A Unidos de Vila Isabel chega ao Carnaval 2026 mergulhada em memória, arte e ancestralidade com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, uma homenagem ao multiartista Heitor dos Prazeres. Desenvolvido pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, o tema propõe um diálogo profundo entre o samba, a cultura afro-brasileira e a vida cotidiana do Rio de Janeiro, a partir da ideia de que samba é macumba e macumba é samba.

Na linha de frente desse espetáculo, a escola aposta novamente na assinatura artística de Alex Neoral e Márcio Jahu, coreógrafos que acumulam mais de duas décadas de trajetória na dança e que, em 2026, encontram no enredo um espelho direto de suas próprias vivências criativas.
Para Márcio Jahu, o projeto tem um significado especial justamente por essa conexão íntima entre vida, arte e desfile.
“O enredo dessa comissão fala muito do que a gente gosta de desenvolver. Nós trabalhamos com dança há mais de 20 anos, e acho que essa comissão dialoga diretamente com o que a gente faz na vida. Não que nas outras vezes não tivesse sido assim, mas agora sentimos que tem muito mais a nossa cara.”
A fala traduz um sentimento recorrente ao longo da preparação: o de pertencimento. A comissão não surge apenas como uma solução coreográfica para abrir o desfile, mas como uma extensão da identidade artística da dupla, em sintonia direta com a proposta simbólica da Vila Isabel.
Alex Neoral destaca que essa sintonia também se reflete no ambiente interno da escola e na relação construída ao longo do tempo.
“A diferença de 2025 para 2026 é que estamos tendo mais liberdade criativa. Mais confiança da escola. Acho que, a cada ano, a gente afina mais essa parceria.”

Essa confiança permite ousar mais, aprofundar conceitos e assumir riscos criativos — algo fundamental para um enredo que atravessa espiritualidade, música, corpo e território. A comissão de frente, nesse contexto, se transforma em um ritual de abertura não apenas do desfile, mas da própria narrativa que a Vila Isabel deseja apresentar.
Outro elemento que reforça essa proposta é a estreia da cabine espelhada, que transforma a apresentação em um espetáculo verdadeiramente circular. Para Márcio Jahu, a novidade chega para validar uma escolha artística que já fazia parte da linguagem da dupla.
“Em relação à cabine espelhada, estamos muito confiantes. Acho que é algo que veio para contribuir. A gente já tinha essa preocupação de privilegiar todos os lados, e, se as pessoas observarem nossos últimos trabalhos, vão perceber que não viramos de frente apenas para um jurado. Essa mudança valida uma crença que já era nossa. É muito bom, porque todo espetáculo ganha com isso.”
A fala revela uma concepção de espetáculo que rompe com a lógica frontal e hierárquica, propondo uma experiência mais democrática, em que todos veem e são vistos. Um conceito que dialoga diretamente com a obra de Heitor dos Prazeres — artista que transformou o cotidiano do povo negro em arte, dança e resistência.
Em 2026, a comissão de frente da Vila Isabel não apenas abre o desfile: ela convoca, gira, ritualiza e apresenta um carnaval que nasce do corpo, da memória e da ancestralidade. Um trabalho que carrega assinatura, maturidade e, acima de tudo, verdade artística.








