O primeiro ensaio técnico do ano da Viradouro na Marquês de Sapucaí foi marcado não apenas pelo excelente desempenho técnico do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Rute Alves e Julinho Nascimento, mas também por momentos de intensa emoção e demonstração de força. O casal entrou na avenida logo após Julinho receber uma notícia pessoal extremamente delicada e, mesmo diante da dor, ele demonstrou profissionalismo, dedicação e profundo respeito à escola. Julinho foi fortemente amparado por Rute, pela comunidade e por toda a Viradouro. Esse apoio e sensibilidade renderam elogios sinceros da porta-bandeira, que falou sobre a agremiação com imensa gratidão.

“Eu tenho 30 anos de carnaval e o Julinho tem 36. Talvez hoje tenha sido a maior prova que nós tivemos que dar como profissionais e como respeito à nossa escola, a esse público e ao nosso mestre. E, com isso, independentemente das situações coreográficas, eu dou nota 10 para o nosso ensaio, sem modéstia. E não estou me referindo apenas à coreografia. A Viradouro é realmente uma escola diferenciada. Infelizmente, porque o que ela é deveria ser unanimidade entre todas as outras, independentemente de situação financeira. Eu não estou falando em cifras, falo de respeito, de apoio, de um contribuir, um ajudar, um torcer pelo outro. Quero agradecer muito à nossa diretoria, aos Marcelos e ao Kiko, que deram a oportunidade de nós dois não ensaiarmos hoje, principalmente o Julinho. E, ainda assim, nós entramos na avenida fazendo o nosso papel.”
Quando se fala em emoção, é impossível não lembrar do enredo da Viradouro para este carnaval, que homenageia o mestre de bateria Ciça, o lendário “Mestre Caveira”, figura histórica da escola e agora celebrado em vida. Ao comentar o samba-enredo, Julinho não poupou palavras para exaltar o legado do homenageado, deixando evidente sua admiração pelo mestre, tanto como símbolo do carnaval quanto como ser humano.
“Eu acho que não só nós, mas todos da Viradouro nos sentimos homenageados. Todos nós nos sentimos Ciça, todos nós somos um Ciça na avenida. Quem conhece e convive com ele sabe exatamente quem é o Ciça.
Cada um está deixando um pouquinho do Ciça na dança: nas características, na personalidade dele, nesse jeito brincalhão e, principalmente, no ser humano que ele é.
Só quem conviveu com ele, sejam diretores ou ritmistas, sabe o ser humano que o Ciça é. Cada um de nós quer deixar uma emoção a mais, um algo a mais nesse desfile. Esse desfile vai ser por ele. Independentemente do resultado da Viradouro — que todos nós queremos, com respeito a todas as coirmãs — vai ser uma grande comoção, uma grande emoção. Não só os desfilantes da Viradouro, mas todo sambista e todo o Sambódromo vão se emocionar com essa homenagem ao Ciça.”
Questionados sobre a responsabilidade de, por mais um ano, defenderem o pavilhão vermelho e branco e sobre a busca pelos tão desejados 40 pontos, o casal fez questão de destacar o comprometimento com a escola.
“Acredito que a gente permaneça por tantos anos dançando e defendendo a bandeira pelo nosso profissionalismo. Estar tanto tempo à frente do pavilhão, com a escola acreditando que eu e Julinho podemos honrar essa responsabilidade, é algo muito grandioso. É muita honra, é muita gratidão: à minha fé, a tudo que me guia e à minha irmandade com o Julinho. Ano passado tivemos um êxito maravilhoso em relação aos resultados, mas acreditamos que isso acabou na quinta-feira depois da Quarta-feira de Cinzas. Na quinta-feira, zera tudo. Estamos ensaiando mais do que ensaiamos no ano passado, nos dedicando ainda mais para continuar ajudando a nossa escola a ser campeã”, afirmou Rute, visivelmente emocionada.
No aspecto técnico, Julinho comentou as mudanças provocadas pela cabine espelhada e como elas exigem ainda mais atenção e entrega dos casais durante a apresentação.

“O que muda é a exigência de estarmos o tempo todo atentos, não só aos jurados, mas aos dois lados da pista. Isso nunca foi uma preocupação tão grande, porque sempre existia uma atenção maior à cabine julgadora, o que acabava sendo vantajoso para quem estava daquele lado. Hoje, precisamos dançar e apresentar o pavilhão para os dois lados. Mesmo a dança sendo circular e cíclica, existem momentos em que estamos mais voltados para um lado do que para o outro, dependendo de onde o jurado esteja. Com a cabine espelhada, essa preocupação é constante durante toda a apresentação. Eu acho que o público ganha com isso e, nessa adaptação, entendemos que é muito mais valoroso apresentar para os dois lados.”
Em um dos momentos mais marcantes da entrevista, Julinho deixou uma mensagem carregada de fé e resiliência, refletindo o que viveu naquele dia ao lado da amiga e parceira de dança.
“Uma mensagem que resume tudo o que eu estou sentindo hoje, ao lado da Rute, e que levo para a minha vida, assim como ela leva para a dela, é que ainda temos muita lenha para queimar.
Deus é misericordioso, Deus é bom demais, e nada é por acaso. Tudo vem para nos fortalecer. Mais cedo ou mais tarde, entendemos, no tempo de Deus — e não no nosso — os propósitos Dele. Mesmo quando não entendemos, Deus sabe o que está fazendo. Hoje foi uma grande prova. Eu tenho comigo uma mulher muito forte, uma verdadeira fortaleza. A gente se abraça muito nesses momentos e se fortalece. Com o apoio da escola, da gestão, da diretoria, dos componentes, das pessoas, isso só nos levantou ainda mais. Estamos muito felizes, apesar dos pesares.”
Rute retribuiu o carinho do companheiro de dança na mesma intensidade.
“Eu dou 10 para o meu mestre-sala e quero dizer que tenho muito orgulho de ser a porta-bandeira dele. A escolhida do coração dele.”
O ensaio técnico da Viradouro foi, assim, um retrato de união, fé, profissionalismo e amor ao pavilhão, traduzidos na dança e na entrega de Rute Alves e Julinho Nascimento, que transformaram dor em força e emoção em arte na avenida.










