Após o temporal, surge o arco-íris, e o pote de ouro parecia estar concentrado na Avenida Ministro Edgar Romero, em Madureira. Foi ali, na quadra do Império Serrano, que a escola realizou seu último ensaio de rua, na noite da última quarta-feira. Mesmo depois da grande chuva que caiu sobre a cidade do Rio de Janeiro poucas horas antes do ensaio, o Reizinho de Madureira manteve sua agenda e mostrou o empenho de sua comunidade, que compareceu e festejou o fim da temporada de ensaios de 2026.

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Fotos: Bianca Faria/CARNAVALESCO

Com um dos enredos mais emocionantes do ano, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves, a escola traz uma homenagem à escritora Conceição Evaristo, celebrando sua obra, a “escrevivência”, e a resistência das mulheres negras com “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu”. Com muita celebração e alegria, a escola compartilhou ao longo do ano diversos momentos de conexão e troca com a homenageada, e não poderia ser diferente nos últimos momentos antes do grande dia. Acompanhando todo o processo, Conceição Evaristo falou do tamanho da emoção de ter sua história contada no maior espetáculo a céu aberto do mundo.

“Para mim é uma emoção muito grande perceber o tamanho do poder da literatura. Eu acho que, quando a literatura atinge o povo, ela sai dos lugares ditos consagrados; é porque o povo percebe a literatura como direito. Então, para mim, está sendo essa experiência: viver a literatura como direito no meio do povo”, expressou lindamente a autora.

Após um grande ensaio técnico na Sapucaí, os componentes voltaram animados, e a escola seguiu corrigindo os últimos detalhes para o desfile oficial, que acontece no dia 14 de fevereiro, na Passarela do Samba. O intérprete oficial da escola, Vitor Cunha, reforçou que o último ensaio foi apenas de ajustes e refinamento, e que o Carnaval acontece, de fato, na avenida.

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“A diretoria é incansável, fazendo aquilo que pode e o que não pode com pouca verba, pessoas ajudando, carro de som daqui também fazendo aquele show com a bateria do mestre Sopinha. E agora é esperar: carnaval acontece na avenida, tudo pode acontecer. O Império Serrano está pronto para vir para as cabeças no Grupo Especial. A gente já tem o que a gente quer, agora é só refinar. É só terminar o resto das fantasias, que estão praticamente prontas; o barracão está lindo, maravilhoso. O trabalho do pessoal do barracão também é fundamental, incansável. Só agradecer a todos que participaram direta e indiretamente dessa confecção do carnaval do Império Serrano para 2026″.

Quarta escola a desfilar no sábado de carnaval, o Império Serrano levará para a avenida um desfile construído a partir de referências históricas e culturais de Evaristo, traduzidas em suas alegorias, coreografias, fantasias e no canto da comunidade, que vai buscar conduzir, em perfeita harmonia, a narrativa proposta pelo enredo.

COMISSÃO DE FRENTE

Formada apenas por mulheres, a comissão da verde e branco traz, em sua coreografia, passos firmes e bem marcados, com giros, movimentos de braços e trocas de posição, deixando clara e compreensível para o público a proposta da dança. As integrantes cantam alto e firme, parecendo colocar para fora toda a força da história de Conceição, além de trazerem objetos representativos na coreografia, como baldes e panos. Itens que fazem parte da encenação, como o balde sendo erguido à cabeça em determinados momentos, ganham protagonismo quando representam trejeitos de lavadeiras, sacudindo, batendo e “torcendo” o pano.

A coreografia pode ser vista no momento em que é cantado: “Não é fácil emergir nesse contraste/Benevuto, a maldade não quer me ver sorrir/No refúgio desses becos e vielas/De mãos dadas com Sabela/Eu só quero ser feliz/O Rio que me acolheu me ensinou também a florir/Vi muita gente de lá no rosto negro do povo daqui”.

A comissão traz também uma figura central, uma bailarina que está sempre à frente ou no meio das demais e que provavelmente representa a figura homenageada. Quando é cantado “Sou eu quem dá voz à caneta que silencia o fuzil. Me torno imortal no Livro Brasil. Malungo! Que Negro-Estrela possa ser reconhecido. Sem o choro de um futuro interrompido. Por todo preto, escreviver!”, a dançarina que representa Conceição Evaristo ergue um grande lápis e um livro para o público, com as demais ao redor, reafirmando a importância da literatura na história da autora e do povo preto.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Criados no chão imperiano, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Machado e Maura Luiza, vai defender o pavilhão com um bailado sincronizado, de quem sabe o que está fazendo e busca os quarenta pontos do quesito. O casal apresenta uma dança clássica e atemporal, marcada pelos passos rápidos de Matheus e pelo gingado e expressividade de Maura, que demonstra isso no trecho “É kizomba de preta literatura…”, em que a porta-bandeira executa passos fortes que remetem a danças afro, representando a ancestralidade do povo e da literatura preta.

