A Portela se prepara para o Carnaval 2026 atravessando um tempo de recomeço. Com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, a escola mergulha na ancestralidade negra do Sul do país para contar a história de Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, africano do Benin que se tornou símbolo religioso, político e de resistência no Rio Grande do Sul. Um desfile que fala de fé, identidade e permanência.

Na condução desse pavilhão carregado de história estão Marlon Lamar e Squel Jorgea, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da águia altaneira, vivendo um momento que vai além da técnica e da coreografia: é simbólico, político e profundamente emocional.
Para Marlon, o desfile de 2026 representa um marco de virada dentro da própria Portela.
“O início de tudo, né? É um novo começo, uma nova história. Eu acho que tudo começa em um sonho. E a Portela está realizando um sonho depois de uma eleição difícil. O Júnior lutou bravamente para que esse resultado chegasse. É um cara destinado, acho que estava entrelaçado com a história dele virar presidente da Portela.”

A leitura do mestre-sala não se restringe à administração, mas alcança toda a escola e seus segmentos.
“Sinto que é um começo para todos nós. Para nós, mestre-salas e portas-bandeiras; para ele, como presidente; para a escola como um todo. E, claro, essa energia maravilhosa que a gente está sentindo em Oswaldo Cruz e Madureira, na Portela inteira.”
Quando o assunto é fantasia, Marlon preserva o mistério — elemento essencial do carnaval —, mas deixa escapar o sentimento que o figurino carrega.
“Ah, eu acho que faz parte do segredo, né? O carnaval ainda tem essa peculiaridade de você não saber de fato… de deixar para o momento. Mas posso garantir que, como portelense, vai emocionar a nossa nação. Isso, para mim, é irrefutável. Vai ser muito linda. Aos modos da Portela.”
Outro desafio que atravessa o trabalho do casal em 2026 é a cabine espelhada, que amplia o número de jurados e exige uma dança pensada em múltiplas direções. Marlon encara a mudança com maturidade e bom humor.
“Com certeza muda o posicionamento. Agora a gente evita ficar muito de costas para uma cabine. Elaboramos uma coreografia com movimentos em 360 graus, para que haja uma ampla visão e uma expressão corporal muito mais definida.
Para quem está julgando, não pode ficar a sensação de falta de sincronismo ou de expressão. É um grande desafio para 2026. Essa cabine espelhada traz um desafio enorme, mas estamos movidos a desafios. Eram quatro jurados, agora são seis. É um presente de grego maravilhoso”, disse, aos risos.
Do outro lado do pavilhão, Squel Jorgea traduz esse novo cenário com clareza e serenidade. A responsabilidade aumenta, mas a essência permanece.

“A responsabilidade é a mesma. O que aumenta é a adrenalina, por sermos julgados por seis pessoas, seis olhares distintos. Aí, sim, é o desafio de agradar seis jurados. Antes eram quatro, agora são seis.”
Sobre a dança em si, Squel aponta para um carnaval em constante transformação — e para um casal que soube acompanhar esse movimento.
“Hoje isso já se tornou algo natural para a gente. O carnaval mudou, e a nossa coreografia também, assim como a nossa passagem pela avenida. A gente acabou se adequando a novos métodos.”
Em 2026, Marlon Lamar e Squel Jorgea não apenas dançam: eles atravessam um enredo que resgata histórias silenciadas, levantam uma coroa simbólica e conduzem a Portela por um caminho de fé, resistência e renovação. Um casal que une tradição e adaptação, emoção e técnica, passado e futuro — exatamente como pede o mistério do Príncipe do Bará sob o céu aberto do Rio Grande.








