Que lugar melhor para se exaltar um dos principais símbolos do sincretismo religioso do que um sambódromo? Será nesse espaço em que as mais variadas crenças se unem que a Imperatriz da Paulicéia desfilará no Carnaval de 2026 com o enredo “Congá, o Altar Sagrado da Minha Fé”, assinado pelos carnavalescos Leandro Santana, Fran da Vila e Francis Santos.

O congá é o nome dado ao altar dos terreiros de algumas religiões de matriz africana, onde imagens religiosas de diferentes origens se unem para algo que vai além da veneração. É um espaço físico carregado de memórias que jamais devem ser esquecidas, pois remete a um passado de duras provações, quando africanos submetidos ao cativeiro utilizavam imagens de santos católicos para poder cultuar as entidades de suas próprias crenças. O costume se mantém até hoje como forma de gratidão a esses seres sagrados, sendo um poderoso símbolo do chamado sincretismo religioso.
Planejamento de longo prazo
A Imperatriz vem se destacando, nos últimos anos, por enredos voltados à cultura brasileira. Em entrevista ao CARNAVALESCO, Leandro Santana explicou que, ao chegar à escola para o Carnaval de 2026, o enredo já estava definido pela presidenta Mara como forma de exaltar a fé da agremiação, cujo elemento central tem relação direta com essa identidade cultural.
“Já era de interesse da escola abordar, em um enredo, a espiritualidade da Imperatriz, levar isso para o campo da exaltação. O enredo surge como uma vontade da própria agremiação, é um enredo interno. Quando analisamos a trajetória da Paulicéia, tanto na UESP quanto no Anhembi, percebemos uma coesão entre seus enredos e uma preocupação constante em valorizar as manifestações culturais do Brasil, o que se tornou uma identidade da escola”, contou.

Em 2026, a Imperatriz preservará a linha de enredos culturais, que fazem parte de uma característica da escola de planejar seus desfiles a longo prazo. Desta vez, o enredo também tratará da religiosidade como elemento central de sua narrativa, transformando o congá em símbolo da identidade espiritual da agremiação.
“Essa perspectiva se manterá, mas com foco na religiosidade da própria Imperatriz, sob um viés mais afetivo. O congá, entendido como altar sagrado, é um tema presente no universo carnavalesco, mas possui especificidades em cada escola. Ao levá-lo para a Avenida, a ideia é mostrar o lado afetivo da espiritualidade da Imperatriz da Paulicéia, considerando todo o seu contexto histórico e social para falar da fé da própria escola”, completou o carnavalesco.
Leandro explicou que os direcionamentos da abordagem do enredo já estavam pré-determinados como uma iniciativa coletiva de uma equipe veterana da agremiação que compõe a Comissão de Carnaval.
“O Fran e o Francis já fazem parte da Imperatriz da Paulicéia há bastante tempo, e o caminho narrativo do enredo já estava bem construído. O meu processo foi dar embasamento a essa ideia: olhar para o que a escola tinha em mãos e sustentá-la conceitualmente do ponto de vista histórico, social e discursivo. Quando se fala em sincretismo religioso, muitas vezes existe uma visão romantizada, como se tivesse sido um processo harmônico, e sabemos que não foi assim. Foi um processo conflituoso, marcado pela resistência da população negra, o que hoje se evidencia no protagonismo dos orixás nos congás espalhados pelo Brasil”, disse.
Uma característica que demonstra o profissionalismo da Imperatriz da Paulicéia é a valorização da inspiração dos compositores. Outrora protagonistas da construção dos desfiles, os sambas passaram a se tornar submissos à sinopse na maioria das escolas. Apesar de o texto teórico ser a base da construção da letra, houve diálogo entre carnavalescos e poetas para otimizar o conteúdo que será levado aos jurados.

“Minha preocupação foi construir um enredo com discurso coerente e respeitoso aos processos históricos que constituem o congá. A partir disso, elaboramos a sinopse e a enviamos aos compositores. Após a escolha do samba-enredo, fizemos ajustes no enredo para dialogar com a poética do samba, entendendo como ele poderia enriquecer a narrativa. Foi um trabalho de troca, sem hierarquia entre os quesitos, buscando levar o melhor conjunto possível para a Avenida”, contou Leandro.
Questionado sobre o motivo de a Imperatriz optar por essa estratégia de trabalho, o carnavalesco exaltou o caráter coletivo do processo de construção do Carnaval. “A ideia é exatamente essa. Nós trabalhamos no coletivo. Um desfile de escola de samba é pensado de forma conjunta. Não tem como cada quesito caminhar sozinho. É preciso olhar para o todo, para o que é melhor para a escola e para o espetáculo como um conjunto”, afirmou.
A complexidade histórica em torno do sincretismo religioso exige cuidados na construção narrativa do desfile. Leandro explicou que as limitações impostas pelo formato mais enxuto do Grupo de Acesso II também influenciaram as escolhas da Imperatriz da Paulicéia.

