quando veio a proposta da escola de fazer um enredo forte, um enredo que desse uma sacudida no Carnaval, nós propusemos Leci Brandão. A presidência e a diretoria abraçaram, amaram o enredo, e aí fomos atrás da autorização da Leci para poder fazer — e conseguimos. Ficamos muito felizes”, disse.
Ele ressalta, ainda, que o grande trunfo do desfile é a própria cantora — sambista consagrada, deputada e ícone de lutas políticas como o combate ao racismo, a causa LGBT e o empoderamento feminino, além de ter sido a primeira mulher a integrar a Ala de Compositores da Mangueira.
“Falar de Leci Brandão é complicado, porque ela é uma mulher que fez inúmeras coisas. Vamos tentar representar o máximo possível. A gente tentou pegar um pedacinho de cada momento da vida dela para levar para a avenida. E é Leci Brandão, né? Eu acho que trunfo melhor não tem”, afirmou o carnavalesco.
Além de tema que abrirá o desfile no primeiro setor da escola, Alexandre destaca a espiritualidade de Leci como uma das grandes descobertas sobre a vida da sambista. Presente em sua obra e em sua trajetória política, esse aspecto ganha destaque no enredo. O carnavalesco revela que um caboclo foi o grande responsável por uma reviravolta na vida da artista.
“Uma das curiosidades foi quando lemos a biografia e conversamos com a família dela. A Leci começou a fazer música e, do nada, parou. A vida dela meio que estacionou. Aí ela foi apresentada ao Caboclo das Ervas, e essa entidade deu uma reviravolta na vida dela. A partir daí, ela começou a fazer mais sucesso, deu a volta por cima. Foi uma grande descoberta, algo que eu não sabia e acho que a maioria das pessoas também não sabia. Depois disso, ela foi para Angola, começou a fazer sucesso e, quando voltou, passou a lançar uma série de músicas ligadas à religiosidade”, compartilhou.
O samba-enredo
O samba potente que embalará o desfile, composto por Dudu Nobre em parceria com outros renomados compositores do Carnaval, foi abraçado pela comunidade e recebeu a melhor chancela possível: a aprovação da própria homenageada. Para o carnavalesco, a obra foi a escolha ideal para contar a história.

“O samba-enredo encaixa certinho no nosso enredo. Ele conta exatamente essa história toda da Leci. Ficamos muito felizes, a comunidade gostou muito do samba, porque é um sambão, um sambasso. E a Leci também aprovou, gostou muito, está super feliz”, contou ao CARNAVALESCO.
Plástica do desfile
Trabalho e segredo imperam no barracão, no Caju, Centro do Rio. Cola, pó de gesso, equipes em movimento e cuidado extremo com cada detalhe das esculturas marcam o ambiente. A um mês do desfile na Sapucaí, o espaço está tomado por alegorias que se destacam pelas cores, pelo brilho e por esculturas expressivas, grandes e bem-acabadas.
Alexandre Costa revela que a escola virá com alegorias maiores do que nos anos anteriores e que o abre-alas terá 23 metros de comprimento. O carro trará os pais espirituais de Leci, Ogum e Iansã, além de uma alusão aos pais carnais da artista, baseada em uma foto inédita cedida pela família. A infância, a juventude e a vida adulta da homenageada serão representadas em esculturas distribuídas pelas três alegorias que a escola levará à avenida. O carnavalesco também destaca que as alegorias e fantasias terão leitura fácil para o público.
“Eu, Lino e Marcos temos uma marca: achamos que o público precisa entender o nosso trabalho, a mensagem que queremos passar. Sempre tentamos traduzir na fantasia aquilo que queremos comunicar. As fantasias são, ao meu ver, de fácil leitura. A pessoa vai olhar e pensar: ‘essa é tal música’, ‘isso está falando de tal assunto’. A gente busca essa leitura direta. Além disso, são fantasias leves. A comunidade adorou. Mostramos protótipos, e eles amaram. Estão bem felizes”, explicou.
Conheça o desfile
Sambista que deu voz à icônica canção Zé do Caroço, deputada há 20 anos em São Paulo, primeira mulher a integrar a Ala de Compositores da Mangueira, pioneira da causa LGBT — sendo a primeira artista da MPB a se declarar lésbica publicamente nos anos 1970 — e filha de Ogum e Iansã, Leci Brandão tem um legado múltiplo a ser celebrado. Para contar essa trajetória, o Bangu levará à avenida cerca de 2.000 componentes, distribuídos em 19 alas e 3 alegorias.

Setor 1
“Nós começamos com o nascimento e a espiritualidade de Leci. Na comissão de frente, traremos a parte musical da artista, com trechos da coreografia que vem sendo apresentada nos ensaios, além de um tripé com o qual os bailarinos interagirão durante a apresentação.”

Setor 2
“No segundo setor, entramos mais profundamente na parte musical. Tramos músicas como Me Anarquiza, Mas Não Me Esquece. Também abordamos as inspirações melancólicas, já que ela conta que muitas vezes se inspirava em sua vida amorosa para compor. Essa dimensão afetiva estará presente. E Zé do Caroço, claro, não pode faltar. Escolhemos a dedo uma ala para representá-la.”

Setor 3
“No terceiro setor, fechamos com a parte política. Vamos trazer as causas mais fortes que ela defende: a causa LGBT, o combate ao racismo, as causas indígenas e femininas. Tentaremos representar da melhor forma possível essas lutas que ela abraça. Também convidamos algumas pessoas especiais que fizeram parte da trajetória dela.”