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Em meio à ansiedade para o grande dia, o casal falou sobre o ensaio técnico e a expectativa para a Sapucaí: “Graças a Deus, fizemos um excelente ensaio técnico, tenho certeza plena disso. Em uma hora a gente entregou muito. Estamos trabalhando, está tudo lindo, perfeito e dentro do planejado. E agora é só esperar o desfile, a gente já está pronto para o desfile”, contou Matheus Machado.

A dupla também garantiu que a única surpresa será a fantasia, preferindo manter a dança dentro do modelo clássico de mestre-sala e porta-bandeira. “Eu não sou muito de surpresa, a gente ensaia bastante e ficar gravando duas coreografias na cabeça não dá. A surpresa é só a fantasia mesmo, que é lindíssima, inclusive”, falou o mestre-sala.

Com 14 anos de experiência como segunda porta-bandeira, Maura falou da ansiedade para o desfile. “Vamos fazer uma apresentação digna do que o Império merece. Fizemos um bom ensaio técnico, vamos ajustar o que precisa ser ajustado, porque a gente quer melhorar sempre a nossa apresentação. Eu estou bem ansiosa e com pensamento positivo de que vai dar tudo certo”, disse Maura Machado.

O último ensaio demonstrou que o casal tem segurança e confiança para buscar os quarenta pontos do quesito e está pronto para mostrar seu bailado para a comunidade e para o público presente na Passarela do Samba, no desfile oficial.

HARMONIA E EVOLUÇÃO

A escola passou alegre, cantando bem o samba, ponto inclusive destacado pelo intérprete Vitor Cunha como um dos principais fatores para a boa temporada do Império Serrano. Com os componentes passando soltos, brincando e cantando, a escola evoluiu de forma leve. O destaque vai para as alas das baianas e da velha guarda, que foram, notavelmente, as alas que passaram mais felizes, cantando e dançando, mantendo a harmonia em alta e levantando o público com sua animação, além do uso de adereços como chapéus e turbantes, que complementaram visualmente a apresentação.

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Mesmo sem o uso de tripés para a demarcação das alegorias, a escola não deixou buracos nem precisou correr. Os componentes passaram organizados e brincando Carnaval, sob os olhares atentos dos diretores de harmonia, que corrigiam as fileiras, mas não engessaram o desfile.

SAMBA

Mesmo cantando forte, o tom do canto da escola pode ser elevado para que tenha mais impacto, considerando o tamanho da Sapucaí. Com um carro de som imponente e vozes marcantes, o samba foi cantado pelos componentes e por parte do público. Entretanto, incentivos para levantar o público durante o samba fizeram falta, já que poderiam ter ajudado a elevar a frequência do canto e contribuir para a evolução.

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A bateria, comandada por Felipe Santos, mostrou estar preparada para atravessar a Sapucaí. Durante todo o aquecimento, os ritmistas mantiveram um ritmo elevado, projetando o som com intensidade para o público presente. No momento do ensaio, a bateria apresentou firmeza na execução, com intensidade sonora alta, e sustentou o desempenho ao longo do percurso.

Confiante no resultado apresentado no ensaio técnico, mestre Felipe ressaltou o empenho da bateria e afirmou que a expectativa é repetir o desempenho no desfile oficial, com o objetivo de agradar o público e alcançar uma boa pontuação para a escola.

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“Trabalhamos bastante, tivemos bastante ensaio, nos dedicamos e foi isso. Foi cansativo, mas foi prazeroso. E vamos fazer um belo trabalho, como fizemos no ensaio técnico. É o que vamos repetir no dia do valendo mesmo. Eu acho que vai dar tudo bom, vai dar tudo certo, vai ser bom, vai ser gostoso o desfile, e eu pretendo agradar o público, para a escola ganhar nota, que é o mais importante para mim e para a escola”, afirmou Felipe.

OUTROS DESTAQUES

À frente da bateria, Quitéria Chagas reinou de forma absoluta e honrou o solo sagrado, respeitando e interagindo com o público, além de mostrar seu lendário samba no pé. Ganha destaque também a ala que trazia a capa de um livro nas mãos, com a frase do samba “casa de preto também é literatura”, reafirmando a força da literatura preta no enredo. Assim como a ala das passistas, que se destacou e chamou atenção por ser majoritariamente formada por mulheres negras, assim como os musos e musas da escola, algo que demonstra que a negritude imperial está enraizada e não se restringe apenas a cumprir as necessidades do enredo.