“É um tema delicado, pois não queríamos mostrar apenas a violência e a opressão, mas também não romantizar o sincretismo como se fosse um processo harmônico. Foi um percurso conflituoso, marcado pela resistência da população negra. Como o desfile do Acesso II é mais curto, optamos por evidenciar o protagonismo dos orixás nos congás como um ato de resistência e de afirmação da religiosidade afro-brasileira”, explicou.
Imperatriz: um congá em plena Avenida
O desfile da Imperatriz da Paulicéia será dividido em dois setores. O primeiro, classificado por Leandro Santana como “pré-setor”, terá a função de contextualizar a narrativa do enredo para que o público compreenda os elementos apresentados a partir do carro Abre-alas.
“O desfile como um todo será um grande cortejo, no qual a escola apresentará na Avenida os santos que compõem o seu congá. Antes dessa procissão, faremos uma contextualização da formação histórica do congá no Brasil. O início do desfile traz elementos do sincretismo religioso e da resistência afro-diaspórica, criando a ambientação desse congá que desfila em cortejo na sequência. Esse trabalho inicial está concentrado na comissão de frente e nos elementos que antecedem o Abre-alas. Temos uma cênica de comissão de frente maravilhosa, assinada por Paulinha Penteado, que está fazendo um trabalho incrível e que desenvolve essa contextualização, evidenciando o sincretismo religioso”, detalhou.
O congá da Imperatriz passará pela Avenida por meio das alegorias e das alas, que farão referência às deidades tradicionalmente presentes nos congás em todo o Brasil. Trata-se de um setor que apresenta ao público o lado mais intimista da agremiação, revelando o orgulho da escola em relação à sua fé.
“A partir do Abre-alas, entramos na procissão dos santos que compõem o congá da escola. Essa é a parte mais afetiva do desfile. O congá é muito pessoal, pois é um altar construído de acordo com a fé e o sentimento de cada pessoa, de cada terreiro e de cada instituição. O Abre-alas faz referência a Ogum, o padroeiro da escola. É como se a Imperatriz da Paulicéia estivesse pedindo licença e saudando seu padroeiro para poder contar o enredo. Em seguida, a procissão dos orixás se desenvolve até o segundo carro, que coroa esse universo simbólico e reafirma a presença dos orixás no desfile. Quando falamos em santos, estamos nos referindo a todas as deidades: santos do catolicismo, entidades da Umbanda e orixás dos candomblés e das religiões de matriz afro-brasileira. A forma como esses santos são representados nos congás é muito íntima e emocional. Esse setor revela, na Avenida, o lado mais íntimo da escola de samba, a relação da agremiação com a sua fé. Por isso, é um segmento marcado por muito sentimento e emoção”, explicou o carnavalesco.
Trunfo enraizado na essência de ser uma agremiação
Mesmo nos grupos superiores, há escolas de samba em que a definição como grêmio cultural e social deixou de ser prioridade há muito tempo. A realidade atual da Imperatriz da Paulicéia, porém, evidencia uma agremiação que prioriza o bem-estar da comunidade ao seu redor. Atender às demandas da população permite atrair novos adeptos, que, na visão de Leandro Santana, são pilares essenciais para o sucesso na Avenida.
“Eu acredito que a Imperatriz da Paulicéia é uma escola muito organizada e comprometida com o próprio ideal. A cada ano, a comunidade compreende melhor o seu papel no Carnaval e a relação com o bairro. É uma escola atuante, com ações sociais constantes e uma quadra que funciona como espaço democrático. Ela se comporta, de fato, como um Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba, fortalecendo-se de dentro para fora, o que é a base de qualquer agremiação”, avaliou.
Quanto à produção dos desfiles, a compreensão da própria identidade tornou-se fundamental para o amadurecimento organizacional da Imperatriz nos últimos anos.
“Quando observamos os quesitos, também percebemos uma equipe de criação muito forte e organizada. Os últimos desfiles mostram consistência na produção das alegorias, no desenvolvimento dos enredos e na concepção das fantasias. A Imperatriz construiu um estilo visual robusto, elegante e limpo, que vem sendo aprimorado ano após ano, e esse processo fortalece a identidade da escola. Quando uma agremiação consolida uma forma própria de fazer Carnaval, a tendência é evoluir continuamente para entregar desfiles cada vez melhores. O trunfo da Imperatriz está justamente nisso: compreender sua identidade e lapidá-la para apresentar um desfile honesto com sua trajetória e também com o regulamento e as exigências do Carnaval de São Paulo na atualidade”, destacou Leandro.
O carnavalesco também fez questão de ressaltar uma figura fundamental da Imperatriz da Paulicéia como trunfo da escola na busca por um grande resultado no Carnaval de 2026.
“Também gostaria de destacar a bateria da escola. Hoje, a Imperatriz conta com a mestra Rafa, uma das grandes artistas do Carnaval brasileiro. Desde sua chegada, ela imprimiu uma característica musical própria à agremiação, algo realmente singular. A forma como a bateria conduz esse cortejo é muito emocionante e representa um dos pontos altos do desfile, capaz de sensibilizar não apenas a comunidade da Paulicéia, mas toda a comunidade do samba”, concluiu.
Ficha técnica
Enredo: “Congá, o Altar Sagrado da Minha Fé”
Alegorias: 2 carros + 1 tripé
Alas: 11
Diretor de barracão: Francis Santos
Diretor de ateliê: Fran da Vila
Recado de Leandro Santana para a comunidade da Paulicéia
“Eu vou dizer que é para a comunidade da Paulicéia ter consciência da sua importância e da importância do seu enredo, não só para o Carnaval, mas para a vida de cada um. Cada enredo que nós levamos para a Avenida, para além de um protocolo, para além de uma competição, carrega mensagens e discursos que temos a intenção de fazer com que toquem o íntimo de cada um. Que cada um olhe para o nosso desfile, olhe para o que a escola está fazendo na Avenida e se permita ser tocado pela nossa mensagem. Nós estamos levando um enredo que é muito afetivo e, ao mesmo tempo, carrega um discurso muito sério, sobretudo em momentos atravessados pela intolerância religiosa. É um enredo que, apesar de afetivo, carrega muita potência. Eu acredito que a comunidade da Paulicéia pode ficar muito feliz e muito orgulhosa do que vai levar para a Avenida. Tudo é feito com muito respeito, muito carinho e também com muito embasamento.”










